Ttulo: O Segredo da Esfinge.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Livros Abril, So Paulo, 1985.
Ttulo Original: Moonlight on the Sphinx.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Cristina Ferreira.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.


Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente  leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de direitos de autor,
este ficheiro no pode ser distribudo para outros fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.


A mais famosa e perfeita autora de romances histricos, com
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O segredo da Esfinge


Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.


Ttulo original: "Moonlight on the Sphinx"


Copyright (c) Barbara Cartland 1984


Traduo: Flora Sellers RIM


Copyright para a lngua portuguesa: 1985 Abril S. A. Cultural - So Paulo


Esta obra foi composta na Artestilo Compositora Grfica e impressa na Editora Parma Ltda.


NOTA DA AUTORA

Em 1882, o revoltoso Arabi Pasha foi preso e encarcerado no Ceilo, e at 1901 no pde voltar ao Egito. Morreu em 1911, e hoje  heri nacional desse pas.
Quando os ingleses o venceram, o governo do Egito encontrava-se em caos completo. O Quediva (ttulo do governador do Egito durante a soberania turca) no tinha autoridade
nenhuma, o pas estava  beira da falncia e as prises encontravam-se superlotadas; ningum conseguia pagar suas dvidas, e o prprio Quediva viu-se obrigado a
recorrer ao tesouro dos templos religiosos para pagar o saldo dos oficiais.
Lorde Cromer foi trazido da ndia a fim de pr ordem nesse quadro catico, e, ajudado por um formidvel exrcito ingls, dirigiu o governo egpcio por longo tempo.
Em meio s inmeras intrigas, compls, revolues e crises Polticas, Cromer no s conseguiu pr fim s sangrentas rebelies como veio a tornar-se, na prtica,
o verdadeiro governante do Egito.
Novos e ousados programas foram postos em execuo; iniciou-se a construo da grande represa de Assu; as leis egpcias foram reformadas e os trabalhos forados,
eliminados; reconstruram-se velhas ferrovias e o exrcito foi disciplinado pela Primeira vez. Cromer ficou conhecido simplesmente como Lorde".


CAPITULO I

1896

O sol brilhante reverberava sobre as casas muito brancas de Alexandria, cujos grandes terraos substituam, com vantagem, os telhados comuns ocidentais. Destacando-se
na brancura dos terraos, um ponto escuro movia-se rapidamente, pulando de uma casa para outra, procurando escapar de algum perigo iminente.
Era um homem cujas feies denunciavam carter firme e determinado. Parou por uns instantes, ofegante, procurando com olhos escuros e perspicazes um modo de se safar
de to perigosa situao. Bem prximo havia um grosso encanamento de guas fluviais, velho e enferrujado. O homem respirou fundo, rezando para que o cano o aguentasse,
e, com movimentos geis e felinos, despencou pelo cano, em busca de uma janela aberta. Para sua sorte, dois andares abaixo encontrou uma.
Firmou-se no parapeito, largou o cano e pulou maciamente no cho. Sabia que j tinha sido visto por muitos curiosos, e no podia perder tempo. Dentro em pouco, suas
faanhas seriam informadas na portaria do prdio em que acabara de entrar. Logo percebeu que se encontrava num hotel, o que prejudicava bastante seu trabalho.
Correu os olhos em volta e achou-se numa daquelas salas de banho to comuns na Alexandria. Os hotis geralmente no dispunham de banheiros privativos, mas de grandes
salas prprias para banhos, uma em cada andar.
com rapidez, despiu-se, abriu as torneiras da grande banheira e, enquanto esta se enchia, enfiou as roupas por baixo dela, de modo a escond-las perfeitamente entre
os quatro ps de ferro, muito baixos.
Examinando melhor o recinto, achou uma pilha de toalhas
limpas numa prateleira e, pendurada num gancho, uma grande tnica turca, de tecido branco e esponjoso. Sorriu, satisfeito.
Essas tnicas eram outra inovao inglesa, introduzida nos hotis de boa classe em todo o Egito. Exatamente o que precisava.
No havia tempo para tomar banho, o que era uma pena. Depois de tudo por que passara, sentia necessidade de se lavar, mas sabia que no poderia dar-se ao luxo de
perder tempo.
Lavou rapidamente os ps e o rosto, a fim de livrar-se um pouco da acusadora fuligem, e enxugou-se numa das toalhas que tirou da prateleira. Enfiou-se depressa na
tnica branca, passou os dedos nos cabelos negros, depois de
molh-los, e abriu a porta do banheiro, que dava para um longo corredor.
Viu que havia dois homens no muito longe e, cautelosamente, voltou para o banheiro, espiando pela porta entreaberta. Percebeu que trocavam palavras com um servente
do hotel.

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Embora no conseguisse ouvir, notou que os dois tentavam persuadir o servente a usar a chave-mestra para abrir uma porta, justamente do lado por onde entrara. Sem
dvida nenhuma, estavam  sua procura.
Depois de hesitar um pouco, o servente concordou e abriu a porta, deixando-os entrar no quarto. Dentro em pouco estariam abrindo tambm a porta do banheiro; no
havia tempo a perder.
O homem resolveu tentar descer pela escada, sabendo que seria uma tentativa desesperada, que lhe dava poucas chances de escapar. Esgueirou-se silenciosamente, cerrou
a porta e virou-se em busca da escada de servio.
Nesse instante, bem  sua frente, um garom saa de outro quarto, carregando uma bandeja com restos do desjejum de algum. Pela porta semiaberta, o homem avistou
por breves instantes os louros cabelos de uma moa que lia um jornal sentada na cama.
Sem hesitar um segundo, atravessou com duas passadas o corredor, chegando justamente a tempo de evitar que o garom fechasse a porta. Armou um sorriso despreocupado
e alegre, encarando o surpreendido garom.
- Tambm estou hospedado neste quarto. Traga-me dois ovos quentes, caf, po e manteiga. Ah, e no se esquea da gelia!
- Muito bem, sir.
Assim que o garom se retirou com uma mesura, o homem entrou no quarto com ares de dono, fechou a porta e voltou-se. Diante dele a assustada moa loura
fitava-o, com um par de olhos azuis desmesuradamente abertos.
Octavia Birke resolvera comer tudo o que pudesse no caf da manh, para depois no sentir fome; talvez assim conseguisse economizar o dinheiro do almoo.
Dessa maneira, forara-se a engolir todo o po com gelia, alm de dois ovos cozidos, que abominava. No tinha ideia do que iria lhe acontecer, e estava cheia de
medo de enfrentar os dias futuros, que se prenunciavam tristes e solitrios.
Fazia pouco mais de uma semana que seu irmo Tony entrara em seu quarto, em Priory, a fim de acord-la para transmitir-lhe a triste nova; no entanto, parecia-lhe
que um sculo se passara desde ento.
Estava dormindo profundamente, exausta de tanto cuidar da casa e do pai. Fazia dias que trabalhava intensamente; sabia que seu irmo Tony chegaria naquela noite,
e tratara de preparar um jantar razoavelmente decente para ele, embora dispusesse de fracos recursos.
Tony chegou de mau humor, reclamando da magra comida. Felizmente, encontraram uma velha garrafa de clarete no sto, o humor do rapaz melhorou depois dessa descoberta.
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Durante o jantar ele falara bastante, mas Octavia estava cansada demais para escutar ou responder. Quando terminaram a simples refeio, ela comeou a empilhar os
pratos para lev-los  cozinha quando Tony disse:
- Preciso muito falar com voc, e  coisa importante. Mas vejo que hoje est mais cansada que de costume, portanto deixarei para amanh. V para a cama.
- Mas... e o papai?
- Eu durmo no quarto dele hoje. Se for preciso, chamarei voc.
- Promete, no ? Sabe, Tony, ele mal se mexeu o dia todo. Est em coma profundo; mesmo assim, o doutor acha que ainda h alguma esperana.
Pela expresso do irmo, logo percebeu que ele no queria ter esperanas, e continuou depressa:
- Estou mesmo desesperadamente cansada. Depois do que
voc me contou sobre nossa situao financeira, no tive coragem de contratar outra empregada, de modo que estamos somente com a velha Colette.
- Que s atrapalha, em vez de ajudar.
- Sim, est muito velha. Mas  barateira e boa; e no come muito. Na verdade, gastamos bem pouco com ela.
- Isso  bom, porque estamos quase falidos.
- Bem sei, Tony. Voc me explicou tudo antes de ir para Londres, e confesso que fiquei bastante alarmada.
- Minha inteno no era essa, desculpe.
- No, no. Prefiro saber tudo.
Hesitou, olhando para o irmo. Sabia que ele tinha ms notcias. Como se no bastassem as que lhe dera antes de viajar.
- Voc disse que tinha de falar comigo, Tony.  muito importante mesmo?
- Pode esperar at amanh.
Octavia sabia que o assunto tinha algo a ver com a montanha de dvidas do velho pai, mas simplesmente no queria saber de mais nada, a no ser dormir.
Teriam de enfrentar os fatos, ela e Tony, mas no naquele momento. Seu corpo todo ansiava por descanso e parecia gritar: "Hoje no, hoje no!"
Tony enterneceu-se com o rosto plido e desfeito da irm, e repetiu carinhosamente, colocando a mo em seu ombro:
- Precisa descansar, Octavia. Voc tem sido de ferro, uma verdadeira herona. V dormir, ande; guardarei minhas notcias para amanh, quando estiver melhor.
- Obrigada, mano. Na verdade, mal consigo manter-me em p.
- Deixe os pratos; eu mesmo os lavo.
Agradecida, Octavia subiu para seu quarto, no sem antes passar pelo do pai.

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O luar iluminava o rosto emaciado do quarto de lorde Birkenhall, que repousava na pesada cama de carvalho.
Ele sofrera um derrame duas semanas antes, e desde ento entrara em coma. Nos ltimos dias, no podia mais mover nem os olhos, mantendo-os fechados o tempo todo,
para grande tristeza de Octavia. Era-lhe difcil acreditar que seu pai ainda vivia, mas o mdico dissera:
- Onde h vida h esperana, minha filha.
Era duro para Octavia admitir a verdade, mas o fato  que ela preferia que seu pai morresse sem recuperar a conscincia. Sabia que o doutor ficaria chocado se ela
externasse seu pensamento, e limitou-se a sorrir fracamente, enquanto ele continuava:
- Sinto muito no poder fazer grande coisa, Sr. Birke. Sei que  difcil tomar conta de um doente e ainda cuidar da casa.
- Sempre se d um jeito, doutor.
Quando Tony chegara, naquela noite, Octavia tencionava dizer-lhe que no seria possvel prosseguir daquele modo. Contudo, o que quer que tivessem para dizer um ao
outro teria de esperar at ao dia seguinte. Assim, fechou a porta do quarto do pai e foi deitar-se, suspirando, aliviada. Mal encostou a cabea no travesseiro, adormeceu
profundamente.
Agora Tony sacudia-a, chamando-a pelo nome. Lentamente, passou do sonho  realidade, atravessando desconhecidas camadas do subconsciente, esforando-se para abrir
os olhos. Pensou vagamente que era uma crueldade o irmo acord-la, depois de to poucas horas. Estremunhada, esfregou os olhos.
- Vamos, Octavia, acorde!
- O que foi?
- Papai morreu.
Por alguns instantes ela no entendeu. De repente, sentou-se na cama, como que movida por uma mola.
- O qu? Morreu?
- Morreu, Octavia.
- Preciso ir v-lo!
- Para qu? Nada pode fazer por ele agora. Est morto! O corao parou de bater.
- Pobre papai.
- Ao contrrio, mana, ele est bem. Pobres de ns, isso sim! Temos de tomar alguma providncia, e bem depressa.
- Como assim?

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- Vamos fugir agora. Vista-se j!
- Fugir! No entendo, Tony. Explique-se melhor!
- Escute bem, maninha. Era isso o que eu queria lhe dizer ontem  noite, mas voc estava cansada demais. Agora, nosso Problema  tempo. Por enquanto,  preciso agir
sem maiores explicaes, portanto, arrume-se depressa.
- Eu. ainda no estou entendendo.
- Entender mais tarde, ande.
- No, Tony. Quero saber agora.
Ele ficou silencioso, sentado na beira da cama. Depois decidiu-se:
- Sabe de quanto  a dvida de papai?
- No. Na verdade, nunca quis pensar nisso.
- Pois agora precisa faz-lo. Cinquenta mil libras!
- No. no acredito!
-  verdade. Estive com os procuradores, em Londres, e tambm com os executores do testamento de papai.
- Meu Deus! Que vamos fazer?
- Fugir, muito simplesmente. No temos dinheiro para pagar os credores, Octavia! Os advogados e executores que se arranjem sozinhos, pois nada poderemos fazer.
- Mas. fugir, como?
- Preste bastante ateno. Pensei muito no caso, e agora sei que a nica coisa a fazer para no nos envolvermos nesse escndalo todo  escapar daqui. Temos de nos
livrar dos credores, que so muitos. E dos fofoqueiros, que no faltaro, quando souberem que no podemos pagar um s penny...
- Mas no devemos fazer isso, Tony.  fugir da responsabilidade que temos!
- Claro que . Mas no h outro caminho, Octavia.
- Podemos vender nossas coisas.
- Entenda, a casa no pode ser vendida, porque est vinculada ao ttulo de lorde Birkenhall.  um fidei-comisso.
- Que  isso?
-  meio complicado de explicar, mas, de acordo com as leis, a casa  herana compulsria. No pode ser vendida por ningum, nem que seja declarada a falncia de
papai. No entanto, as terras que ele comprou em vida, bem como os mveis que no fazem parte da herana, esses sim, podem ser vendidos pelos credores.
Tony riu sem alegria, para continuar:
- E voc sabe to bem quanto eu que papai andou vendendo tudo, at mesmo o que no podia. Tudo o que sobrou para mim foram alguns velhos retratos a leo que nada
valem, alm desta moblia roda de cupim e toda mofada.

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- Ele. agiu mal, vendendo coisas que deviam ser herdadas por voc, Tony.
- O pouco que consegui salvar vai ajudar-nos a viver por alguns meses.
- Essa moblia velha? No vale dois shillings.
- No, no. Sabe, eu vendi a prataria que estava naquele ba do sto. E tambm a loua chinesa.
Tony! Como teve coragem? Mame tinha verdadeira adorao por essas peas, tanto que papai no as vendeu por causa disso...
- Eu tambm no as venderia, mas os credores no querem saber de sentimentos, Octavia. Eles venderiam tudo - e a sim  que ficaramos sem nada de uma vez!
A irm no respondeu. Tinha os olhos cheios de lgrimas. Tony afagou carinhosamente a cabea de Octavia e falou baixinho:
- No fique triste, mana. Tnhamos de nos arranjar de algum modo, ao menos para comer decentemente. Mais do que tudo, eu tinha de comprar passagens para Alexandria.
- Mas. voc ficou doido? Alexandria?
Tony sorriu, o que sempre o deixava muito atraente.
- Andei pesquisando e soube que Virginia ir em seu iate para l, na prxima semana. Pretende viajar ao Cairo depois e eu quero ir com ela.
Octavia ficou perplexa. Sabia que seu irmo andava de namoro com a rica americana, mas no pensara que a ligao fosse to forte a ponto de ele querer ir at ao
Egito por causa dela. No conhecia Virginia ainda, pois nunca pudera debutar nos sales dourados de Londres, por pura falta de dinheiro. Tony, porm, no precisava
de bailes de apresentao, e sempre que podia frequentava as elegantes recepes, principalmente as de abertura de estao. Mesmo sem dinheiro, costumava dizer:
- Enquanto tiver roupas adequadas, posso aceitar quantos convites quiser, j que no preciso gastar um penny.
Portanto, ele no sentia tanto a pobreza quanto sua irm, e circulava no meio dos nobres, tratando-os de igual para igual. Certa vez, voltou de uma festa deslumbrado
com Virginia Vanerburg, de quem falava incessantemente. Octavia pensou que

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fosse um entusiasmo passageiro, mas agora via que talvez estivesse enganada.
No entanto, ficou apreensiva com a animao quase infantil de Tony. Ser que uma herdeira americana, que tinha o mundo a seus ps, quereria se casar com um jovem
ingls nobre, porm. falido?
Como que respondendo a seus pensamentos, Tony disse, em tom convincente:
- Qualquer coisa me diz que, agora que o ttulo  meu, tudo ser diferente. As americanas tm um fraco por ttulos de nobreza e gostam de ser invejadas pelas amigas.
Ademais, Virginia gosta de mim, l ao modo dela.
A simplicidade com que disse isso mostrou a Octavia que ele aceitava com naturalidade o fato de que, sem recursos financeiros ou um ttulo, o amor no bastava para
sustentar um casamento. Contudo, isso era uma coisa com a qual ela prpria no concordava.
Mais uma vez, jurou que nunca se casaria por dinheiro ou posio, e sim por amor, aquele amor que conhecia atravs de romances e com o qual sonhava todas as noites.
com Tony, porm, sabia que as coisas eram diferentes. Depois da vida dissoluta e escandalosa do pai, dos gastos extravagantes que fizera em vida, do jogo desenfreado
que se tornara sua nica religio, o irmo estava absolutamente determinado a casar-se com algum que o ajudasse a reconstruir Priory e devolver-lhe a antiga opulncia,
a fim de poderem viver do mesmo modo que o av, o terceiro lorde Birkenhall.
Octavia achava que, provavelmente, seu pai fora mimado demais pelo av. De fato, os que o conheceram diziam que o av tambm fora extravagante e bastante prdigo
com sua fabulosa riqueza.
Segundo o que soube, o terceiro lorde Birkenhall adorava cavalos e montava muito bem, alm de praticar toda sorte de esportes; ao mesmo tempo, vivia dando festas
enormes e suntuosas quase todas as noites.
- Bons tempos aqueles, minha menina! - diziam os velhos, quando Octavia fazia perguntas acerca do av.
Seu pai contava-lhe coisas da prpria infncia como se tivesse vivido em pleno paraso. O av frequentava o palcio, onde era muito bem-vindo; promovia caadas 
raposa em suas terras,

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encontros musicais, saraus e banquetes, sempre profusamente regados a champanhe e caviar. Principalmente, havia muito jogo no castelo de Priory, onde em questo
de segundos imensas fortunas eram formadas, enquanto outras se dissolviam como fumaa.
O filho, pai de Octavia, naturalmente aprendera a observar o tipo de vida que o pai levava, e assim, logo que herdou tudo, simplesmente tratou de copiar a vida que
tanto o encantara em criana.
Mas os tempos haviam mudado. A vida agora era muito mais cara, e logo as fontes de reserva recebidas do terceiro lorde Birkenhall esgotaram-se. Quando amigos mais
sensatos vinham preveni-lo para que moderasse seus gastos, o quarto lorde Birkenhall apenas ria. Confiava na sorte e achava que tudo voltaria a seu devido lugar,
quando ganhasse uma boa soma no jogo. Arriscava cada vez mais alto, at que, finalmente, recebeu de Londres uma carta ameaadora e sombria, que ocasionou o derrame
fatal.
Agora estava morto, mas mesmo assim Octavia achava que no estava certo fugir daquele modo.
- No acha que deveramos esperar ao menos o... funeral?
- Por qu? Papai nem saber se fomos ou no ao enterro. Alm do mais, sabe quem  que vai? Os credores, maninha, mais os executores e advogados, loucos para saber
se sobrou alguma coisa com que possamos pagar as dvidas. No, Octavia, no vamos passar por mais essa vergonha. Nada de enfrentar esse bando de urubus de casaca!
Vamos embora daqui, e antes que o diabo esfregue um olho, estaremos bem longe!
- Qual  seu plano, ento?
- Muito simples. Andei economizando um pouco, e temos o suficiente para comprar as passagens e sobreviver alguns meses.
- E... papai?
- O mdico cuidar de tudo, fique descansada. Talvez a velha Colette ache estranho voc no estar presente, mas...
- No, ela no vir por uns dias - interrompeu-o Octavia. - Disse-lhe para tirar uma folga, porque devia-lhe dez shillings e no tinha como pagar.
- Por que no me pediu? Quando cheguei, Colette ainda estava aqui.

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- Fiquei com vergonha. Voc mal tinha voltado de Londres, cheio de preocupao, e ainda tinha de me dar dinheiro!
- Bem, de qualquer modo, foi melhor assim, porque facilitou nossa fuga. Teremos um pouco mais de tempo e sossego para escapar sem que percebam. Na verdade, no tenho
inteno de contar a ningum para onde vamos.
- Eu... no sei se podemos fazer isso. Quero dizer, acha certo fugir numa hora dessas?
Octavia estava acostumada a obedecer ao irmo, que era trs anos mais velho, e invariavelmente seguia seus conselhos sem protestar. Mas este caso era diferente;
tinha medo do que estava prestes a fazer, mesmo considerando que lorde Birkenhall no havia sido um modelo de pai extremoso. Seria enterrado s, acompanhado por
gente estranha, que no o amava.
Se lady Birkenhall estivesse viva, as coisas seriam bem outras. S ela sabia lidar com aquele homem bonito e leviano. Mas a me morrera havia seis anos, e agora
as lembranas que Octavia conservava do pai no eram muito boas, pelo menos as ltimas.
Ele s se preocupava consigo mesmo e pouca ateno dava aos dois filhos, largando-os ao deus-dar desde que perdera a mulher.
Octavia crescera em Priory, enquanto o pai passava a maior parte do tempo em Londres.
Como no tinha amigas com quem conversar, nada sabia das extravagncias do pai, nem desconfiava da vida que ele levava - um verdadeiro carrossel de prazeres sensuais
e divertimentos lascivos.
com seus amigos de farra, vivia  custa de jogos, festas e banquetes, gastando o que podia com noitadas regadas a farto vinho francs, sempre em companhia de lindas
mulheres do teatro de variedades.
Vez ou outra ele se envolvia num escndalo, logo abafado nos jornais,  custa de imensas somas.
Mas Tony sabia de tudo, e tinha verdadeiro dio dessas libertinas que, como ims poderosos, atraam as moedas de ouro para suas mos brancas e vidas.
S ele sabia as somas astronmicas aplicadas num cavalo que tinha tudo para ganhar, mas perdera numa tarde de azar; num s de ouro que teimava em se esconder justamente
na

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hora mais necessria; num dezassete preto que jamais saa na roleta. O rapaz ia a Londres a fim de pedir dinheiro ao pai, e voltava sempre de mos vazias, para encontrar
encanamentos enferrujados, telhas desabando, loua partida e paredes cheias de umidade.
- Como  que papai deixa a prpria casa nesse estado? - perguntava-se, desesperado.
Voltava a Londres, mas tudo o que via eram montanhas de dvidas crescendo a olhos vistos, sem mais possibilidade de retorno. Ultimamente o pai vinha sendo constantemente
importunado por credores, e fugia deles como um ladro qualquer.
O pior  que continuava belo, elegante e charmoso; ningum suspeitava que ele no mais dispunha de um s centavo, e poucos sabiam que estava a caminho da misria
mais negra e total.
Pois se at o Prncipe de Gales gostava dele e o admirava abertamente, recebendo-o como a um grande amigo! Nos musicais seu nome corria de boca em boca, tendo sido
mesmo objeto de uma cano obscena e licenciosa; dizia-se que qualquer mulher deixaria de lado um duque ou marqus por causa de lorde Birkenhall.
Na verdade, Tony desconfiava at que o pai perdera total conscincia da responsabilidade que tinha diante dos filhos; para ele, apenas as mulheres e o pano verde
tinham importncia.
Agora estava morto, e o fato  que no deixara dinheiro nem mesmo para um enterro decente.
- Escute bem, Octavia. Temos pouco tempo, entende? Arrume sua mala depressa, mas traga somente aquilo que vale a pena - o que no deve ser muito, afinal -, enquanto
eu fao o mesmo. Quando estivermos prontos, irei  fazenda e pedirei a Jake que nos leve  estao.
- E ningum vai desconfiar?
- Claro que no, mana. Sempre que vou a Londres fao a mesma coisa, de modo que no despertaremos a ateno de ningum.
Octavia ainda queria discutir com o irmo e tratar de persuadi-lo a ficar, porm conteve-se. Ele estava absolutamente certo; quando soubessem que o pai morrera,
os credores cairiam sobre eles, e as coisas certamente ficariam bastante desagradveis

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para ela e Tony. Ainda por cima havia um bando de conhecidos que se diziam amigos. Octavia sabia que eles tornariam as coisas muito piores.
Todos se mostrariam chocados com a vida desregrada do pai e iriam cochichar por trs: "Eu no disse?", com uma nota de triunfo na voz. Isso a faria sofrer muito,
e no estava disposta a aguentar esse tipo de comiserao hipcrita.
O pai jamais gostara dos parentes, que se espalhavam por aquela regio, e nunca fizera segredo disso. Agora, sabendo-o morto, certamente acorreriam, pressurosos,
a fim de consolar "as duas pobres e indefesas crianas".
- No, no posso aguentar toda essa hipocrisia! - falou Octavia, mais para si mesma que para o irmo.
Este levantou-se, dando-lhe a mo para ajud-la a fazer o mesmo.
- Voc me entendeu, no , irmzinha? Seja rpida, por favor. Lembre-se de no deixar nenhum objeto de valor, se  que ainda tem algum. Qualquer coisa que ficar
para trs ser imediatamente leiloada, e nunca mais a veremos.
Finalmente convencida, Octavia arrumou seu pequeno ba com as poucas coisas que ainda possua - muito poucas, de fato.
H muito tempo ela no sabia o que era um vestido ou chapu novo. Quando o pai vinha visit-la, o que era rarssimo, trazia umas poucas libras que logo desapareciam
da vista, em troca de farinha e salsichas. s vezes Octavia criava coragem e lhe escrevia, pedindo-lhe ajuda, a fim de poder pagar a governanta, os criados e os
jardineiros, que viviam mal vestidos e resmungando pelos cantos.
Se tinha sorte, recebia alguns guinus, que em seguida eram gastos para cobrir parte da dvida que se acumulava em Priory. Contudo, sempre era uma quantia pequena,
e gradualmente os criados comearam a deixar a casa. Os mais moos simplesmente pediam as contas; os mais velhos morriam e no podiam ser substitudos. Dentro de
algum tempo, Octavia viu-se sozinha no imenso castelo semi-arruinado.
A princpio ela mal acreditava no que estava acontecendo e convencia-se de que o pai, em sua prxima visita, sentiria pena e mandaria consertar tudo. Mas na verdade
o castelo foi se deteriorando, e nas poucas vezes em que lorde Birkenhall

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viera a Priory, Octavia acabara por perceber que ele o fazia porque estava sem um penny. Mal, porm, ganhava uns poucos guinus no jogo, j voltava a Londres, sorridente
e charmoso, dizendo-lhe com ar gaiato, antes de partir:
Volto rico, filhinha! Espere e ver!
E assim, um belo dia, sofreu o derrame que o levaria  morte em duas semanas.
Certa vez o pai chegara com ar muito sombrio e mal a cumprimentara. Vagueara pela casa  procura de objetos que pudesse vender; depois bebera sistematicamente todas
as garrafas que encontrara na adega, para grande tristeza de Octavia. Ela sabia que o pai era prdigo e namorador, mas no um bbado!
Gostava de bom vinho tanto quanto de boa comida, mas nunca bebera em excesso at ento; devia ser uma nova vlvula de escape para a grande presso que estava sofrendo.
A partir de ento, continuou a beber desbragadamente, e provavelmente fora a bebida que apressara sua morte, mais do que a fatdica carta recebida de Londres.
Octavia ainda podia v-lo quando acabara de ler a mensagem; ficara vermelho como um cravo e comeara a praguejar, arrancando os cabelos. Em seguida, uma espuma branca
aflorara-lhe aos lbios e um som rouco sara-lhe pela garganta. Finalmente cara para no mais se levantar.
Tony estava em Priory nesse dia, e, com a ajuda de um criado, conseguiu lev-lo para cima e deit-lo em seu enorme quarto, cuja moblia mida e mofada cheirava mal.
O mdico veio, embora soubesse que Tony no teria meios de pagar-lhe a visita, e tratou do doente como sempre. Dessa vez, porm, abanou a cabea, descrente. Nada
podia fazer.
Agora, tudo se acabara.
Antes de fechar o ba, Octavia subiu uma ltima vez ao quarto do pai. Era-lhe difcil acreditar que aquele velho emaciado e enrugado era o mesmo homem que brincava
com ela quando pequenina, o mesmo bonito e requestado lorde Birkenhall.
"No, este no  o meu pai", pensou, angustiada. " apenas seu corpo, vazio e sem alma. Prefiro lembrar-me dele como era h anos atrs; sei que. agora est em outro
lugar, rindo e se divertindo, ainda achando que a vida  uma eterna anedota."
Ajoelhou-se e comeou a rezar. Queria orar pelo pai, mas,

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sem querer, sua orao transformou-se num aflito grito de socorro.
"Olhai por ns dois, Senhor. No sei o que vai ser de nossa vida daqui para a frente, mas precisamos desesperadamente de Vossa ajuda! Ajudai-nos e cuidai de ns!"
Lgrimas comearam a correr de seus olhos azuis, mas no pelo pai. Octavia chorava por Tony e por ela prpria, porque estavam ss e no podiam contar com a proteo
de ningum. Eram dois jovens perdidos na imensa floresta do mundo.
Sentiu intensa e pungente saudade da me, to doce e carinhosa, que certamente a confortaria num momento como esse. Essa saudade voltava frequentemente, quando o
pai se ausentava por muito tempo, ou quando lhe faltava dinheiro para cuidar da casa.
Agora, porm, o sentimento era mais forte. Tony iria lev-la para longe do castelo, para enfrentar um mundo totalmente novo e desconhecido, talvez cheio de perigo
e armadilhas. Que lhe aconteceria? Como seria esse mundo estranho?
O medo avizinhou-se do pnico e insinuou-se em seu peito como uma grande cobra venenosa, pronta para o bote mortal. No entanto, sabia que tinha de mostrar-se forte;
devia acompanhar Tony para o que desse e viesse, deixando para trs as doces memrias da infncia, enterradas para sempre no solo rido e sem vida de Priory. Que
mais podia fazer?
O futuro pareceu-lhe um longo e escuro corredor, sem portas por onde pudesse escapar. Caminhava por ele tateando, sem saber para onde ia, nem se havia sada no final.
Lembrou-se de Tony e reanimou-se um pouco. Ele velaria por ela; com seu irmo, no precisaria sentir medo de nada.
De repente, lembrou-se que devia estar rezando pelo pai. Sentindo-se envergonhada de seu egosmo, rezou fervorosamente para que Deus lhe concedesse paz, onde quer
que ele estivesse agora.
Recusava-se a pensar nele como o vira pela ltima vez, deprimido, bbado e velho; queria lembr-lo como havia sido quando ela era pequena, elegantemente montado
num belo cavalo, pulando obstculos como um grande cavaleiro, levando-a para galopar nas pradarias - e, acima de tudo, risonho e alegre.
O eco de sua risada parecia soar ainda pelas paredes tristes e encardidas do quarto, levantar voo e juntar-se ao canto dos

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pssaros na floresta do parque. Seu pai fora bonito, autoritrio, senhor de si. Essa era a lembrana que queria guardar em seu corao.
De nada adianta discutir com seu pai, minha querida.
Ele consegue tudo o que quer - dizia sua me.
De fato, tudo o que queria ele obtivera, quase at ao fim da vida. No entanto, fora-se sem deixar nada para os filhos, a no ser dvidas e a vergonha de um grande
escndalo.
Octavia entendia perfeitamente por que Tony queria fugir dali, e, naquela manh nublada, j dentro do trem que os transportava, o irmo explicara melhor suas razes.
Sim, ela no podia deixar de concordar com ele; o melhor era mesmo fugir de Priory - talvez para sempre.
Desceram na Estao Waterloo e dali pegaram uma balsa que os levaria a Tilbury.
- Claro que teria sido melhor se pudssemos pegar um vapor direto em Southampton, maninha, mas assim fica muito mais barato. Temos de economizar cada tosto, seno
estaremos pedindo esmola antes de chegar ao Egito!
- Sim, Tony, est tudo bem. No se preocupe comigo. Na verdade, nem sei como conseguiu economizar o bastante para esta viagem.
- J lhe disse que vendi a loua e a prataria de mame. Foi o que nos salvou, mana! Pudemos at arranjar um lugar de segunda classe, no foi bom? Imagine se tivssemos
de vir de terceira!
- Sim, foi muito bom. Mas estou sendo um peso morto para voc, Tony.
- Bobagem! Decidi traz-la porque seria muito injusto deix-la com aquele bando de abutres.
- , teria sido difcil para mim enfrentar sozinha aquela gente toda.
Foi o que pensei! Alm do mais, os jornais pouco podero falar de ns, j que no estamos l para nos defender.
- Os jornais! Vo falar de ns?
Papai era uma celebridade, de certo modo. Quando estive em Londres, houve rumores de que ele estava doente, e eu tive de me livrar de um bando de reprteres que
queriam notcias.
- Estranho! Por que estariam to interessados?
- Acho que  porque daria uma boa histria, daquelas" bem

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escandalosas, que os leitores adoram. Papai era sempre notcia, onde quer que fosse. Seria um prato e tanto contar que ele morreu na misria.
Tony falou a ltima palavra baixinho, como que envergonhado.
- Acha que vo sair muitas notcias desse tipo?
- Acho que sim. Os reprteres so bisbilhoteiros e novidadeiros. Mas voc no vai ler uma nica linha a esse respeito; no deixarei! Por isso,  bom estarmos longe
de Priory. Nenhum jornalista abelhudo vir perguntar quantos litros de lgrimas voc derramou e quais so seus planos para o futuro. Ainda bem que pelo menos- disso
estamos livres!
Tony mexeu-se no banco, desconfortvel. Depois prosseguiu, com falsa animao:
- Esta  uma das razes por que devamos fugir. A segunda, como j sabe,  que teramos de arcar com as dvidas de papai, apesar de ele ser o nico responsvel por
elas.
Tony parecia mais amargo do que o habitual, e Octavia, penalizada, afagou-lhe o brao.
- Sei que voc Vai achar uma sada para essa situao, mano.
- Vai ser difcil, a menos que Virginia aceite casar-se comigo.
- No h outro meio?
- Talvez haja, mas s esse me interessa no momento. Amo Virginia, Octavia. Ela  adorvel, encantadora! Entendo bem que seja difcil para ela amarrar-se a um homem
sem eira nem beira, e essa  a parte que mais me machuca. Se eu fosse rico, no teria tantos problemas de conscincia. Bem, mas em compensao, agora sou o quinto
lorde Birkenhall, lembre-se disso!
Ocorreu a Octavia que, se Virginia realmente amasse Tony, pouco se importaria com dinheiro ou ttulos de nobreza. Pelo menos, ela prpria agiria assim; contudo,
Virginia era de um mundo muito diferente do seu, e talvez fosse melhor guardar suas ideias para si mesma.
- Se papai no tivesse levado uma vida to desbragada, eu teria entrado para o exrcito assim que sa da escola. Mas qualquer oficial de regimento tem de ter uma
mesada, e eu sabia que papai jamais me mandaria uma, nem que apenas fosse

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suficiente para eu sobreviver. Assim, tive que desistir da ideia de ser oficial.
- Mas voc no podia trabalhar para ganhar o dinheiro?
- Como?  claro que cheguei a pensar nisso, mas nobres no trabalham, como voc sabe. Alm disso, eu no tenho qualificao para emprego nenhum. S sei esgrima,
lnguas, equitao enfim, tudo o que um nobre deve saber. Mas isso no serve para arranjar empregos.
Octavia suspirou e segurou com fora a mo do irmo, buscando segurana.
- Tenho certeza de que Miss Vanerburg vai querer se casar com voc. Qualquer moa ficaria honrada de ter um marido como voc, Tony.
- Obrigado, irmzinha! - respondeu ele, rindo e dando-lhe um sonoro beijo. - Agora teremos de achar um marido bem rico para voc tambm.
Por um momento, Octavia julgou que o irmo brincava. Mas os olhos dele estavam srios, e ela respondeu prontamente, assustada:
- Isso nunca!
- No seja boba, querida.  mais do que evidente que voc precisa de um marido, e quanto antes melhor. No h escolha, mana. Por isso tambm preferi o Egito. Sei
que l h muitos oficiais britnicos e turistas ingleses. Por outro lado, o Cairo  uma cidade com forte influncia inglesa. L voc ter timas chances - e muito
menos competio do que em Londres.
Octavia no queria brigar, por isso limitou-se a olh-lo, cheia de espanto.
- Voc  muito bonita, irmzinha, sabe disso, no ? com roupas apropriadas, ter dezenas de homens a seus ps!
Ela queria protestar, dizer que tudo isso estava totalmente fora de seus planos, mas no encontrou voz. Calou-se e ficou contemplando a paisagem, enquanto o irmo
continuava com planos mirabolantes para seu futuro, at chegarem a Tilbury.
L pegaram um pequeno vapor, sujo e malcheiroso, "que os levaria para Alexandria.
Mais tarde, quando a viagem terminou, Octavia ficou pensando como havia sido desagradvel a estada no vapor. Queria apag-la rapidamente de sua" memria.
A embarcao era pobre e desconfortvel, cheia de gente a

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quem Tony olhava com desdm; alm do mais, o mar estava bravo e turbulento, o que fez com que todos ficassem enjoados.
Mas Octavia estava to extenuada por causa do pai e do trabalho que tivera nos ltimos dias que, felizmente, conseguira dormir durante toda a travessia. Sua cabine
era pequena, o colcho cheio de calombos e o cheiro forte e nauseante, mas mesmo assim ela s despertou quando atingiram o mar alto.
Quando se levantou e viu o azul cristalino daquelas guas tranquilas, e sentiu os raios dourados do sol brincando em seus cabelos, achou que seria melhor parar de
se sentir desamparada. Muito mais fcil seria acreditar que, uma vez chegados ao destino, tudo correria melhor para os dois!
Dessa forma, decidida a no ter pensamentos negativos, quando desceu em Alexandria, muitos dias depois, conseguiu esquecer os dissabores e extasiar-se diante daquele
pas estranho e misterioso.
Tony primeiro levou a irm para um hotel e depois deixou-a, a fim de procurar Virginia.
Mais tarde ele voltou sorridente e animado, explicando que encontrara o iate de Virginia no ancoradouro. Ela porm, havia sado com alguns amigos e voltaria somente
na hora do jantar.
- Estou contente por voc, Tony.
- Acho que ela tem uma poro de gente, hospedada a bordo. Vai ser divertido, Octavia! vou lev-la para o Cairo nesse iate, e sei que voc vai se divertir um bocado
com os da turma de Virginia.
Octavia sabia que ele se referia a homens, e estremeceu involuntariamente. Ela conhecera pouqussimos homens em toda a sua vida. Assim mesmo, homens muito mais velhos,
como o abade de Priory.
No sabia como se sairia diante de homens jovens, de sua idade, talvez at possveis pretendentes. Era uma pequena provinciana, que jamais sara de sua regio e
nada conhecia sobre a vida mundana.
Tony, no entanto, excitado por ter encontrado o iate de Virginia, no percebeu o desconforto da irm. com o corao apertado, Octavia se perguntava se Tony estava
encantado com a americana ou com o dinheiro dela!
s seis em ponto, Tony vestiu-se com esmero e avisou a Octavia que iria voltar ao cais.

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- No desfaa as malas, maninha! Venho busc-la ainda
hoje, a fim de lev-la para o iate. Deseje-me boa sorte, sim?
- Claro, Tony. Que tudo corra muito bem para voc!
- Por que no vai passear um pouco para matar o tempo?
- Sim, talvez v.
Mas Octavia estava por demais nervosa e preferiu ficar no quarto,  espera do irmo.
Duas horas depois, Tony bateu  porta e entrou.
Imediatamente ela percebeu que alguma coisa sara errada, e o corao
disparou-lhe loucamente.
- O que foi, Tony? No encontrou Virginia?
- Encontrei, sim - Ele se sentou, pegando a mo da irm. - Mas acho que no vai gostar do que tenho, para lhe dizer.
- O que ? Diga logo, j estou nervosa!
- Virginia ficou muito feliz quando me viu. Falando francamente, acho que ela at - sentiu saudades de mim, a julgar pelo modo como me recebeu. S que mudou de ideia
a respeito de viajar para o Cairo.
- Isso  tudo? Aconteceu mais alguma coisa?
A pergunta foi feita a medo, porque Octavia sentia que havia algo por trs da fisionomia fechada do irmo.
- Ela quer ir para Constantinopla. Alguns amigos convenceram-na de que  um lugar lindo, muito mais interessante que o Cairo.
- Constantinopla. sim, deve ser lindo!
- Virginia faz questo que eu v junto. S que... o iate est superlotado, e... ela disse que no h lugar para voc.
As ltimas palavras saram baixinho, como se Tony tivesse dificuldade de pronunci-las.
Houve um silncio pesado. Depois Octavia perguntou timidamente:
- Ento. que devo fazer?
-  fcil! Volte para casa.
- No! - gritou ela, angustiada. - Como posso voltar?
- H navios para Londres quase todos os dias. Tudo o que tem a fazer  pedir ao recepcionista do hotel que reserve uma passagem para voc num deles. Oua, mana,
vou partir com Virginia agora. Preciso ir! Tente compreender, Octavia, no tenho outra escolha! Ela quer que eu v; se eu recusar, talvez no a veja nunca mais!

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Havia um ar culpado nos olhos de Tony, enquanto ele apertava as mos frias de Octavia entre as suas.
- Sim... claro, voc precisa ir. Eu. estarei bem, no se preocupe.
Tony deu um longo suspiro de alvio.
- Sabia que me compreenderia, irmzinha. Algum dia retribuirei esse favor a voc, querida - palavra de irmo.
Octavia sabia que ele falava pensando em seu vantajoso casamento com Virginia.
- Tudo bem, Tony. Estarei tima - repetiu, mais para se convencer tambm.
- Ento no se esquea de pedir ao recepcionista para reservar uma cabine para voc no prximo vapor. Amanh j vai sair um; veja se consegue lugar nesse mesmo.
Tony levantou-se da cama, sorridente, j com ar despreocupado.
- Voc me compreende, no ? Sinto-me pssimo de ter que agir assim: Sabe, eu tentei muito, fiz o que pude para levar voc comigo, mas Virginia me afirmou que seria
impossvel acomodar outra mulher a bordo.
- Eu vou voltar  Inglaterra. No se aflija.
- Sim, e quando voc chegar, as coisas j estaro bem mais calmas. Ver como ningum vai incomod-la pedindo para pagar dvida nenhuma. Alis, por lei, eu  que
devo pag-las, no voc.
- Eu sei, Tony.
- Escreverei sempre que puder, e logo que aparecer uma chance, mandarei
busc-la.
- Est bem, Tony - respondeu, mecanicamente. - Seja feliz. Adeus.
Ele a abraou e deu-lhe um beijo.
- Voc  maravilhosa, a melhor irm do mundo!
Em seguida tirou o relgio do bolso e exclamou, assustado:
- Como o tempo passa! Preciso correr, seno perderei o iate. Adeus, Octavia, minha linda e querida irm! Espere por mim, darei notcias logo, logo.
Quando ele j estava na soleira, Octavia deu um pequeno grito.
- Tony! No tenho dinheiro!
- Ah, meu Deus, como  que eu ia me esquecendo? Tome,

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aqui h o suficiente para voc voltar para casa. A conta do hotel j est paga, no  preciso se preocupar com isso. Tirou algumas notas da carteira e
colocou-as sobre a cama.
- Aqui tem vinte e cinco libras, por enquanto. Logo vou mandar mais, est bem?
Octavia nem sequer olhou para o dinheiro. Lutava bravamente contra as lgrimas e contra a vontade de agarrar-se desesperadamente ao irmo, pedindo-lhe para que no
a deixasse sozinha, abandonada!
Estava cheia de medo de ficar naquela terra estranha.
Mas antes que as palavras subissem a seus lbios, antes de poder dizer qualquer coisa, Tony j estava sorrindo cativantemente, com a mo na maaneta.
- At logo, maninha.
com a boca seca e os olhos ardendo, parada como uma esttua de pedra, Octavia ouviu-o fechar a porta atrs de si. Em pensamento, seguiu-o pelo corredor e acompanhou-o
at  rua, onde ele se perdeu na multido.
O silncio dentro do quarto fez-se pesado e tangvel.
Octavia estava s, sem um parente, um amigo. completamente s!

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CAPTULO II

Por instantes, que a Octavia pareceram sculos, o homem enrolado na tnica branca ficou parado  sua frente, examinando-a com olhos vivos e argutos.
Nervosamente, ela baixou o jornal e gaguejou, ainda atnita com a inesperada invaso:
- Eu... acho que o senhor se enganou de quarto.
- Voc  inglesa! Ah, que alvio! Bem que suspeitei, quando vi a cor de seus cabelos.
Octavia nada respondeu, tentando entender o que se passava. O homem rodeou a cama e aproximou-se.
- Como boa patriota, ser que pode ajudar um ingls que corre perigo de vida? Estou desesperado!
Perplexa, Octavia logo imaginou que o homem queria dinheiro, e lembrou-se da pauprrima quantia de que dispunha para voltar  Inglaterra. Revolveu as ideias freneticamente,
buscando uma boa desculpa, mas ele continuou depressa:
- Pode me achar melodramtico, mas a verdade  que se trata de assunto de vida ou morte.
"Esse homem  louco e fugiu do hospcio!", pensou a moa. "Que vou fazer agora?"
- Escute, daqui a segundos dois homens entraro neste quarto. Eles tm a firme inteno de me matar, e asseguro-lhe que as armas deles no so de brinquedo. Quero
que finja que  minha mulher; talvez assim eu consiga escapar.
Octavia finalmente conseguiu balbuciar, depois de algum esforo:
- Eu no estou entendendo nada. No compreendo o que diz!
- Ento, pelo amor de Deus, faa o que estou lhe pedindo. Se no agir naturalmente, sabero que sou um impostor e estarei morto em questo de minutos. Falo srio,
moa.
Apesar de falar rapidamente, o homem estava calmo, o que fez com que ela acreditasse instintivamente no que ouvia.

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- Acho que eles vm a. Deite-se e finja que dorme.
Talvez por causa do tom autoritrio, Octavia obedeceu-lhe mecanicamente, puxando as cobertas. Ao mesmo tempo em que queria protestar e recusar-se a atend-lo, jogou
o jornal para longe e fechou os olhos.
Ouviu o som de uma chave na fechadura e, por entre as plpebras semicerradas, viu que o homem tambm se enfiava sob as cobertas, deitando-se a seu lado.
Assustada com sua proximidade, sentiu vontade de gritar, mas sabia que no teria voz para tanto. Por outro lado, o homem havia se deitado bastante afastado, sem
toc-la, e isso a acalmou.
Ele pegou o jornal e abriu-o no instante em que dois homens mal-encarados entravam, apressados e agitados.
Ambos eram obviamente egpcios, um de fez na cabea, outro com um velho casaco ingls cobrindo as tradicionais calas largas e brancas, to comuns no pas.
O servente que abrira a porta contemplava a cena com olhos de cora assustada.
Sem demonstrar qualquer surpresa, o homem deitado na cama baixou o jornal e, com fleugma tipicamente britnica, perguntou:
- Posso saber o que desejam os cavalheiros?
Os dois perseguidores olharam em volta,  procura de algum escondido. Contudo, o quarto era pequeno e mobiliado com simplicidade; no havia possibilidade de ningum
se esconder ali.
Um deles perguntou, com sotaque forte e voz gutural:
- So ingleses?
- Sim, somos ingleses, e eu gostaria de saber com que autoridade os senhores invadem nosso quarto desse modo, sem nem ao menos ter a delicadeza de bater antes.
No houve resposta; os dois fitavam o casal com olhos desconfiados e astuciosos.
Subitamente impaciente, o homem prosseguiu, em tom imperioso:
- Acho a atitude dos senhores absolutamente intolervel! Saibam que darei imediatamente queixa  gerncia deste hotel. E agora, tenham a bondade de retirar-se, caso
contrrio chamarei a polcia.
Os invasores entreolharam-se, confusos, intimidados pela voz

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cortante e fria do ingls. Balanaram a cabea em sinal de desnimo e um deles adiantou-se respeitosamente.
- Pedimos desculpas, sir. Pensamos que havia mais algum
neste quarto.
Sem esperar resposta, ambos voltaram ao corredor e o assustado servente fechou a porta novamente, com um sorriso amarelo.
O homem permaneceu imvel por um bom tempo ainda, e Octavia sentou-se na cama.
- O que...
Mas ele levou o indicador aos lbios, pedindo silncio. Escutava atentamente, e, admirada, Octavia deu-se conta de que ainda havia um leve rumor do outro lado. Provavelmente
os egpcios tinham colado o ouvido na porta,  espera de alguma frase denunciadora.
Muitos minutos se passaram, at que ela escutou o barulho de passos se afastando, cada vez mais abafados, at cessarem por completo.
S ento o homem pulou para fora da cama, dizendo em voz
baixa:
- No sei como lhe agradecer. Voc foi estupenda!
- Mas  verdade que eles queriam mat-lo?
- Claro, se no tivessem acreditado que somos um pacato casal ingls.
- Acha que o matariam na minha frente, a sangue-frio? E meu testemunho?
- Bem, caso percebessem que sou o fugitivo que procuram, no me matariam agora. Eu seria preso e levado para um "interrogatrio", se  que entende o que quero dizer.
Dois ou trs dias depois meu corpo seria encontrado boiando num dos rios de Alexandria.
Ela soltou uma exclamao horrorizada, antes de perguntar:
- Por qu? Que  que voc fez?
- Nada criminoso, garanto-lhe.  preciso que acredite em mim, porque ainda necessito de sua ajuda.
Sentada na cama, com os cabelos soltos sobre os ombros e os olhos azuis muito espantados, Octavia mais parecia uma garotinha amedrontada. O homem olhou-a com admirao
por alguns instantes, e em seguida continuou, com voz macia:
- - Escute, sei que estou abusando de sua bondade, mas no posso me arriscar

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mais, e ainda estou sendo vigiado. Preciso de minhas roupas e no posso ir busc-las
agora, por isso conto com sua ajuda.
- Suas roupas? E onde esto elas?
- Desci pelo encanamento do hotel at  sala de banhos. Foi l que tive a sorte de encontrar esta tnica turca.
- Sempre deixam uma pendurada na porta, para hspedes esquecidos - replicou Octavia, sorrindo.
- Essa foi a minha sorte. Escondi minhas roupas debaixo da banheira, bem perto da parede. Ter de procurar com cuidado, porque o esconderijo  quase perfeito.
- Ento quer que eu v busc-las?
- Sim, se no se importar. Daqui a uns minutos, dirija-se para l como se quisesse tomar banho.
- Na verdade, eu ia mesmo fazer isso.
- Procure a roupa, ponha-a no brao e cubra-a com uma toalha. Tome cuidado para cobri-la muito bem, seno algum poder desconfiar.
- Mas ser que ainda esto nos vigiando? Depois de tanto tempo...
O homem sacudiu os ombros.
- Aqui o tempo no  contado como na Europa.  gente paciente e perigosa que est  minha procura. Sabem que eu entrei por este andar, e procuraro em todos os quartos.
Quando no me acharem, talvez pensem que consegui escapar, mas no posso mais arriscar-me.
Octavia estremeceu ante a ideia de que ele poderia mesmo ser morto, e impulsivamente respondeu:
- vou tentar ajud-lo, mas... e se eu ficar muito nervosa? Posso tra-lo sem querer!
O homem sorriu pela primeira vez, de um modo que lhe iluminou todo o rosto.
- No creio que fique. Sabe, sou um homem de muita sorte, e desta vez o destino me presenteou com uma pessoa muito especial e corajosa.
- Mas deve haver alguma razo... alguma coisa que voc tenha feito de errado. Por que esses homens querem mat-lo?
-  uma histria comprida. Como tenho de sair daqui o mais depressa possvel, no posso cont-la agora. Por favor, faa

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como eu disse, por enquanto. Darei explicaes mais tarde, est bem?
Nesse momento algum bateu  porta e os dois se entreolharam, paralisados. com um sinal ele pediu a Octavia que tomasse cuidado e, calmamente, falou em voz alta:
- Entre!
O mesmo garom que antes trouxera o desjejum de Octavia entrou, carregando uma bandeja com o pedido do ingls.
- Ah, finalmente chegou meu caf! timo, estava morto de fome.
- Onde quer que eu ponha, s/r.?
- Nessa mesa, por favor. H. querida, tem alguns trocados para dar ao nosso amigo?
- Sim. claro - respondeu Octavia, procurando disfarar o tremor das mos, provocado pelo vocativo carinhoso.
com movimentos naturais, o ingls apanhou a pequena bolsa de Octavia e
entregou-a para ela.
Ela a abriu, procurando algumas moedas egpcias que Tony lhe dera. Era o troco que havia recebido do cocheiro que os trouxera at o hotel.
Escolheu a maior e deu-a ao homem, que imediatamente a transferiu ao garom. Este fez uma mesura desajeitada e agradeceu.
Quando ele saiu, o homem falou:
- Peo desculpas por usar seu dinheiro, mas s tenho notas grandes. Seria um erro deix-lo ver o mao de libras que trago, entende?
- Sim, entendo.
O homem olhou com ar satisfeito para a bandeja, esfregando as mos.
- Estou com uma fome de tigre. Sabe que no comi nada desde ontem de manh? vou fazer o seguinte: sento-me de costas, para voc se preparar e ir  sala de banhos
sem se sentir embaraada. E, enquanto isso, vou atacar esta apetitosa bandeja.
- ... uma boa ideia.
Octavia estava assombrada pelo modo como obedecia docilmente quele homem estranho. Sentia-se totalmente desprovida de vontade prpria, como se fosse uma marionete,
cujos cordes ele movimentava como queria.
Escorregou da cama e pegou o chambre do guarda-roupa.

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Enrolou-se nele e calou seus velhos chinelos remendados; apanhou uma sacola de pano e nela jogou esponja, sabonete, escova de dentes e p dentifrcio.
O homem mastigava tranquilamente, e parecia ter-se esquecido completamente de sua existncia.
Hesitou um pouco ainda e depois deixou o quarto, tratando de aparentar despreocupao. Estava morta de medo de encontrar um dos perseguidores no corredor, e lanou
um olhar furtivo para os lados, antes de atravess-lo rapidamente.
Entrou na grande sala de azulejos brancos, fechando a porta de mansinho. Abriu as torneiras e esperou que a gua ficasse apenas morna, pois estava com muito calor.
Teve vontade de deitar-se na convidativa banheira; sabia que isso a deixaria mais relaxada e menos tensa. Que situao extraordinria!, Parecia que tomava parte
em um conto fantstico, onde ela era a herona.
H alguns dias estava na Inglaterra, rezando pelo pai, e agora achava-se no Egito, ajudando um fugitivo!
Os perseguidores, evidentemente, no eram da polcia, e no tinham autoridade para invadir quartos de hotis. Era tudo um mistrio que a deixava eletrizada e amedrontada
ao mesmo tempo.
Restava-lhe aproveitar o banho agora e esperar que mais tarde o ingls lhe contasse sua histria.
Sentia-se profundamente curiosa, e, sem perceber, ficou menos tempo no banho que de costume. Saiu da gua e enxugou-se rapidamente. Tirou uma toalha da prateleira
e colocou-a sobre uma cadeira; ela serviria para esconder a roupa do ingls.
S depois de vestir a camisola e o chambre  que olhou por baixo da banheira. Como nada visse, esticou a mo, tateando.
Seu primeiro pensamento foi de que o ingls mentira, ou que as roupas haviam sido tiradas do esconderijo. Depois, esticando mais o brao, conseguiu puxar a primeira
pea de roupa, uma camisa; percebeu que as outras peas estavam perto da parede e teve de fazer esforo para alcan-las.
Finalmente, estava com tudo nas mos. Alm da camisa, achou um par de calas velhas e sapatos brancos de lona, do tipo que os ingleses usavam para jogar tnis. Provavelmente
seriam adequados para andar no Egito, j que pareciam leves e mais frescos que os de couro.

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Lembrando-se das instrues, colocou tudo sobre o brao e jogou a toalha por cima, tomando o cuidado de no deixar nada  mostra. Apanhou a sacola de pano e abriu
a porta, espiando para os lados com cautela:
Sendo o quarto bem em frente ao banheiro, com pouco mais de dois passos j estava batendo na porta, aliviada por no ter encontrado ningum.
O ingls devia estar esperando, porque imediatamente a porta se abriu, enquanto ele dizia com voz despreocupada:
- Estava bom o banho, querida? Conseguiu refrescar-se um pouco?
Assim que ela entrou, mudou de tom e perguntou:
- Correu tudo bem, pelo que vejo. Ningum espionando?
- No, ningum, mas no quis olhar muito. Achei que seria melhor fingir despreocupao total.
- Muito astuciosa! Agora vamos ver minha roupa.
Enquanto examinava o que ela trouxera, Octavia notou que
a bandeja havia-se esvaziado totalmente. Nesse momento, viu sua bolsa em cima da cama, e um calafrio percorreu-lhe a espinha. Como no havia pensado nisso antes?
Cheia de apreenso, lembrou-se de que deixara a bolsa com todo o precioso dinheiro que tinha  merc de um homem que no conhecia. Teria ele se aproveitado de sua
ingenuidade?
Ficou parada, fitando a bolsa com olhos esgazeados de medo, querendo examinar seu contedo e ao mesmo tempo sentindo vergonha de demonstrar sua desconfiana assim
abertamente.
Alm do mais, se o dinheiro tivesse sido de fato roubado, esse ingls certamente a atacaria, vendo-se descoberto. Preferiu, portanto, ficar calada e sentou-se na
beira da cama, pensativa.
Contudo, o homem parecia ter lido seus pensamentos.
- Olhe, posso ser muita coisa ruim, mas garanto que no sou um mero batedor de carteiras. Alm disso, nunca agiria de modo to pouco cavalheiresco com quem me ajudou,
como voc.
Apanhada de surpresa, Octavia corou intensamente.
- Eu... eu no o estou acusando de nada.
- No, mas pensou, o que d na mesma.
- Como sabe disso?
-  fcil ler seu pensamento, moa. Alm do mais, est vermelha como um camaro cozido.

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- Eu... bem, confesso que pensei mesmo e... peo-lhe desculpas.  que tudo o que possuo est nessa bolsa. Acho que no devia t-la deixado aqui.
Concordo inteiramente.  bom tomar muito cuidado com suas coisas. De qualquer modo, voc confia em mim, porque deixou a bolsa bem  minha mo - ainda que inconscientemente.
J  um bom comeo para ns dois.
-  a primeira vez que saio de minha casa. No estou acostumada a hotis nem cidades estranhas, e sinto-me muito ignorante e... e boba, por causa disso.
- Logo aprender a lidar com estranhos. Ento, todo o seu dinheiro est nessa bolsinha de nada?
- Todo.
- Ento no deve ser grande coisa.
- ... o bastante para eu poder voltar para casa.
- Para a Inglaterra?
- Sim, devo embarcar para l amanh.
Ele percebeu a nota amargurada que havia na resposta e sentou-se, olhando-a de frente.
- Mas voc acaba de chegar aqui!
- Como... sabe disso?
- Tenho olhos treinados, mocinha. Sua bagagem ainda est fechada, e a etiqueta colada na mala  nova - portanto, voc chegou recentemente, e de navio.
-  verdade. Chegamos ontem.
- Como, chegaram? No veio s?
- No, meu irmo veio junto. Mas ele teve de... me deixar. Foi forado a isso, quero dizer. Ele partiu para Constantinopla.
Embaraada com tanta explicao, que para ela mesma no tinha muito sentido, Octavia no chegou a notar o olhar irnico e ctico do ingls.
- Como se chama esse seu... irmo?
- Tony.
Era bvio que ele no acreditava nessa histria, mas Octavia, de cabea baixa, nada percebeu. Estava ocupada pensando que, afinal, Tony no devia mesmo t-la deixado
sozinha.
- Quanto foi que ele deixou para voc viajar?
Era uma pergunta direta e simples; Octavia preferia responder que no era da conta dele, mas no viu razo para ser indelicada.

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- Tenho vinte e cinco libras. Acha que chegam?
- Depende do vapor que escolher, mas acho que  o suficiente.
Pelo modo ansioso como ela perguntara, o homem logo adivinhou que a moa no fazia ideia de quanto custaria a viagem.
- Tem de ser suficiente! Tony me disse para pedir ao recepcionista que reservasse uma cabine no vapor que sai ainda hoje. Preciso me vestir agora e descer, a fim
de tratar disso logo.
- Tenho uma ideia bem melhor, que talvez possa ajud-la. Mas, antes, creio que  melhor nos vestirmos.
- Sim,  claro.
Interrompeu-se de chofre. Pela primeira vez, deu-se conta de que estava de camisola e chambre diante de um estranho, e de novo enrubesceu violentamente. Como iriam
se vestir juntos, naquele quartinho acanhado?
Outra vez, porm, admirou-se com o poder que ele tinha de ler seus pensamentos.
- Eu gostaria de vestir-me no banheiro, mas no quero ser visto. Sugiro, portanto, que voc pegue o que precisar e volte para l, como se tivesse esquecido alguma
coisa. Vista-se, mas tome o cuidado de colocar o chambre por cima da roupa. Quando voltar, prometo que estarei com ar mais apresentvel. Sinto-me estranho metido
nesta tnica!
Octavia sorriu, agradecida. Era um homem de tato, que entendia seus pequenos embaraos.
Pegou suas coisas, que na verdade eram bem poucas: angua, meias, calcinha, uma blusa simples e saia. Deixou o casaco no guarda-roupa, para no ficar muito volumosa
sob o chambre, e, escondendo as peas sob a toalha, dirigiu-se para a porta.
- Ei, moa! No est se esquecendo de nada?
A pergunta foi feita com uma ponta de ironia, e Octavia logo corou.
- Minha bolsa!
- , parece que ainda no aprendeu a lio. E se eu resolvesse fugir com toda a sua fortuna enquanto voc estivesse no banheiro?
Octavia estava a pique de dizer que confiava nele, quando uma ideia lhe atravessou o corao como um punhal. Nervosa, gaguejou:

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- Mas. mas. voc no est pensando em fugir enquanto eu estiver me vestindo, no ? Promete que me espera?
- Gostaria que eu prometesse?
- Ah, sim, por favor! Tenho tantas perguntas para fazer,
e... e voc pode me ajudar a encontrar um vapor barato para meu pas.
A desculpa fora bastante fraca, e ela se sentiu meio tola. Mas esse homem, por estranho e misterioso que fosse, inspirava-lhe confiana. De mais a mais, era melhor
t-lo a seu lado que ficar sozinha.
Via-se no cais de Alexandria sem ningum para ajud-la, e essa ideia deixava-a apavorada. Ele, pelo menos, era seu patrcio, falava sua lngua e parecia compreender
muito bem sua aflio.
- Fique tranquila. Prometo-lhe que estarei  sua espera quando voltar.
Octavia deu um sorriso gracioso e em seu rosto apareceram duas covinhas deliciosas.
- Nesse caso, tome conta da bolsa para mim! - disse ela, com um arzinho brincalho.
Em seguida deixou o quarto, enquanto o homem se perguntava quantos anos ela teria. Parecia uma menininha!
Poucos minutos depois Octavia j estava pronta, metida no chambre. Quando voltou ao quarto, o ingls j se achava vestido e parecia estranhamente diferente.
Adquirira um ar mais autoritrio ainda, muito mais viril e seguro do que antes. Isso a fez corar novamente, o que a deixou Profundamente aborrecida. No entendia
por que vivia enrubescendo diante dele!
- Ah, ainda bem que voltou logo. Preciso novamente de sua ajuda, moa.
Aconteceu alguma coisa?
- Sim, mas nada de terrvel. Veja, minha camisa ficou em este estado, e no sei como posso limp-la.
O cano por onde ele descera devia estar imundo, pois deixara enormes estrias negras na camisa. Por sorte as calas eram escuras e disfaravam as manchas, mas a camisa,
se ficasse daquele jeito, seria no mnimo denunciadora para os inimigos.
- Bem, para lavar essa sujeira toda sem chamar a ateno

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vai ser difcil. Alm disso, quanto tempo levar para secar? - monologou ela em voz alta.
De sbito, teve uma ideia salvadora.
No dia anterior, Tony viera entregar-lhe uma de suas camisas para trocar dois botes.
Mas Octavia se esquecera completamente, de entreg-la ao irmo, na crise da separao.
A camisa estava limpa e recm-lavada; conquanto faltassem dois botes, no atrairia a ateno de ningum.
Lembrando-se disso tudo, Octavia falou:
- Acho que posso resolver seu problema facilmente.
Abriu a maleta e logo encontrou a camisa de Tony. Ao lado, viu sua pequena caixa de costura e teve outra ideia.
- vou costurar dois botes de sua camisa suja na de Tony. Vai ficar tima!
O outro olhou-a interrogativamente, e ela explicou melhor:
- Meu irmo deixou a camisa dele comigo porque estavam
faltando dois botes. Pretendia preg-los hoje, mas como ele
teve de ir embora, esqueci-me completamente de devolv-la.
Mais uma vez, Octavia no notou o sorriso irnico que provocara ao mencionar Tony.
- Ento voc banca meu anjo da guarda de novo, moa. Obrigado!
Comeou a tirar a camisa, mas Octavia, sem jeito, virou-lhe as costas.
Ele percebeu imediatamente e jogou uma toalha sobre os ombros nus, sem fazer maiores comentrios.
Octavia cortou a linha que prendia os botes e rapidamente pregou-os na camisa de Tony, enquanto o ingls observava seu trabalho.
- Pronto, acho que ficou muito bom.
- Obrigado. Mas h outro probleminha - no tenho gravata. Ser que voc tem algum leno de seda, ou qualquer coisa que possa substitu-la?
- Sim, acho que tenho.
Procurou na maleta e achou um cinto de cetim verde-escuro, que ela prpria fizera para enfeitar um velho vestido que fora de sua me.
- Que tal uma gravata verde? - perguntou Octavia, sorridente.

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- No podia ser melhor, mas est um tanto comprida.
- Pois vamos" cort-la no tamanho certo.
Era uma pena estragar o belo cinto que fizera com tanto cuidado, mas no havia como pensar em economizar roupa agora, uma vez que se tratava de salvar uma vida.
Ele vestiu a camisa, enfiando-a por dentro das calas, e em seguida atou a gravata por baixo do colarinho. De fato, ficou comprida demais, e Octavia entregou-lhe
a tesoura.
- Logo que puder, compro-lhe outro cinto. Por ora, vista seu casaco, enquanto conversamos um pouco.
Antes de tirar o chambre, Octavia percebeu que o ingls virara-se para a janela, o que a deixou agradecida. Depois de colocar o casaco, sentou-se em frente do espelho
e arrumou os cabelos, puxando-os para cima num coque simples.
- Estou pronta, pode virar-se. E obrigada pela sua discrio.
- Hum... vejo que conhece a moda. Esse coque que fez foi lanado h pouco tempo por uma atriz americana, Dana Gibson. Viu como tambm entendo de moda feminina?
- , parece que entende mais do que eu. Nem sabia da existncia dessa atriz. Limitei-me a copiar o penteado de revistas!
Os dois riram, mais descontrados.
- Bem, agora que j estamos prontos, estou curiosa para saber o que voc queria conversar comigo.
Intimamente, Octavia esperava que ele lhe desse explicaes sobre o que acontecera naquela manh. Em vez disso, ele se sentou diante dela e
perguntou-lhe:
-  muito importante para voc voltar  Inglaterra?
- No, na verdade nunca imaginei que tivesse de voltar e muito menos no dia seguinte ao de minha chegada!
- Ento por que vai?
- Acho que j expliquei isso. No tenho dinheiro nenhum, e- no conheo ningum aqui. No posso ficar sozinha!
- So duas boas razes, de fato. Por isso mesmo, tenho uma proposta para voc.
- Proposta? Que proposta? - espantou-se Octavia.
- Voc me parece inteligente, viva e esperta; j me ajudou bastante, e poder me

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ajudar muito mais. Se estiver interessada... posso pagar-lhe vinte libras por semana para trabalhar para mim.
- Trabalhar. para voc? Mas como?
Ele limitou-se a sorrir do espanto de Octavia, que continuou, aflita:
- Vinte libras  muito dinheiro! E eu no sei fazer quase nada!
Desta vez o sorriso deu lugar a um riso franco e aberto.
- V-se que voc no  uma mulher de negcios. Se nem sequer sabe qual  o servio, como pode afirmar uma coisa dessas?  um grande erro subestimar-se desse modo.
- Mas, acho que devo ser honesta. No tenho qualificao nenhuma, nem experincia de trabalho.
- Como j disse, voc  inteligente, tem presena de esprito e, acima de tudo,  algum em quem posso confiar inteiramente.
Octavia riu, lisonjeada e feliz, embora apreensiva.
- Obrigada por dizer tanta coisa bonita, mas isso no  o bastante para ganhar vinte libras por semana.
- Para mim , e isso  o que interessa.
Subitamente a moa ficou sria, acreditando pela primeira vez no que ele dizia.
- Est mesmo falando srio? Vai me pagar tanto dinheiro assim?
- Vou, se voc quiser.
- E... o que devo fazer? Ser sua secretria? Olhe, no sei bater  mquina sou ruim de aritmtica e... s vezes cometo erros de gramtica.
A ltima frase foi dita em voz baixa, quase inaudvel. Octavia estava evidentemente envergonhada de seus poucos conhecimentos, o que o fez rir de novo.
- No  preciso exagerar com tanta honestidade! Para quem quer um emprego, esta  uma regra de ouro: trate sempre de convencer o patro de que voc  perfeita e
indispensvel.
- De que adiantam mentiras que sero descobertas logo no primeiro dia de trabalho?
- Depende do que voc tem de fazer.
- Ento, por favor, diga logo qual ser meu servio.
- Gostaria mesmo de trabalhar para mim?
- Qualquer coisa seria melhor do que voltar para casa.
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Interrompeu-se, envergonhada com o que acabara de dizer. Torceu as mos nervosamente, buscando explicar-se melhor:
- Sei que no  uma coisa bonita de dizer, e acho que falei depressa demais.  que... h coisas na Inglaterra difceis de enfrentar. Quase to difceis quanto ficar
aqui sozinha.
Enquanto falava, via-se frente a frente com os credores do pai, completamente s e sem a assistncia de Tony. Sim, seria uma situao intolervel!
- Bem, se  assim, ento tem boas razes para aceitar minha proposta.
- Mas se voc ainda no me explicou nada!
- Explicarei, mas antes acho que  uma boa ideia nos apresentarmos um ao outro. Sabe que nem sei como se chama?
Ela riu e estendeu-lhe a mo:
-  verdade! Meu nome  Octavia Birke.
Nem bem acabara de falar, arrependeu-se. Talvez fosse melhor dar um nome falso a esse misterioso estranho.
Consolou-se, lembrando-se de que ele provavelmente no fazia ideia de que o pai era um importante e conhecido nobre.
Nem poderia fazer, pois uma lady jamais se encontraria na situao em que se achava no momento.
-  um bonito nome, Octavia. E incomum, tambm. Acho que no conheo nenhuma outra Octavia.
-  o nome de minha av. Quando eu era pequena, no gostava dele, porque todo o mundo ficava admirado e pedia para eu repetir.
-  um nome bonito e raro. como a dona.
Ela sorriu, enleada, pensando que talvez fosse um elogio; e, porm, estava srio.
- Meu nome  Kane Gordon.
Foi a vez de Octavia dar uma risada musical.
- Kane  um nome to raro quanto o meu! Para mim isso  sobrenome!
-  um nome cltico. Exatamente como voc, herdei-o de um parente querido.
- Bem, pelo menos j temos uma coisa em comum.
- Acho que h muitas outras coisas, Octavia. Agora, preste ateno.
Cheia de expectativa, Octavia sentou-se na cama, cruzando as mos no colo.

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- O que vou pedir  simples. Quero que" finja ser minha esposa, para poder me ajudar como fez at agora.  s at deixarmos a Alexandria, creio. Quando chegarmos
ao Cairo talvez eu no precise mais de "esposa", mas no posso lhe' garantir.
Os olhos azuis de Octavia abriram-se desmesuradamente e depois piscaram vrias vezes seguidas. Ele prosseguiu:
- Quando chegarmos, poder trabalhar de outro modo, mas por enquanto nada posso lhe adiantar. Antes de mais nada, preciso escapar desses bandidos.
- Talvez no suspeitem mais de voc. Quem sabe j perderam sua pista?
- No, Octavia, tenho certeza de que esto me vigiando. Continuaro a me seguir - ou melhor, a nos seguir - at que consigamos deixar esta cidade. Ento pode ser
que me deixem em paz. Veja bem, eu disse "pode ser". No se pode ter certeza de nada com esse tipo de gente.
- Voc ainda no me disse por que eles querem mat-lo.
- Como j disse,  uma histria comprida, e no pretendo perder mais tempo neste hotel, que est ficando cada vez mais perigoso para mim. Preciso deix-lo imediatamente
e pegar o primeiro trem que puder para o Cairo. L, se tivermos sorte, teremos tempo de sobra para conversar e fazer planos.
- Quer mesmo que... eu v junto?
- Claro, voc  minha mascote, vamos dizer assim. Se for comigo, terei muito mais chance de escapar do que se estiver sozinho.
- Ento,  claro que aceito sua oferta.
- No vai se arrepender, Octavia?
- No! - O protesto saiu quase gritado. - Fico muito feliz em poder ajud-lo. E, por favor, no  preciso pagar-me... tanto.
- Salvar minha vida no tem preo. A quantia que lhe ofereci no  nada, comparada com o perigo que correria se viajasse sem minha "mulher". Voc tem sido muito
corajosa, e eu lhe sou grato por isso.
- E voc tambm me salvou de ter de voltar para a Inglaterra. - murmurou Octavia.
Sabia que Tony jamais concordaria com o que estava fazendo,

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mas, afinal de contas, a culpa era dele mesmo. Estava sozinha no mundo e envolvera-se nessa aventura porque fora deixada para trs pelo irmo.
- Sinto-me muito honrado com a confiana que deposita em mim, Octavia.
" verdade", disse Octavia para si mesma. "Confio nele... e no sei por qu!"
Havia uma aura nesse homem que a deixava totalmente segura; muito embora a prudncia lhe aconselhasse a ser mais cautelosa, sua intuio ordenava-lhe que confiasse
nele cegamente.
Kane levantou-se.
- Agora estamos conversados e prontos para deixar o hotel. Quero que desa comigo; pedirei a um criado que venha buscar sua mala.
Octavia olhou-o, pensativa.
- Tenho uma ideia, olhe, desculpe se dou palpites demais. No quero parecer intrometida.
- Qualquer palpite seu ser muito bem-vindo. Sou todo ouvidos!
-  que... j que vamos de trem para o Cairo, voc no me parece adequadamente vestido para isso.
- Quer dizer, porque estou sem casaco, no ?
- Exatamente. Por que no leva um dos meus no brao? Todos pensaro que no quer us-lo por causa do calor.
Kane sorriu, satisfeito.
- Gostei! J comeou a ganhar seu salrio, menina. Na verdade, acho que lhe ofereci muito pouco como ordenado.
- No! - protestou ela, veemente. - J foi uma oferta muito generosa!
- Discutiremos isso mais tarde. Por ora, continue com sua ideia, que foi tima.
Octavia no respondeu; apenas abaixou-se e procurou em seu ba, de onde tirou uma pea de l marrom. com esse casaco costumava cavalgar em Priory; no estava novo,
pois tambm o herdara da me, mas servia muito bem para o que pretendia.
- Ora, ora, quem diria! Este casaco  de montaria, e vai passar perfeitamente por um traje masculino. Ainda por cima combina muito bem com minhas calas. timo,
Octavia.
Ela sorriu e fechou a maleta pela ltima vez. Colocou seu

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pequeno chapu, prendendo-o com um grande lao de gaze sob o queixo. Quando terminou, achou que os dois formavam um casal bastante comum e corriqueiro - um casal
ingls em viagem de frias. Estava certa de que no chamariam a ateno de ningum.
Ao sarem do quarto, explicou a Kane:
- Meu irmo deixou a conta do hotel paga.
- Nesse caso, tudo fica mais fcil. Se algum fizer perguntas - e acho que no faro -, direi simplesmente que vim busc-la hoje cedo. Seja como for, os hotis da
Alexandria esto acostumados a receber hspedes por uma ou duas noites apenas. Este porto  mais uma cidade de baldeao do que de turismo.
Octavia acompanhou Kane pelo corredor, pensando na estranha e inesperada aventura em que se envolvera. com alguma apreenso, perguntou-se o que teria pela frente.
Nem por um segundo pensou em recuar; sabia que, se o fizesse, arrepender-se-ia para o resto da vida. No entanto, ao lado desse estranho, estava arriscando sua reputao.
Como se novamente pudesse ler-lhe os pensamentos, Kane sussurrou baixinho:
-  uma moa corajosa, e agradeo ao destino ter tido a sorte de encontr-la, Octavia.

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CAPTULO iii

Para alvio de ambos, no houve dificuldade em deixar o hotel. Na recepo, o atendente confirmou que Tony havia deixado a conta paga e nem sequer notou a presena
de Kane. Tomaram uma carruagem de aluguer, bastante velha, que chacoalhava e rangia sobre o pavimento esburacado das vielas estreitas. O cocheiro, encardido e mal-humorado,
chicoteava incessantemente os pobres cavalos, soltando altos brados para os passantes abrirem caminho.
Mais adiante, Kane ordenou-lhe que parasse, desceu e disse a Octavia:
- Espere aqui, no vou demorar.
E, sem maiores explicaes, desapareceu dentro de uma das lojas. No era das maiores, nem parecia ser muito sortida; Octavia, curiosa, procurava adivinhar o que
ele pretendia comprar ali.
Um bando de crianas sujas e esfarrapadas cercou o veculo, para seu espanto e consternao. Magras e raquticas, estendiam as mozinhas e choramingavam, pedindo
moedas.
Qualquer pessoa que no estivesse familiarizada com a pobreza de Alexandria ficaria penalizada com esse quadro, e Octavia no foi exceo. Atirou-lhes imediatamente
as poucas piastras que ainda tinha na bolsa.
As crianas atiraram-se ao cho, lutando freneticamente entre si, arranhando-se e gritando como pequeninos selvagens.
Octavia comeou a ficar preocupada e olhou ansiosamente Para a loja; para seu sossego, Kane dela saa nesse momento, sobraando um grande embrulho. Subiu na carruagem
e mandou O cocheiro seguir. No fez nenhum comentrio sobre os pequenos mendigos, nem sobre o que tinha comprado, e Octavia achou que seria indelicado indagar o
que continha aquele embrulho misterioso.
Ao chegarem  estao, Kane dirigiu-se ao guich, enquanto

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ela olhava  sua volta, espantada com o vaivm colorido dos carregadores e nativos.
Quando voltou, Kane estava sorridente.
- Que sorte a nossa! Daqui a quinze minutos vai sair um trem para o Cairo. Por pouco no o perdemos!
Pelo tom de alvio, Octavia instintivamente percebeu que Kane tinha certeza de estar sendo seguido, por isso tinha tanta pressa de embarcar.
- Vamos logo, moa. Segure firme em meu brao para no se perder nesta multido.
Percorreram a plataforma quase correndo, em meio a encontres e cotoveladas. Para surpresa de Octavia, pouco depois subiam num vago de primeira classe.
Naturalmente, esperava viajar num simples lugar de segunda, como fizera com Tony, mas Kane parecia saber muito bem o que estava fazendo; e era agradvel ficar num
compartimento gostoso e confortvel, para variar...
O vago dispunha de vrias cabines iguais, mas ela estranhou o fato de no haver corredor. Cada cabine tomava toda a largura do vago, coisa que ela no conhecia
ainda. Imaginou que devia ser um modelo antigo de trem, que no mais existia na Inglaterra.
Depois de verificar que a maleta de Octavia fora despachada no vago de bagagens, Kane voltou e fechou a porta do compartimento, sentando-se  janela. Ela no se
admirou, sabendo que ele procurava manter o compartimento s para ambos, o que seria muito mais seguro.
Alguns minutos se passaram e depois o trem ps-se em movimento, soltando guinchos estridentes e expelindo densa nuvem de vapor.
- Parece que h poucos passageiros na primeira classe. Tambm, com esse preo... Foi caro, no foi, Kane? - aventurou-se a perguntar, algo embaraada.
- Nem tanto, no se preocupe. Os que podem pagar bilhetes de primeira preferem pegar o Expresso, que sai meia hora antes. Este  mais lento, mas por isso mesmo acho
que temos mais chance de no sermos encontrados.
- Entendi. Os perseguidores, na certa, calculavam que ns pegaramos o Expresso, no  isso?

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- Exatamente.
Octavia silenciou, intimidada com as respostas lacnicas. Esperava que Kane se resolvesse de uma vez a contar-lhe a sua histria, mas, to logo o trem ganhou velocidade,
ele bocejou discretamente.
- Vai ter de me perdoar, mas acho que vou cochilar um pouco. No dormi nada esta noite, e estou exausto.
- Claro que no me importo - respondeu depressa, levemente desapontada.
Levantou-se para tirar o chapu e guard-lo no porta-malas, pensando que estava sendo um tanto egosta pois Kane devia estar semimorto de cansao.
De fato, ao sentar-se novamente, encontrou-o esticado no outro banco e j adormecido.
Antes de embarcar, ele comprara dois jornais ingleses, e Octavia folheou-os Distraidamente, sem conseguir se concentrar. No tirava da cabea a ideia de que estava
num pas desconhecido, ao lado de um homem totalmente estranho. Teria agido certo ao aceitar sua proposta?
Tony ficaria bastante aborrecido, mas o que mais a afligia era saber que seria duramente criticada e repreendida pela me, se estivesse viva. At mesmo por seu pai,
to aventureiro quanto compreensivo!
Mas ela sabia que, por mais problemas que pudesse ter com Kane, nem de leve seriam to graves como- os que teria de enfrentar a bordo do vapor que a levaria de volta
para a Inglaterra.
Na viagem para o Egito, Octavia dormira quase o tempo todo, e mal tivera tempo de observar os outros passageiros. Porm, pelo pouco que vira, notara que eram grosseiros
e vulgares, e a todo momento dirigiam-lhe olhares lascivos e atrevidos.
Como Tony estava o tempo todo a seu lado, vigilante, ningum a importunou; mas tinha sensibilidade bastante para saber que, se estivesse sozinha, as coisas teriam
sido muito diferentes. No, jamais poderia tomar de novo o vapor sem a Proteo do irmo.
Fosse como fosse, caso Kane se tornasse difcil ou insolente, ela poderia fugir, uma vez que seu dinheiro continuava intocado. Seria um pouco mais difcil e caro,
porque teria de viajar

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do Cairo  Alexandria, e s ento apanhar o vapor para Tilbury. Mas at l, talvez sua situao financeira melhorasse. Viu-se imaginando que tipo de trabalho Kane
poderia lhe oferecer talvez vendedora numa loja? Ou governanta de crianas nobres? Contemplou o companheiro adormecido, admirada de ter depositado tanta confiana
nele. Desejou fervorosamente que os dois assassinos tivessem desistido de persegui-lo, pois assim a viagem seria bem mais tranquila. Se Kane sofresse qualquer acidente,
ela teria muitos problemas pela frente. Teria de explicar  polcia a ligao que havia entre os dois e o porqu de estar passando por sua esposa. Terei de cuidar
para que meu nome no aparea nos jornais... Tony ficaria furioso comigo!", pensou, num princpio de pnico. Sacudiu a cabea, tratando de afastar essas ideias tenebrosas.
Ajeitou-se melhor no assento, empurrando os jornais para o lado. Melhor seria contemplar a paisagem, estranha e misteriosa, que a pequenina janela lhe oferecia.
Alm da imensa plancie reverberando ao sol, divisou uma densa faixa verde, e logo concluiu que era o vale do Nilo. "O Egito  a ddiva do Nilo", - algum dissera
essa frase que agora lhe vinha  cabea. Pouco se recordava do que aprendera a respeito daquele belo pas; lembrou-se de seus estudos sobre as pirmides e os faras.
Recentemente lera bastante sobre a abertura do Canal de Suez. Quando   chegasse   ao   Cairo,   procuraria   conhecer  melhor  a histria egpcia.  medida que o
tempo passava, o sol tornava-se cada vez mais brilhante e forte, iluminando de fogo as dunas do deserto. Agora entendia bem por que os egpcios adoravam o sol; de
fato, parecia um deus reinando sobre a imensido sem fim. Os guias tursticos contavam que os faras comparavam o Egito a uma flor de ltus: o frtil e estreito
vale verdejante do Nilo era o caule, enquanto o grande Delta seria sua corola aberta, por onde entrava ar e vida. Do outro lado do vale
via-se o rido deserto, Exatamente como Octavia sempre imaginara, com sua areia brilhante e amarela, quase dourada, estendendo-se para o infinito. De vez

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em quando divisava-se uma mancha verde em pleno deserto, denunciando a presena de gua - os famosos osis, refgio das caravanas cansadas de longas e penosas jornadas.
Imaginou-se Viajando num belo e elegante barco no rio Nilo, como os faras deviam fazer em seu tempo. Claro, deviam ser grandes barcos a remo - uma infinidade deles,
como vira numa gravura. "Talvez Kane me leve para navegar no Nilo", pensou, cheia de esperana. Mas lembrou-se de que certamente no haveria tempo para isso, porque
teria de trabalhar bastante, para merecer a pequena fortuna que ele lhe oferecera.
Contemplou seu rosto quase imvel, calmo e repousado. Devia ser mais jovem do que lhe parecera a princpio, provavelmente devido ao cansao e  tremenda presso.
Estava diante de um homem forte, que sabia sair-se de dificuldades com firmeza e deciso. Gostaria de, nesse momento, conversar um pouco, fazer-lhe perguntas que
ainda estavam suspensas no ar.
Vrias vezes sentiu-se tentada a acord-lo, mas no o fez, por saber que ele precisava de um bom descanso.
Mansamente, o trem entrou numa estao pequena e pouco povoada. Ningum desceu do trem, mas alguns poucos passageiros subiram; felizmente, nenhum tentou ocupar o
mesmo compartimento em que se achavam.
Minutos depois o trem partiu, e, apesar do rudo rangente das rodas no trilho, Kane continuou dormindo, com a fisionomia inalterada.
O calor comeou a aumentar, e Octavia sentiu as plpebras pesadas de sono. Cochilou e acordou vrias vezes; seus pensamentos comearam a voar nas asas de sonhos
impossveis, sonhos de riqueza e felicidade inalcanveis.
Horas depois acordou, assustada, notando que o trem parava em outra estao, muito maior e mais cheia que a outra.
A plataforma formigava de gente com roupa colorida, cujas vestes e turbantes emprestavam um tom extico ao cenrio. Ao ver as mulheres envoltas em longas tnicas,
lembrou-se do nome estranho dessa roupa, que Tony lhe ensinara ao chegarem  Alexandria: burnus. Dependendo do estado civil da mulher, as tnicas eram brancas ou
pretas, e todas tinham o rosto coberto,  exceo dos olhos.

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Ningum entrou no vago de primeira classe, e Octavia recostou-se, confortada com a ideia de que os perseguidores haviam desistido de perseguir Kane.
Nesse momento ele abriu os olhos e falou com voz pastosa, espreguiando-se:
- Ah, sinto-me outro. Obrigado por ter ficado to quietinha!
- No fiquei muito, no. Voc  que dormia como uma pedra! Acho que nem uma bomba o acordaria - riu ela.
- Se fosse outra mulher, ficaria tagarelando como um papagaio e no me deixaria descansar - insistiu ele. - E agora, como recompensa, ofereo-lhe alguma coisa para
comer e um belo copo de refresco.
Levantou-se para abrir a porta, mas Octavia segurou-lhe o brao.
- Desculpe, mas no ser perigoso? At agora ningum veio nos perturbar, mas pode haver gente  sua espera, escondida.
Ele ficou silencioso, pensando. Depois respondeu:
- Tem toda a razo. Sabe, s vezes penso que voc j andou brincando de mocinho e bandido. Parece conhecer todas as regras do jogo!
- Chama a isso de jogo? Ento  um jogo bastante perigoso. - replicou Octavia, satisfeita com o elogio.
Mas a observao dela fora sensata, e Kane chamou um funcionrio da estao, dando-lhe ordens rpidas no dialeto local. O homem abriu um largo sorriso e saiu correndo.
Pouco depois voltava acompanhado de um jovem vestido de branco, equilibrando uma bandeja na cabea. Kane apanhou-a e deu um mao de notas ao funcionrio, que agradeceu,
inclinando-se muitas vezes seguidas.
A bandeja estava coberta por um guardanapo, e quando Octavia o levantou, achou um prato com o que parecia ser frango assado, frutas e uma espcie de queijo que nunca
vira antes. Kane foi explicando enquanto a servia:
- Este  um prato tpico chamado hannam. No  frango, embora parea;  pombo. No  to macio quanto frango, mas acho que vai gostar. Talvez estranhe o po, mas
 bom ir-se acostumando, porque  o nico que vai encontrar por aqui.
- ... estranho, mas gostoso. Engraado, parece um... bon, assim achatado. No leva fermento?

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- No sei como se faz, mas acho-o macio e saboroso. Faa como eu, veja. Abra um pedao de po ao meio e ponha um pouquinho de hannam dentro. Dessa forma, poder
comer sem sujar as mos.
- Uma delcia. E esse queijo tambm  timo - comentou Octavia, satisfeita.
Estava adorando sua aventura; nunca imaginara que um dia faria piquenique dentro de um trem que atravessava velozmente o deserto, tendo o verde vale do Nilo como
pano de fundo!
Comeram e beberam o suco com prazer, proseando animadamente. Quando terminaram, a bandeja foi coberta novamente e deixada sob o assento. Kane explicou:
- S viro retir-la daqui quando chegarmos ao Cairo.
- E quanto tempo falta?
- Pouco mais de uma hora.
O trem balanava-se maciamente sobre os trilhos, e Octavia, impaciente, esperou que Kane comeasse a contar-lhe seus planos. Ardia de curiosidade para saber o que
fariam no Cairo e onde ficariam hospedados.
Porm seu ar srio e preocupado ainda mostrava sinais de tenso, e Octavia, mais uma vez, conteve sua vontade de bombarde-lo com perguntas.
Kane esticou-se novamente no banco, mas no fechou os olhos. Parecia muito pensativo e distante dali. Octavia lembrou-se de que seu pai detestava mulheres curiosas
e tagarelas; concluiu que no gostaria de receber essa qualificao, e decidiu-se a esperar calada. Alis, para contar seus segredos, Kane teria de gritar a plenos
pulmes para fazer-se ouvir em meio ao rudo das engrenagens, o que no seria muito recomendvel.
Assim, resignou-se a esperar e voltou-se novamente para a janela, pensando nas pirmides. Quando as veria? Inmeras vezes admirara gravuras e ilustraes desses
milenares monumentos, que sugeriam passagens secretas e tesouros escondidos. Prometeu a si mesma que, acontecesse o que acontecesse, no iria embora do Egito sem
ter visitado as pirmides e a Esfinge. Pela milsima vez espantou-se ante o pensamento de que h poucas horas estava ajoelhada diante do pai morto, num

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quarto velho e mido. Enrugou um pouco a testa, enquanto pensava:
"Tratarei de aproveitar cada minuto desta fantstica aventura. Quando tiver de voltar a Priory, mesmo que tenha de trabalhar, plantar e cozinhar, poderei fazer tudo
com mais alegria, por causa das lembranas que terei para me consolar."
- Por que est to preocupada? - indagou Kane, de chofre.
- Hein? Oh, desculpe, estava to longe... Como adivinhou que eu estava preocupada?
- Senti as vibraes.
- Ento vou parar de me preocupar, para no perturb-lo ainda mais. J tem muitos problemas, e no pretendo aument-los.
- Sim,  bom que pare de se preocupar, mas no por minha causa. Prometi que cuidaria de voc, e  Exatamente o que vou fazer. Confie em mim e em meus deuses; afinal,
eles tm sido generosos comigo. pelo menos at agora.
Octavia sentiu um aperto no peito. Kane pensava no perigo que ainda teria de enfrentar, ela sabia disso.
- Acho que, eu  que devia tomar conta de voc, mas no sei como - respondeu, timidamente.
- J est cuidando de mim, e muito bem! - retorquiu Kane alegremente.
- Acha que aqueles homens ainda esto atrs de voc?
Era uma pergunta impossvel de responder, e Octavia no se admirou quando ele mudou de assunto.
- Vamos falar de voc, Octavia.  muito mais interessante!
Ela comeou a estudar rapidamente o que poderia contar, sem mentir. No queria revelar o nome do pai nem falar sobre o enterro dele, do qual fugira. Ainda estudava
a resposta quando o trem diminuiu a marcha.
- Estamos parando!  outra estao?
- Sim, e bem grande - respondeu Kane, sentando-se para espiar pela janela. - Depois desta, no haver mais nenhuma parada at ao Cairo. Bem, como duvido que algum
passageiro queira vir nos fazer companhia, vou tentar cochilar mais um pouquinho. Importa-se, Octavia?
- No,  claro.
A estao estava apinhada de gente, mas a maioria parecia

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estar ali por pura curiosidade, pois no portava nenhuma bagagem. Era gente simples que espiava os passageiros pelas janelas, certamente invejando-os, ou talvez
procurando algum amigo entre eles.
As roupas, embora rasgadas e sujas, eram coloridas e enfeitadas, causando a impresso de que o povo egpcio estava continuamente em festa.
Octavia inclinou um pouco o corpo para fora, a fim de ver melhor uma alegre e barulhenta banda de msicos. De sbito, soltou uma exclamao abafada e encolheu-se
para trs, levando a mo  boca.
- Que foi? - perguntou Kane, apreensivo.
- Acho que... vi um dos dois homens.
Ele se sentou, subitamente desperto, mas no tentou espiar. Perguntou com firmeza:
- Faa um esforo de memria, Octavia, isto  muito importante.  um deles mesmo ou foi apenas impresso sua?
-  por causa da roupa, Kane. Embora fingisse estar dormindo, reparei muito bem no casaco de um deles, marrom e amarelo. Era feio e de mau gosto, por isso chamou-me
a ateno.
- E viu um casaco igual agora?
- Vi, tenho certeza.
- O homem pegou o trem?
- No deu para ver. Sei que desceu de uma carruagem, mas o vapor do trem estava muito denso. Parecia caminhar nesta direo, Kane!
- Feche a janela depressa e depois sente-se perto da outra, em frente. Mantenha todos os sentidos alerta! Acontea o que acontecer, faa cara natural, est bem?
- Certo - respondeu Octavia, sentando-se do outro lado.
Seu corao comeou a bater desordenadamente, enquanto o medo a invadia em golfadas. Tentou consolar-se com a ideia de que talvez o homem no a tivesse visto.
Kane estirara-se novamente e fingia dormir, mas Octavia podia captar perfeitamente a forte tenso que dele emanava. Os minutos arrastavam-se, desesperadoramente
lentos.
Ouviu-se o apito do guarda e o guincho estridente do vapor que escapava das mquinas. com um longo gemido, o trem recomeou sua marcha.

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Enquanto comeava a ganhar velocidade, Octavia suspirou aliviada e virou-se para Kane.
- Acho que cometi um engano. Que bom, graas a...
A porta da cabine abriu-se de sopeto e um homem saltou para dentro como um gato silencioso. Horrorizada, Octavia reconheceu-o imediatamente.
Por segundos ele ficou parado, agachado, dardejando-lhe um olhar ameaador. Octavia reprimiu a custo um grito agoniado ao v-lo levantar-se com um enorme e agudo
punhal na mo direita, cuja lmina faiscou diabolicamente no ar.
Kane fingia ressonar tranquilamente, e, desesperada, Octavia pressentiu que nada devia fazer, a no ser esperar. Subitamente, como um tigre, Kane saltou sobre o
pescoo do homem, apanhando-o totalmente desprevenido.
Encolhida em seu canto, Octavia fechou os olhos, apavorada, murmurando preces desencontradas e incoerentes. Forou-se a abri-los e viu que ambos estavam engalfinhados
numa luta sem trgua, que certamente terminaria com a morte de um. Lembrou-se angustiada de que Kane estava totalmente desarmado.
Aproveitando-se de um momento em que o egpcio procurava ganhar flego, Kane deu-lhe um golpe com a mo direita esticada, acertando-o na nuca. Devia ter sido um
golpe violento e poderoso, pois o homem tombou desacordado, sem emitir um nico som. A faca voou longe e caiu aos ps de Octavia.
com a vista turva, olhou aquele terrvel instrumento de morte, sabendo que devia apanh-lo. Fazendo um supremo esforo, abaixou-se e esticou a mo, mas nesse momento
Kane abria a porta do compartimento e atirava o corpo do homem para fora do trem. Este j corria velozmente, pois estava longe da estao.
Tudo se passara com a rapidez de um raio; s a faca aos ps de Octavia
provava-lhe que no estivera sonhando. S ento ela comeou a tremer violentamente, enquanto soluos incontrolveis lhe subiam  garganta. Kane segurou-a pelos ombros,
sacudindo-a carinhosamente.
- Est tudo bem agora, Octavia. Preferia que no tivesse presenciado essa cena, mas console-se com a ideia de que agora s terei de lutar contra um, em vez de dois.
- Ele morreu?

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- Sim, est morto.
Kane abaixou-se para pegar o punhal, e, com um frio na espinha, Octavia imaginou-o enterrado nas costas de Kane. Deu graas a Deus porque o outro morrera. Sabia
que era um senti mento pouco cristo, mas no podia evit-lo.
Kane examinou atentamente a arma, em busca de algum sinal que lhe indicasse a quem pertencia. No tendo encontrado nada, abriu a janela e atirou-a longe. A lmina
brilhou ao sol e desapareceu de vista.
Calmamente, como se nada houvesse acontecido, Kane sentou-se e comandou:
- D-me sua mo, Octavia.
Ela obedeceu, ainda trmula.
- Parece um passarinho apanhado em pleno voo, de tanto que treme.
- Eu j estou melhor.
Kane apanhou um resto do suco de frutas da bandeja.
- Tome, isto vai ajud-la.
- No. no quero! - protestou Octavia, achando-se incapaz de engolir qualquer coisa.
- Bobagem. Beba! Afinal, sou seu patro e voc me deve obedincia!
Sem saber como, Octavia sorriu e obedeceu. Muito srio, ele falou:
- Escute bem, porque o que vou lhe dizer agora  muito importante para ns dois.
Enternecido com os olhos assustados de Octavia, pressionou-lhe docemente os dedos.
- Oua, se achar que est correndo perigo demais, se estiver com um mnimo de vontade de me deixar, considere-se absolutamente livre para isso. Darei um jeito de
mand-la  Inglaterra num bom navio e cuidarei para que seja muito bem tratada durante a viagem. Gostaria de ir, Octavia?
No houve resposta imediata, porque ela levou alguns minutos para assimilar o que Kane dissera. Viu-se viajando sozinha em meio de estranhos, embora num navio grande
e confortvel. Quase gritou:
- No, no! Eu estou bem, Kane. Foi s o choque do momento, voc sabe, a luta, aquele rosto malvado que no me

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sai da cabea...  por isso que fiquei assustada, principalmente porque voc agora podia estar morto!
- Ento no est pensando no perigo que correu, e sim no que poderia ter-me acontecido!
- Claro. Foi por minha causa que aquele homem descobriu onde voc estava! Ele me viu espionando pela janela! No me perdoo por ter sido to curiosa!
- Por outro lado, se voc no o tivesse visto, agora eu seria um belo ovo frito na areia quente do deserto. No, Octavia, em vez de sentir-se culpada, sinta-se orgulhosa.
- Voc est sempre tentando me valorizar. Obrigada.
- Tem certeza que prefere ficar comigo em vez de voltar para casa?
- Tenho. Por favor, quero ficar com voc. - falou ela baixinho, evitando olh-lo de frente, porque sabia que tinha corado. - No posso mentir e dizer que no tenho
medo de ficar, mas acho que tenho mais medo ainda de voltar sozinha!
- No entendo como  que esse homem... esse, que diz ser seu irmo, pde
deix-la desse modo...
Octavia notou o tom crtico de Kane e apressou-se a responder:
- Ele foi obrigado. No queria me largar, mas no havia outra sada. Alm do mais, j tenho dezanove anos e preciso aprender a viver sozinha.
- Realmente, voc j  uma mulher madura, com essa idade toda.
Ela sabia que Kane tentava provoc-la, para aliviar sua tenso. Sorriu e respondeu:
- J estou me sentindo muito bem. Ser que ningum percebeu o que aconteceu aqui?
-  quase impossvel - retrucou Kane, balanando a cabea. - Mas vamos tomar muito mais cuidado daqui para a frente. Quando chegarmos ao Cairo, seremos um belo casal
de egpcios.
- De egpcios? Ns?
- Olhe s o que eu trouxe neste embrulho.
Kane esticou o brao e apanhou o pacote que tanto despertara a curiosidade de Octavia. Abriu-o e mostrou-lhe o contedo. dizendo em tom triunfante:

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- O perfeito disfarce!
Incrdula, Octavia olhou para o burnus de negra musselina, o par de sandlias tpicas, sem salto, mais parecidas com chinelos de couro cru.
- Vista isso. Quando terminar, nem mesmo seu Tony a reconhecer!
A novidade f-la esquecer das atribulaes.
- Devo tambm esconder o rosto?
- Claro! vou ensin-la como se coloca o vu, mas no temos muito tempo, talvez uns vinte minutos apenas.
- Acha que o outro homem est no trem?
- No fao ideia, mas no podemos nos arriscar. Primeiro, calce as sandlias e experimente andar um pouco. So tremendamente desconfortveis para quem no est acostumado.
Octavia obedeceu e deu alguns passos, arrastando as sandlias. Deu uma risada:
- At o barulho  igual. Acho que vou me acostumar depressa, Kane.
- timo. Agora, vamos ao burnus.  preciso treinar tambm, porque no  fcil respirar por baixo do vu. Primeiro, coloque seu dinheiro no bolso da saia.
Octavia escondeu as vinte e cinco libras e enrolou a macia tnica sobre sua roupa, seguindo atentamente as instrues que ouvia de Kane. Quando ficou pronta, sentiu-se
sufocar com o vu, mas sabia que no devia queixar-se de nada. Perguntou com voz abafada:
- E o resto de nossa roupa? Que vamos fazer com ela?
- Jog-la pela janela. Nada de riscos, j disse.
Octavia abriu a boca para protestar, mas ele ajuntou rapidamente:
Prometo devolver-lhe tudo quando chegarmos ao Cairo. com juros, ouviu?
"Vai ser uma despesa grande. Ser que ele tem dinheiro?", Perguntou-se ela. Mas no demonstrou sua preocupao e calou-se. Seu casaquinho estava velho e pudo, mas
era o melhor que Possua. O mesmo acontecia com os sapatos que usava. Sabia, no entanto, que no devia discutir. Alis, com Kane isso era impossvel; ele parecia
tirar-lhe a vontade prpria, fazendo-a obedecer-lhe com docilidade.

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-  como eu disse, menina. Est irreconhecvel dentro desse burnus.
- Minha angua no est aparecendo? Ela  branca e pode chamar a ateno.
- No aparece nada, sossegue. Agora, tire um pouco esse vu sufocante. Falta um retoque final e muito importante.
Enquanto ela obedecia, Kane tirou do embrulho um pequeno pote cheio de p marrom. Misturou-o com um pouco de gua e fez uma pasta. Espalhou-a no rosto e nas mos
de Octavia que evidentemente no pertenciam a uma egpcia.
- Agora sim, est uma nativa perfeita. Ningum desconfiar que voc  uma branca e loura inglesinha.
- Sinto-me to estranha!  como se estivesse dividida em duas!
- Agora, faa o favor de virar-se de costas, porque pretendo me vestir tambm.
Octavia aproveitou para contemplar, pela ltima vez, a bela paisagem. Pensou novamente nas pirmides e nos deuses egpcios. Que eles os ajudassem a afastar o temvel
perseguidor, que talvez estivesse escondido no trem, bem perto deles!
Estremeceu ao lembrar-se dos olhos malignos do homem que
tentara matar Kane. Parecia-lhe ainda um pesadelo - Kane deitado tranquilamente, o punhal brilhante, a luta mortal...
Admirou-se com sua fora e agilidade. Qualquer outro teria
"sucumbido, - pois o inimigo era alto e forte.
"No pode ser verdade, estou sonhando. Estou em Priory, amanh vou acordar ao lado de Tony."
Seus pensamentos foram interrompidos pela voz alegre de Kane.
- Pode olhar agora!
Octavia virou-se e levou a mo  boca, sentindo vontade de rir. Ele tambm se pintara e ficara quase marrom; vestia a mesma camisa larga e branca de Tony e usava
um fez na cabea. Alm disso, colocara culos de fino aro de ao.
Finalmente ela caiu na gargalhada, incapaz de conter-se.
- Est perfeito! Simplesmente, perfeito!
- Por que est rindo tanto, ento?
- Porque voc ficou to... diferente e esquisito!
- timo,  isso mesmo que quero.

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Curvou-se e apanhou a roupa de Octavia, incluindo o casaco de montaria que ela lhe emprestara. Juntou tudo numa trouxa e abriu a janela. Ela queria protestar; aquele
casaco era uma relquia de sua me! Mas conteve-se. Sabia que ele responderia que lhe daria outro quando chegassem ao Cairo, mesmo que no tivesse dinheiro para
isso.
Kane atirou longe a trouxa, enquanto Octavia sentia o corao apertado. L se ia sua querida roupa!
Percebendo sua aflio, Kane sentou-se a seu lado e tomou-lhe a mo. Havia um brilho novo em seus olhos, que ela no conseguiu interpretar.
- Octavia, sabe que tem sido simplesmente sensacional? Jamais conheci uma mulher que agisse com tanta coragem e presena de esprito.
- Ora, eu. - gaguejou ela, agradecendo aos cus por estar com o rosto coberto de tinta, porque corara intensamente, - Eu no fiz mais do que minha obrigao. Alm
disso, fiquei nervosa demais.
- Claro que ficou, ora essa! Quem no ficaria? Mas no gritou na hora errada, no estragou meu plano de apanhar o homem desprevenido, nem fez nenhum escarcu. Qualquer
outra o faria, sei bem disso! Um dia ainda vou agradecer melhor o que fez por mim.
Depois, em tom mais formal, prosseguiu:
- Assim que chegarmos, teremos de aproveitar a fumaa do trem. Ela ser uma tima proteo contra os olhos indiscretos! Fique sempre ao meu lado e caminhe o mais
depressa possvel.
- E se o outro estiver nos vigiando?
-  por isso mesmo que estou contando com a fumaa. Mesmo que ele nos veja no meio dela, no nos reconhecer com estes trajes. De mais a mais, ele no sabe o que
se passou com o companheiro; talvez pense que eu  que estou morto.
- Ento, acha mesmo que vamos conseguir escapar?
- Acho no, tenho certeza. Como poderamos falhar? Basta que continue assim corajosa. J disse, os deuses esto do meu lado. S podiam estar, caso contrrio no
a mandariam de presente para mim. Sossegue e relaxe!
O trem comeou a ralentar a marcha e, logo apareceram os primeiros sinais da grande cidade pela janela. Extasiada, Octavia viu minaretes pontiagudos, cpulas douradas,
casas mouriscas. Quando o trem parou na estao, Octavia pensou que, certamente, Ali Bab morara no Cairo.
Kane saltou agilmente e esticou a mo para ajud-la. Apesar de o sol estar abrasador, Octavia trazia o corao gelado. Que outros perigos estariam  espreita deles
na turbulenta e extica cidade?

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CAPTULO IV

Enquanto abriam caminho entre a densa multido apinhada na plataforma, Octavia tinha os lbios ressequidos, e seu corao batia freneticamente. A todo instante imaginara
Kane sendo atacado de surpresa.
Sufocada pelo vu e o calor inclemente, lutava bravamente para no perder as sandlias no meio do caminho. Agora compreendia por que as mulheres faziam um barulho
estranho ao andar, e no entendia como  que algum podia achar confortvel esse tipo de calado; para ela, era um verdadeiro suplcio.
Kane ordenou-lhe baixinho:
- Caminhe atrs de mim. Esse  o costume muulmano.
"Bem, pelo menos serve para eu vigiar a retaguarda de Kane", consolou-se. Mas nada conseguia acalm-la. Em meio ao burburinho, perguntava-se onde estaria emboscado
o assassino. De repente, lembrou-se de uma coisa muito importante.
Estava no quarto do hotel em Alexandria, diante dos dois egpcios mal-encarados: sua memria rebuscou freneticamente os acontecimentos daquela hora, para ter certeza
de que no se enganara. "Calma, Octavia!", comandou-se ela, arrastando penosamente as sandlias. Retomou as lembranas, transportando-se para o quarto do hotel novamente.
Reviu o dono do casaco amarelo e marrom e fez um grande esforo para recordar a fisionomia do acompanhante. Ele tinha grandes olhos amarelos, feios, embrutecidos...
E, de repente, soltou uma exclamao abafada pelo vu. Agora visualizava-o distintamente. O homem tinha uma grande cicatriz em forma de lua crescente no rosto, bem
debaixo do olho. Octavia conseguiu
rev-lo to bem que se lembrou: a cicatriz ficava sob o olho esquerdo!
Respirou fundo, um pouco mais aliviada. No sabia a razo de sua memria s ter funcionado agora, mas isso pouco importava. Seria muito mais fcil reconhecer o inimigo,
com esse dado to importante.

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Kane andava rapidamente, obrigando-a a dar passos grandes e desajeitados. Gostaria de chutar as sandlias para o alto e seguir descala!
De repente, a multido ficou menos densa, e, entre incrdula e feliz, Octavia viu-se fora da estao. Mais uma etapa fora vencida!
Sempre mantendo distncia de Kane, como respeitosa mulher oriental, ouviu-o assobiar para uma carruagem de aluguer. Quando j estavam acomodados, Octavia aventurou-se
a virar a cabea, perscrutando os rostos morenos dos transeuntes. Nesse momento viu um homem com vrias malas e deixou escapar uma exclamao de desespero.
- Que foi, Octavia?
- Minha bagagem! Tudo o que me restava ficou no bagageiro, Kane!
Mas j sabia qual seria a resposta, e riu alto quando a escutou.
- Compro roupas novas para voc.
Ante o riso cristalino e musical, Kane perguntou, meio desconfiado:
- Por que est rindo?
- Porque j sabia de cor a sua resposta. Acontece que a lista est ficando cada vez maior. No sei como se arranjar para me pagar!
- Est com medo de eu no manter a promessa, hein? Saiba que nunca fao isso, senhorita medrosa. H costureiras excelentes na cidade, e lojas to boas quanto as
de Paris.
"E carssimas, na certa", juntou ela, em pensamento.
- Pare de pensar em elegncia e trate de conhecer a cidade. Veja quantas mesquitas e minaretes, no so admirveis?
- Estou vivendo as Mil e Uma Noites. Oh, Kane, acontea o que acontecer, jamais me arrependerei de ter vindo para c! Que cidade linda!
- Fala como se j a conhecesse - riu ele -, mas h muita coisa para ver ainda. Para isso, ter de ficar por aqui durante um bom tempo!
Octavia perguntou-se, se Kane falava a srio e olhou-o de soslaio. Mas o riso dele era um pouco forado; viu que estava srio por dentro, talvez preocupado, e preferiu
voltar-se para a janela, observando atentamente as pessoas que pululavam  volta da carruagem. Como Tony dissera, havia muitos oficiais

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ingleses; quando tivesse oportunidade, perguntaria a Kane a razo dessa invaso de soldados britnicos.
Tinha muitas outras perguntas na ponta da lngua, sendo que a principal queimava-lhe os lbios: "Voc vai me mandar de volta  Inglaterra, agora que j cumpri minha
parte?"
Kane olhou-a e notou sua expresso preocupada.
Est ainda muito tensa, mas lembre-se de que o pior j
passou. Em poucos minutos estaremos livres destas roupas e voc vai sentir-se bem melhor.
Octavia nem precisou fazer a pergunta bvia, pois ele riu e continuou:
- Prometo-lhe que ter com que se vestir. No que eu me preocupe com sua aparncia, Octavia. Voc ficaria bonita mesmo vestida com sacos. Mas hoje no vamos sair,
de qualquer modo. Estou muito cansado.
- Voc est cansado? E eu, que no dormi no trem? - provocou ela, maliciosa.
- Ah, voc  um anjo, e anjos no tm sono.
- Ento, pouco tenho de anjo, porque estou louca para enfiar-me numa cama!
- Hoje voc dormir muito bem, asseguro-lhe.
Ela sorriu, sabendo que Kane cumpriria a promessa.
A carruagem atravessou uma ponte e comeou a deslizar maciamente numa alameda margeada de gramados e jardins. Era um bairro elegante e nobre, cujas casas erguiam-se
em meio a altas rvores seculares. Decidida a no bancar a curiosa, Octavia ficou imaginando aonde iriam, admirada com o luxo discreto das residncias.
Finalmente, a carruagem parou em frente a uma imponente manso, cuja entrada dava para uma bela varanda florida.
- Que bonito! - exclamou. - Quem mora aqui?
- Divido essa casa com um amigo, e costumo ficar sempre aqui quando venho ao Cairo.
Pelo modo despreocupado de Kane, Octavia percebeu que ele j estava bastante familiarizado com o lugar. Mais uma vez forou-se a no fazer perguntas. Kane desceu
e ajudou-a a apear, Depois de pagar generosamente o cocheiro.
A porta abriu-se e um criado adiantou-se respeitosamente, fazendo uma profunda reverncia:

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- Que bom que Master voltou! - falou ele, com pesado sotaque. - Estou muito feliz!
- Sim, meu bom Hassan, estou de volta. Tudo bem aqui?
- No, Master. Ms notcias!
Kane ficou alerta.
- Que aconteceu?
- Trs homens vieram depois que Master saiu. Homens, maus, Hassan logo viu. Hassan se escondeu!
- Fez muito bem.
- Eles entraram, reviraram tudo, no acharam nada.
- timo!
Mais calmo, Kane levou Octavia para dentro. As salas eram frescas e confortveis; o mobilirio, discreto e elegante.
- Agora queremos refrescos, Hassan. E depressa, por favor, pois estamos com muito calor.
- Sim, Master, muito depressa.
Kane virou-se para Octavia, que examinava admirada uma parede ornamentada com objetos antigos.
- Vamos tirar essa roupa infernalmente quente. Voc mais parece um balo estufado dentro desse burnus.
Ajudou-a a- tirar a pesada tnica e finalmente ela pde respirar livremente. Sua testa estava cheia de gotinhas de suor, no s por causa do calor, mas pelo medo
que sentira quase todo o tempo.
Sentou-se e atirou para longe as sandlias, com um suspiro de satisfao.
- Nunca mais vou olhar para uma muulmana sem sentir pena. Como aguentam ficar dentro dessa roupa, num calor como este?
- Acho que j esto acostumadas. Seja como for, prefiro voc em trajes ocidentais. Est muito melhor assim!
- Suada e pintada de marrom? - riu ela.
- Posso imaginar adjetivos mais galantes que esses - replicou Kane, tambm rindo -, mas acho que no quero deix-la muito vaidosa.
- Eu sei que pouco tenho do que me envaidecer. De qualquer modo, gostei do elogio - falou ela, com modstia. E. sem deix-lo protestar, levantou-se vivamente: -
Quanta coisa interessante voc tem aqui! Parece at que saram de tmulos de faras!

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- Pois acertou, sua diabinha. Tenho uma bela coleo de tesouros antigos, achados em escavaes.
Octavia ardia de curiosidade, mas mordeu os lbios. Se no fizesse perguntas, ele no se acharia no direito de indagar coisas sobre ela tambm.
Aquela mscara, por exemplo,  interessantssima. Parece de algum fara.
No,  de um guarda de tmulo.
Kane removera os culos e livrara-se do fez. A tinta marrom estava manchada, pois ele tambm suara bastante.
- Oh, que caixinhas encantadoras!
Eram pequenos escrnios lavrados, delicadamente filigranados. Havia de marfim e de sndalo, o que a fez lembrar-se  das caixinhas de rap, que tantas vezes vira
seu pai usar antes de terem sido vendidas por uma ninharia. Estas, porm, eram mais ricas; algumas continham pedras preciosas engastadas em belo trabalho artesanal.
- Vamos ver se voc adivinha para que servem - falou Kane, abanando-se preguiosamente.
-  difcil... Devem ser de uso feminino, mas no posso imaginar o que as mulheres fariam com isto. No servem para guardar lquidos ou ps, porque escorreria pela
filigrana. Talvez servissem para guardar plulas?
- Errou. So gaiolas, Octavia, por isso  que so vazadas. Nelas se guardavam escorpies.
- Escorpies? - Octavia arregalou os olhos e largou instintivamente a caixa que tinha nas mos, o que divertiu Kane.
Pensei que fossem bichos perigosos!
- E so! Se levar uma picada, morrer bem depressa, em meio a dores terrveis.
- Mas ento. - comeou ela. Depois compreendeu e deu Um gritinho de horror. - Eles usavam os escorpies para matar!  como se carregassem veneno consigo!
- Exatamente. E  bom que saiba que alguns egpcios ainda tem esse mau costume.
- Eu... acho que at deixei de admirar estas caixinhas. Porqu que as coleciona? Cada uma deve ter uma terrvel histria para contar!
- Caixas no falam, dependendo do dono, podem at se

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- tornar objetos de enfeite e no de tristeza. Garanto-lhe jamais usarei uma desse modo. Seria por demais antiesportivo.
- Fala como se estivesse participando de um brinquedo, Isso me assusta, Kane.
- Sinto muito, no queria aborrec-la. Voc j teve emoes demais por hoje, e deve estar hipersensvel. Venha, sente aqui e experimente o refresco que Hassan preparou.
Depois, que acha de um bom banho?
Kane falara com delicadeza, e a indignao de Octavia dissolveu-se prontamente. Mas afligira-se com a desenvoltura com que ele mencionava mortes e assassinatos.
Para ela, a vida era preciosa; por mais maldosa que fosse uma pessoa, achava que ningum tinha o direito de matar um semelhante.
Todavia, Kane parecia ter lido novamente seus pensamentos, Entregando-lhe um copo de suco, falou suavemente:
- Tem razo, Octavia.  que vivo num mundo de perigos e crueldades, por isso prefiro zombar deles a viver angustiado...
- Ento... pensa como eu?
-  claro que penso. J lhe disse, vou proteg-la muito bem.
- Enquanto voc dormia no trem, estive pensando bastante e vi como sou ignorante da vida. Pouco sei dela, e gostaria que voc me ensinasse a... me defender.
- bom, posso dar alguns bons conselhos, mas voc sabe se defender muito bem, talvez at melhor do que eu.
Octavia sorriu, sentindo-se bobamente feliz. Levantou o copo cheio de um lquido atraentemente dourado. Era suco de lima, de gosto extico e refrescante. Achou-o
delicioso e acabou por beber com sofreguido, espantada com sua prpria sede.
- Aqui dentro est muito mais fresco que l fora. Estou me sentindo tima, Kane!
-  que a tarde j est chegando ao fim. As noites do Cairo so bem frescas, voc ver. Agora, quero que suba comigo, Hassan j deve ter-lhe preparado o banho; logo
depois jantaremos, e trataremos de dormir em seguida. Um sono calmo e reparador, como prometi.
- Por mim, est perfeito.
Levantou-se e seguiu Kane, que j subia a escada. Caminharam pelo corredor, cuja carpete macia abafava-lhe os passos e pararam em frente a um dos quartos, de paredes
imaculadamente

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brancas. Bem no centro havia uma cama larga, coberta por um mosquiteiro de fina gaze transparente. Cortinas de musselina davam um ar jovial e gracioso ao aposento.
Mas, para grande desapontamento de Octavia, no havia nenhuma tina de gua quente no quarto, como esperava. Na Inglaterra, as mulheres costumavam tomar banho em
seus prprios aposentos, pois era embaraoso ter de caminhar pelos corredores enroladas em toalhas.
Sabia que em hotis era diferente; todo mundo utilizava salas de banho, tal qual vira em Alexandria. Assim mesmo, pensara que Kane tomaria o cuidado de mandar preparar
uma tina ali mesmo, ao lado da cama.
Pela milsima vez, Kane adivinhou seus pensamentos.
- Esta casa foi projetada por mim mesmo; assim, mandei construir banheiros privativos para cada quarto.
- O qu? Um banheiro para cada quarto? Mas isso  um luxo que eu no conhecia!
- Aos pouquinhos, essa moda vai pegar.  muito mais prtico do que carregar aquelas incmodas e grandes tinas de madeira. Venha comigo.
Atravessaram o quarto. Kane abriu uma porta lateral. Era uma espcie de salinha, pequena mas confortvel; a banheira fora cavada no cho,  maneira das piscinas
romanas, e revestida de mrmore. As paredes exibiam antigos desenhos egpcios.
- Que maravilha! - murmurou ela, encantada. - E que ideia inteligente a sua!
- Agora aproveite a gua e tome um belo banho. Quando voltar para o quarto, encontrar algo para vestir.
Quando Octavia se viu sozinha, pensou novamente que se achava em pleno conto das Mil e Uma Noites. A sua histria estava se tornando cada vez mais fascinante.
Despiu-se e pendurou a roupa num armrio que, diferente dos velhos guarda-roupas que conhecia, achava-se discretamente embutido numa das paredes. Deliciada, enfiou-se
na gua tpida da banheira e notou que Hassan, alm de ter colocado sais e sabonete ao lado, tambm borrifara a gua com essncia de jasmim. Kane providenciara para
que ela fosse tratada como uma rainha!
Ansiosa para estar novamente junto dele, demorou-se pouco

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no banho. Enxugou-se e, ao voltar para o quarto, encontrou um delicado cajtan em cima da cama. Correu para examin-lo cheia de natural curiosidade feminina. Era
feito de seda azul- noite, debruado de prata e pequeninas prolas.
Depois de vesti-lo, mirou-se e remirou-se no grande espelho oval, sentindo vontade de danar de alegria. No fosse a cor de seus cabelos, seria a prpria reincarnao
de alguma antiga egpcia que vivera mil anos atrs. Por que Kane teria um cajtan como aquele? Talvez tivesse comprado para levar de presente a algum na Inglaterra
- algum a quem ele- amasse muito. Essa ideia
entristeceu-a, sem que ela soubesse por qu. No havia razo para ficar triste; ao contrrio, queria v-lo feliz.
Ao lado da cama encontrou um par de graciosos chinelos orientais, da mesma cor do cajtan. Experimentou-os, encantada; alm de macios, serviam-lhe como uma luva.
Penteou caprichosamente os cabelos e, quando se deu por satisfeita, abriu a porta do quarto e ganhou as escadas. Pela primeira vez pensou em Kane como homem, um
belo homem, provavelmente adorado por muitas mulheres. Octavia tinha receio de ser uma companheira cansativa, pois era muito jovem e inexperiente. Desceu devagar,
com os pensamentos num turbilho de medo e desesperana. E se ele se aborrecesse e a mandasse de volta  Inglaterra?
Preocupada como estava, no percebeu que Kane a esperava na soleira da sala, observando-a com ar grave. Logo que o viu, Octavia tratou de disfarar a emoo que
a assaltou de repente. Uma emoo doce, estranha, nova e inexplicvel.
Como se no bastasse, corou violentamente. No sabia explicar essa coisa estranha que sentia e baixou a cabea, envergonhada.
- Est muito bonita, Octavia, e no h razo para sentir vergonha. Parece uma egpcia de verdade!
- Obrigada, Realmente, estou um pouco confusa. Acho que  porque tudo  to novo para mim, to estranho, que s vezes penso que estou sonhando.
- Logo se acostumar. Vamos comer? Estou morto de fome! Lembre-se, s comemos aquele hannam at agora.
-  uma boa ideia. Tambm estou faminta.

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A sala de jantar, muito clara e espaosa, tinha enormes vidraas dando para a varanda. Sobre a mesa, um grande ventilador suspenso no teto agitava as ps incessantemente,
produzindo leve aragem. Vendo a curiosidade estampada no rosto da hspede, Kane explicou:
- Esse ventilador chama-se punkah. Vai ver muitos iguais a este em todo o Egito. Mas sente-se, Octavia.
Hassan entrou e serviu-lhes sopa fria de entrada. Ela tomou-a com apetite at ao fim, o que divertiu Kane.
- Um pouco de vinho?
- Sim, por favor. Hassan  quem faz todo o servio da casa?
- Ele  uma espcie de mordomo, como os que temos na Inglaterra. Trabalha para mim h anos e conhece bem meus gostos. Mora com a famlia numa casa pequena que mandei
construir no fundo do jardim, como alis  costume aqui no Egito. A famlia toda ajuda na conservao da casa.
- Ento  por isso que ela est to limpa e bem arrumada!
- riu ela. - Voc parece um pax!
- timo! No h razo para viver mal, quando se pode viver bem.
Octavia contemplou-o em silncio e depois disse suavemente:
- Voc diz bem; no h razo para viver mal. No entanto, sendo dono desta casa, que mais parece um palcio, ainda ontem estava fugindo pelos telhados, usando uma
roupa que obviamente era um disfarce. Quando vai me contar sua histria?
- Prometo contar-lhe logo depois do jantar. Por ora, vamos aproveitar a boa comida de Hassan.
Satisfeita com a promessa, Octavia deixou que Hassan a servisse generosamente. Havia peixe fresco, codornas recheadas e um prato de frutas tpicas, cujo sabor extico
e adocicado deliciou-a. Logo que terminaram, Kane pediu a Hassan que servisse

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O caf na varanda, a fim de melhor poderem apreciar a morna quietude da noite.
As estrelas brilhavam como sentinelas avanadas da lua crescente, quase cheia. O calor cedera lugar  refrescante brisa que sussurrava brandamente, ciciando segredos
entre as rvores do Jardim. Ocasionalmente ouvia-se um pio ao longe, acompanhado Pela orquestra incessante dos grilos.
- Sempre imaginei o Egito assim - falou Octavia, sonhadoramente. - Para mim, tudo aqui  antigo; at o prprio ar que respiro parece ter sculos de vida.  engraada
a sensao, mas parece que, se eu no tomar cuidado, acabarei recuando no tempo.
- Tive essa mesma sensao quando vim aqui pela primeira vez. Mas ela ser muito mais forte quando voc conhecer as pirmides. Pretendo lev-la amanh ou depois
at l.
- ... uma promessa?
-  lgico. E tambm vai conhecer a Esfinge.
Desta vez Octavia assombrou-se com o poder de percepo de Kane.
- Voc adivinhou... Quero dizer, no tiro esse passeio da cabea h algumas horas. Estava mesmo pensando em dar uma escapadinha e ir sozinha, qualquer dia destes
- e agora voc fala em me levar! De qualquer forma, obrigada pelo convite. Aceito com alegria!
O sorriso de Kane cintilou na semi-escurido da varanda. Mais uma vez ela sentiu um calor estranho e inexplicvel no corao", e mudou de tom rapidamente:
- Agora, confesso que estou ardendo de curiosidade. Se no me contar do que estava fugindo naquela manh, acho que passo esta noite em claro.
- Isso  chantagem, Miss Birke! - riu ele. - Mas vou satisfazer sua vontade, pelo menos em parte. No  tarefa fcil contar tudo em poucas palavras - e ns estamos
cansados:
- Pelo menos tente!
- Bem, o que sabe sobre a atual situao do Egito?
- Ah, essa  fcil de responder. Nada!
- Isso complica um pouco, mas vamos l. H uns quinze anos, um egpcio chamado Arabi Pasha liderou uma revolta contra o Quediva, governante do pas. Os ingleses
intervieram e atacaram em massa, depois de atravessar o Canal de Suez. O exrcito de Arabi Pasha foi desbaratado em pouco tempo na batalha de
- Tel-el-Kabir. Assim se estabeleceu o exrcito ingls no Egito.
- E os egpcios aceitaram esse, esse tipo de invaso?
- Naquele tempo, sim, porque, se Arabi Pasha vencesse Quediva, o Egito entraria num caos completo. O prprio Quediva
-
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pediu s nossas tropas que permanecessem, a fim de ajud-lo a restaurar a lei e a ordem aqui.
- Ento  por isso que h tantos soldados ingleses...
- Exatamente. Calculo que haja uns seis mil, todos obedecendo a lorde Cromer. algum que voc vai conhecer brevemente.  um homem direito e digno. Embora o Quediva
esteja ocupando o trono, lorde Cromer  o verdadeiro governante do Egito.
- Deve ser um homem de carter firme.
- Sim, .
- E... onde  que voc entra em tudo isso?
- Bem, eu sou arquelogo.
Octavia esperava ouvir qualquer coisa, menos isso. Repetiu feito boba:
- Arquelogo?
- Dedico-me a isso h tempos.  um trabalho que me d muita satisfao. Ultimamente tenho tido muita sorte, devo acrescentar.
- Porqu? O que descobriu?
- Pretendo falar mais tarde disso. No momento, quero explicar por que estava fugindo - e ainda estou. bom, h um ms atrs, fui chamado com urgncia a Londres, e
pedi a meu assistente que ficasse em meu lugar.  um homem fiel, em quem deposito toda a minha confiana. Pois bem, ele encontrou vestgios de um tmulo - ou tumba,
como dizem os historiadores - que venho procurando h muito tempo. Sei que quando terminarmos as escavaes, descobriremos coisas que assombraro o mundo.
- Que coisa excitante e maravilhosa! - murmurou Octavia, com as mos no queixo. Tinha os olhos azuis brilhantes de espectativa.
- Quando me preparava para voltar, tive a notcia de que meu pai havia morrido na Esccia. Fui obrigado a viajar para l o que atrasou bastante meu retorno. Finalmente,
quando cheguei de volta, encontrei aqui uma carta de Manton, meu assistente. Dizia que encontrara o tmulo, mas que estava enfrentando problemas muito srios.
- Que tipo de problema?
- Acho que ele no quis deixar por escrito, com medo de a carta ser interceptada. Mas li nas entrelinhas que havia perigo

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 vista. Junto, encontrei um mapa da regio onde a tumba se achava. Por razes que ele no explicou, mandou interromper os trabalhos e encobrir os sinais de escavao
com areia, de modo a esconder muito bem o local.
- Talvez preferisse esperar sua volta, Kane.
- Foi o que pensei a princpio. Mas recebi outro bilhete de Manton,
prevenindo-me que havia gente querendo roubar o tesouro e utiliz-lo para fins polticos.
- Agora no entendi nada. De que servem antiguidades para polticos?
- Espere. Assim que cheguei, comecei a investigar, e encontrei tudo Exatamente como Manton descrevera.
- Mas ele no lhe explicou tudo quando voc chegou?
- No - replicou Kane, com a voz sombria -, pela simples razo de que ele desapareceu sem deixar rastro.
Octavia deixou escapar um gritinho aflito. Kane continuou:
- Depois daquele bilhete, ningum mais soube dar notcias de meu assistente.
- Meu Deus! Ser que est...
- Morto? No creio. Mas tenho quase a certeza de que sequestrado.
- Mas, porqu?
- Creio ter chegado a algumas concluses, mas elas no so definitivas.
- Explique-se melhor, por favor! No estou compreendendo direito!
- Uma certa pessoa, que no sabemos quem  Exatamente, pretende tomar o trono do Quediva, expuls-lo juntamente com os ingleses e entregar o governo do Egito a Arabi
Pasha.
- Aquele revolucionrio de que me falou agora? Pensei que estivesse preso!
- No, agora est exilado no Ceilo.
- Ento essa pessoa deve ser amiga dele. Mas no  fcil tomar o governo, ?
- Bem, ele pode tentar, mas para isso precisa de muito dinheiro, muito mesmo.
- Ah, agora acho que entendi. Esse dinheiro pode ser conseguido com a venda dos tesouros do tmulo.
-  uma moa bastante esperta e inteligente, como sempre
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digo. Qualquer antiguidade egpcia vale uma fortuna; imagine quanto conseguiriam se encontrassem essa tumba! , colecionadores nunca olham para o preo dessas coisas.
Especialmente os americanos. So alucinados por objetos exticos e caros.
Octavia pensou imediatamente em Virginia.
- Suponhamos que esse homem encontre o tesouro e consiga vend-lo. Que faria com o dinheiro?
- Compraria armas e munies, mas o primeiro passo seria assassinar lorde Cromer e o Quediva. Depois seria fcil entregar o poder a Arabi Pasha.
Octavia respirou fundo, tentando entender o que ouvia.
- Tudo isso  uma histria terrvel! Mas ainda no compreendi uma coisa. Por que querem matar voc?
- Primeiro: tenho reputao de ser um bom agente de lorde Cromer. Na verdade, no sou nenhum agente secreto de contra-espionagem, mas j descobri compls e revoltas
com facilidade, mesmo em casos em que investigadores profissionais falharam. Segundo: eu sei onde est o tesouro. Eu e Manton.
- Ento a situao  bastante perigosa.
- Voc j teve uma pequena amostra dela.
Octavia pensou um pouco e depois disse:
- De que adiantaria mat-lo? Voc no poderia contar onde est o tmulo!
- No se esquea que Manton  prisioneiro deles. Provavelmente vo tortur-lo para que conte o segredo.
- Tortura! - sussurrou ela, num sopro. -  isso o que mais me assusta no momento. Contudo, eles sabem que Manton  um homem de excepcional lealdade. Tero de agir
devagar e com prudncia para no mat-lo. Isso me d um pouco de tempo para agir.
- Quanto tempo?
- No sei, Octavia - respondeu Kane, com um gesto de desnimo. - Por outro lado, se eu morrer, no haver mais razo para Manton ser leal comigo; quero dizer, sabendo-me
morto, Manton poder perder a vontade de resistir ao inimigo certamente sucumbir s torturas. Portanto, para esses assassinos,  absolutamente necessrio que eu
morra, entende?

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Octavia mordeu os lbios, contendo um grito agoniado.
- Isso no pode acontecer, Kane! Se eles conseguirem o que querem, o Egito estar nas mos de um bando de assassinos!
-  Exatamente o que pretendemos evitar. Entende porque esto me perseguindo? E por que  muito importante manter-me vivo?
- Claro que  muito importante! - exclamou ela, com a voz estrangulada de dor. Kane olhou para a negra silhueta das rvores altas, recortadas contra o luar.
- Tudo o que lhe disse no passa de suposio, mas tenho a convico de que no estou enganado. O objetivo deles  expulsar os ingleses do Egito.
- E colocar Arabi Pasha no trono!
- Se conseguirem matar lorde Cromer, tudo ser mais fcil para o inimigo.
- Ele  to importante assim?
-  o ponto crucial desta guerra fria. Sem ele, os ingleses se sentiriam rfos e desorientados. Afinal, foi lorde Cromer quem ps ordem naquela confuso que havia
antes aqui.
Fascinada com a narrao, Octavia no tirava os olhos de Kane. Ele encheu um copo de gua, bebeu um gole e prosseguiu:
- Veja, foi ele quem iniciou os projetos de irrigao do deserto, coisa que nunca havia sido feita em parte nenhuma do mundo. Ele mandou reconstruir velhas ferrovias,
reformou as leis do pas. Enfim, transformou o Egito numa grande potncia. Seria um desastre de propores catastrficas, se fosse assassinado.
- Mas seria um desastre maior ainda se... algo acontecesse a voc! - disse Octavia baixinho, quase para si mesma.
Kane sorriu e mirou-a longamente.
- Fala de corao?
- Claro que falo! - respondeu ela veementemente. - Acho que voc subestimou sua importncia nessa histria toda.
- Sei que  muito importante no me deixar matar.
Cansadamente, Kane olhou para as estrelas.
- Dizem que cada estrela tem gravado em si o destino de uma pessoa. Gostaria de saber qual delas tem o meu!
Riu, ligeiramente amargo, e completou, espreguiando-se, secretamente:

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- Mas por ora meu destino  uma boa cama. Amanh, de cabea fria, poderemos pensar melhor.
Octavia anuiu docilmente, mais do que nunca convencida de que estava no meio de um estranho sonho. Que histria fantstica estava vivendo!
- Sim, acho que  melhor dormir. Voc vai precisar de muita fora e inteligncia para conseguir destruir essa trama toda.
- Agora que conhece um pouco mais de minha vida, ainda est decidida a ficar para me ajudar, Octavia?
- Bem que eu queria, mas sou to fraca e pequena! Tenho medo de falhar e, o que  pior, de atrapalh-lo na hora mais importante!
Ele balanou a cabea, muito srio.
- Quando vi seus cabelos dourados pela porta do quarto, l em Alexandria, tive a intuio de que voc iria me ajudar. E no me enganei. Confio em meu poder de percepo,
e sei que ainda poder fazer muito por mim, Octavia.
Ento, fico com prazer - murmurou ela, corando. Kane pegou sua mo, apertando-a docemente.
- Era o que eu queria ouvir.
Havia um tom baixo e quente na voz dele, que fez o sangue de Octavia correr mais depressa. Que sensao estranha e nova era essa que sentia desde que descera a escada?
- Agora, v para seu quarto. Quero que acorde amanh cheia de energia, pois no sei o que teremos pela frente. Depois de um bom descanso, tudo parece fcil.
- Espero que sim. E muito obrigada por deixar-me ficar aqui.
Levantou os olhos cristalinos, fitando-o com meiguice. Kane no se moveu, mas ela teve a impresso de que ele a puxava para si, magnetizando-a como im poderoso.
Confusa, sem compreender o que se passava com ela, Octavia baixou a vista. Ele levantou-lhe a mo ainda presa entre as suas, e beijou-a suavemente.
- Boa-noite, Octavia. Prometo-lhe que nada - e ningum perturbar seu sono hoje.
O modo como fora sublinhada a palavra "ningum" deixou-a intrigada. De quem ele estaria falando? Porm, o cansao impediu-a de pensar muito no assunto. Virou-se
e atravessou a varanda, ganhando as escadas.

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Ao chegar ao quarto, achou uma longa camisa de macia cambraia cuidadosamente dobrada sobre a cama. Era de corte masculino, e Octavia presumiu que fosse de Kane.
Sem poder pr em ordem seus pensamentos, de to cansada, trocou rapidamente o belo cajtan pela camisa e enfiou-se na cama, depois de baixar o mosquiteiro. Mal encostou
a cabea no travesseiro, adormeceu profundamente.
Kane, embora estivesse exausto, permaneceu sentado por longo tempo na varanda, com os olhos pensativos mergulhados na escurido da noite...
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CAPTULO V

Octavia acordou com uma sensao nova de felicidade e excitao, coisa que no sentia h muito tempo. Algo muito importante estava para acontecer em sua vida, embora
no pudesse adivinhar o que era.
Depois de bater discretamente, Hassan entrou com uma grande bandeja. Depositou-a ao lado da cama, levantou o mosquiteiro, prendendo-o ao dossel, e afastou as cortinas,
inundando o quarto da dourada luz da manh.
- Dia bonito, lady! Master comer bastante e agora saiu.
- Kane foi embora? - perguntou Octavia, ligeiramente desapontada. - No disse quando... volta?
- Master disse que volta no almoo.
Curvou-se profundamente e saiu. Octavia espreguiou-se, sorrindo. Como era boa a vida nessa cama macia! Acima de tudo, era bom no ter de levantar-se correndo para
cozinhar e arrumar a casa. Lanou um olhar preguioso para a bandeja e imediatamente seu apetite foi despertado pelo aroma de uns bolinhos quentes e de aparncia
crocante. Provou um; era simplesmente delicioso! Comeu-os todos, enquanto tentava imaginar o tipo de trabalho que teria  sua espera. No via como poderia ajudar
um homem forte e seguro de si como Kane. Certo, na viagem fora de alguma utilidade, mas... e agora?
Estava ainda quebrando a cabea, procurando um modo de merecer pelo menos metade do gordo salrio, quando Hassan voltou, todo animado e gesticulante.
- Lady comeu bem! Hassan est feliz. Quer banho agora? Melhor antes de costureira, no?
- Costureira? Ora. para qu?
Mas Hassan j no a ouvia; abrindo as torneiras, entoava baixinho uma estranha cano, imemorial como seu prprio povo. Octavia escutou-o, fascinada, e depois pensou
na histria da costureira. De sbito, lembrou-se da promessa de Kane. Ele no se esquecera dela! Ia ento ganhar um vestido novo! Saltou da cama, excitada e feliz.
"Roupa nova! H quanto tempo no sei o que  isso!"

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Uma hora depois chegou a costureira, acompanhada de duas ajudantes. Falante e simptica, tinha o sotaque inequivocamente francs. Enormes caixas foram abertas e
seu contedo estendido sobre a cama, enquanto as trs tagarelavam sem cessar. To logo comearam a exibir os artigos, Octavia sentiu o corao confrangido. Jamais
poderia comprar um s daqueles vestidos maravilhosos!
- Monsieur Gordon quer ver mademoiselle muito elegante. Disse para mademoiselle escolher o que quiser!
Octavia mal podia acreditar no que via. A francesa trouxera tambm meias, bolsas, espartilhos e camisolas, que mais pareciam pedacinhos de nuvem transparente. Sem
saber como, atrapalhada com a algaravia da francesa, acabou escolhendo quatro vestidos para usar de dia e mais quatro especiais para a noite, ricamente bordados.
Escolheu ainda sombrinhas e chapus de palha, alm de uma infinidade de acessrios.
A costureira, porm, mandava abrir caixas e mais caixas. O quarto de Octavia mais parecia um imenso bazar oriental, to cheio ficou. Aflita, conseguiu finalmente
interromper a azfama das ajudantes, dizendo com firmeza:
- Bastam estes que escolhi, no quero mais nada. Alm disso, preciso falar com o Sr. Gordon antes de comprar qualquer coisa.
Diante do olhar Consternado da simptica senhora, sorriu e ajuntou:
- Ele j deve estar chegando. Por favor, esperem aqui.
Desceu correndo, pensando que tinha exagerado na escolha, cheia de culpa e apreenso. Kane acabava de entrar, e entregava seu chapu a Hassan. Quando a viu, abriu
um sorriso:
- Ora, ora! Creio que no preciso dizer que est linda!
Preocupada com a conta astronmica, Octavia nem percebeu
que havia descido com um vestido de delicada musselina rosa, um dos especiais para a noite.
Nervosamente, torceu as mos, sem saber como abordar o assunto.
- A costureira quer me persuadir a comprar muito mais do que voc pode, Kane! Meu quarto est de pernas para o ar, e eu. no sei o que fazer.

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- Ela est simplesmente cumprindo minhas ordens. Pelo
que vejo, cumpriu-as muito bem! - completou, escorregando-lhe o olhar admirativo pela cinturinha fina de Octavia.
Sei que quer devolver a roupa que perdi, e isso eu aceito de corao. Mas nunca tive nada to bonito e... e caro em toda a minha vida! No  justo!
Ele ps as mos no bolso, sorrindo. Octavia persistiu:
- Posso muito bem comprar s este vestido. Depois, procuro uma modista barateira e mando copiar o mesmo modelo em outras cores. Ficar muito mais barato!
Era um truque que sua me lhe ensinara h alguns anos, quando o dinheiro j comeava a escassear em Priory.
Divertido com a aflio de Octavia, Kane afagou-lhe o rosto paternalmente.
- No, senhora. Provas de roupa so um verdadeiro suplcio, e tomam muito tempo. Alm disso, quero retribuir-lhe por ter salvo minha vida. No recuse, Octavia, ou
eu ficaria muito infeliz. Agora diga  costureira que separe tudo o que escolheu, e volte para almoar comigo.
Diante disso, era-lhe impossvel protestar mais. Subiu correndo, sentindo asas nos ps e no corao. Radiante, avisou  costureira que ficaria com tudo o que separara.
Encantada, a francesa agradeceu mais de mil vezes, e, arrebanhando as ajudantes, prometeu que voltaria de tarde com os vestidos ajustados ao seu manequim. Octavia
voltou para baixo imediatamente, ansiosa para estar com Kane.
Ele esperava na varanda, trajando um elegante terno claro. Ao v-lo, Octavia sentiu o corao bater descompassadamente. Era, de fato, um belo homem - e estava ali,
esperando por ela! Esse pensamento encheu-a de vaidosa alegria.
Hassan trouxe bebidas, e, quando Octavia tentou agradecer-lhe mais uma vez, Kane a cortou com firmeza:
- No agradea, Octavia. Fico muito feliz por poder lhe dar essa alegria; na verdade, eu  que devia agradecer-lhe.
- Ento, conte-me o que fez hoje de manh - pediu ela, sabendo que no devia mais insistir no assunto.
Andei investigando meus negcios, pois estive fora do Cairo por muito tempo.
Quando Hassan se retirou, aps servi-los, ela perguntou em voz baixa:

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- Teve notcias de Manton?
- Nada de positivo, infelizmente. Mas todos os meus ajudantes pensam, como eu, que ele est cativo e assim permanecer at que eu morra.
Octavia soltou uma exclamao horrorizada:
- Ento voc precisa fugir daqui, esconder-se num lugar mais seguro!
- Sossegue, este  o lugar mais seguro do Cairo. Voc pode no ver, mas h muita gente vigiando por perto. Afirmo-lhe: ningum pode entrar nesta casa sem ser notado.
Seu tom calmo e sereno contagiou-a imediatamente. Contudo, no podia deixar de pensar que Kane poderia levar um tiro pelas costas, com aquelas enormes janelas abertas.
Mas ele leu seus pensamentos.
- No h inimigo nenhum por perto. Asseguro-lhe que est a salvo aqui, pequena.
- No  por mim que me preocupo,  por voc!
Ele deu-lhe um sorriso franco e aberto, provocante:
- Sou to importante assim para voc?
- Sabe muito bem que  - respondeu com simplicidade. - O pior  que estou envolvida nessa histria e no consigo ver um modo de ajud-lo. A nica coisa que posso
fazer  rezar, o que me parece muito pouco.
- Talvez no seja, mas prefiro que no se preocupe tanto. J me salvou duas vezes, e, se aparecer outra ocasio, voc no falhar.
- A segunda vez foi mais por culpa minha. Se no tivesse olhado pela janela, o homem de casaco marrom no teria nos visto.
- E se voc no o visse, eu poderia ser apanhado de surpresa, e minhas chances seriam nulas. J discutimos isso, lembra-se?
S de pensar nessa possibilidade, Octavia arrepiou-se toda. Mudou de tom, procurando parecer alegre:
- Que vai fazer hoje de tarde?
- No sei ainda. Por qu?
- Se for a algum lugar, gostaria de ir junto. Oh, por favor!
O pedido saiu impulsivamente, mas em seguida ela se arrependeu. Talvez Kane preferisse cuidar de seus negcios sozinho.

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Contudo, ele pareceu gostar da ideia, pois sorriu e olhou para
O cu, dizendo:
- O calor est bravo, por isso sugiro que fiquemos em casa. podemos ler na varanda e conversar um pouco. Quando a tarde estiver mais fresca, iremos visitar as pirmides.
Octavia quase bateu palmas de alegria.
- De verdade?  o que eu mais quero fazer!
- Ento estamos combinados prometeu Kane, tocado pelo excitamento infantil da moa.
Mais tarde, instalados na florida varanda, os dois liam tranquilamente. Logo, porm, ela baixou o romance e deixou-o, esquecido no colo, perdida em pensamentos.
Mal acreditava que podia ficar ali, preguiosamente recostada, bebericando um refresco; isso era coisa que no fazia h anos. No castelo, alm de ter o pai para
cuidar, havia sempre trabalho pesado para fazer.
Tinha de cozinhar, lavar e passar toda a roupa, varrer e espanar as grandes salas vazias, cada vez mais encardidas e sombrias. Acima de tudo, havia a batalha diria
e sem fim para encontrar o que comer.
O ltimo jardineiro de Priory j no trabalhava, pois no havia como pagar-lhe o salrio. No entanto, era um velho e fiel empregado; quando o reumatismo o permitia,
costumava plantar legumes no velho jardim, e ocasionalmente colhia algumas batatas para Octavia. Na maior parte das vezes, porm, ela mesma tinha de sair e fazer
esse trabalho; levantava-se cedinho e ia catar razes e frutos silvestres. Quando tinha muita sorte, encontrava alguma verdura crescida ao acaso.
 verdade que ainda havia uma macieira, uma ameixeira e alguns tomateiros, mas j estavam velhos, e seus frutos eram sempre pequenos e pouco aproveitveis.
Lembrou-se, com amargura, do trato que fizera com os moleques da vila. No passado, era proibido ultrapassar os limites das terras do castelo para caar, mas depois
Octavia vira-se obrigada a deix-los entrar. De cada cinco coelhos que pegassem, Um era dado a ela. Dessa forma, de vez em quando Tony e Octavia banqueteavam-se
com coelhos selvagens, cuja carne dura adquiria o sabor de divina ambrsia para os dois.
- Em que est pensando, Octavia? - perguntou Kane, arrancando-a dos tristes devaneios.

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- Eu, estava pensando em minha casa.
- Conte-me como era.
Octavia acariciou a ideia de abrir-se totalmente e contar as suas recentes atribulaes. Depois, pensando melhor, sacudiu a cabea.
- No quero pensar em coisas tristes.
- Quer dizer que sua casa era triste?  difcil de acreditar voc est me pondo curioso. Por que a deixou e veio para to longe? Principalmente, como  que tiveram
coragem de abandonar voc neste pas estranho?
A nota de acusao inequvoca deixou-a desconfortavelmente tensa. Ainda no tinha a menor ideia de que Kane suspeitava que Tony no era seu irmo.
- Por favor - implorou ela -, vamos falar sobre o Egito. Sinto-me mal por conhecer to pouco este maravilhoso pas! Prefiro aprender tudo o que puder sobre ele.
- A prtica  a melhor professora que existe. Muito melhor do que palavras  conhecer e ver as maravilhas do Egito, que os gregos costumavam chamar de "Pas do Sol".
Quem vem para c sempre acaba ficando enfeitiado.
-  verdade, eu estou mesmo enfeitiada.
e intrigada com um jeitinho feminino, conseguiu que Kane falasse sobre
suas descobertas arqueolgicas, desviando-lhe habilmente a ateno. Por fim, ele prometeu lev-la para conhecer alguns tesouros que descobrira e que agora achavam-se
em lugar protegido. Os egpcios haviam aprendido que qualquer coisa que fosse antiga possua alto valor em dinheiro, principalmente para turistas americanos e europeus.
O resultado foi que as escavaes comearam a brotar por toda a parte, indiscriminadamente, sem os necessrios cuidados. Isso frequentemente arruinava os preciosos
achados; muitos afrescos antiqussimos perderam-se desse modo, bem como vasos e objetos de barro, prata ou ouro. Costumava-se tambm saquear e roubar as escavaes,
caso estas no estivessem muito bem guardadas.
- E ningum pode fazer nada contra esse vandalismo? -" perguntou Octavia.
- Fazemos o que podemos, mas os violadores de tumbas e monumentos so geis e silenciosos como gatos. Alm disso, so geralmente to pobres, que ningum pode verdadeiramente
culp-los; quase sempre agem assim apenas para ter o que comer

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Mas  uma perda irreparvel! So tesouros antigos e de alto valor histrico. Principalmente porque caem em mos de gente que nada entende de arqueologia.
O mais fantstico  que, apesar de tudo, o Egito  ainda uma verdadeira arca de tesouros, os mais fabulosos que se pode imaginar. Ainda sobrou muita coisa bela,
mesmo com todos os ladres e piratas.
- Que pas maravilhoso!
-  o que tambm acho.
Ela se perguntou se um dia Kane a levaria para visitar a tumba que descobrira, o que seria a experincia mais emocionante e sensacional de sua vida, tinha certeza.
Mas ele certamente no gostaria de levar mulheres para esse tipo de trabalho. Mesmo que ainda estivesse no Egito quando ele recomeasse as escavaes, ele provavelmente
no a convidaria, nem mesmo para uma rpida visita.
Kane estava animado com a conversa, e continuou a falar sobre arqueologia, enquanto ela escutava concentradamente. O assunto era fascinante, e Kane mostrava-se bastante
compreensivo, respondendo a todas as suas perguntas com pacincia e delicadeza. Mais do que tudo, Octavia apreciava o modo como ele ouvia com ateno as observaes
que se arriscava a fazer de vez em quando.
Em Priory, sempre que conversava com o pai, sentia que sua pacincia logo se esgotava; logo se punha a falar sobre jogo e mulheres, o que a entristecia. Quanto a
Tony, esse nunca a escutava. S fazia gabar-se de suas ltimas conquistas e namoros. s vezes, Octavia tinha a dolorosa impresso de que tanto
O pai como o irmo falavam com ela porque no tinham nada melhor para fazer!
Mas, com Kane, que diferena! Dispensava-lhe toda a ateno, dando a impresso de que a achava sensvel e inteligente, alm de elogiar os apartes que ela dava. Foi,
pois, cheia de surpresa que o ouviu dizer, a certa altura:
- Est na hora de ir. Quero chegar a tempo de ver o pr do sol, portanto, apresse-se. Tem dez minutos para se arrumar!
- J? Nem percebi o tempo passar!
- Bem, considero isso um elogio - replicou ele, rindo.
- Acha que devo ir de chapu?
- Depende. Se quiser ficar elegante e com ares de grande

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dama, ento ponha um. Particularmente, prefiro v-la assim, de cabelos presos nesse coquezinho delicioso. Mas pegue um xale, para no sentir frio depois. E, por
favor, no troque de vestido. Esse est lindo em voc!
Octavia correu para o quarto, escovou rapidamente os cabelos e ajeitou-os no mesmo coque, como Kane pedira. Olhou-se no espelho, satisfeita. Ele tinha razo, aquele
vestido era um verdadeiro sonho cor-de-rosa. Havia um qu especial no corte que acentuava sua cintura fina e lhe dava uma graa que ela prpria no sabia possuir.
Enquanto descia a escada, percebeu que a saia farfalhava suavemente. Orgulhosa, ajeitou um dos delicados laos de cetim, pensando que era uma moa de muita sorte.
Nunca imaginara possuir um vestido desses - e era dona de vrios!
Novamente pensou na alta conta que Kane pagaria  costureira, e sentiu-se culpada. Por outro lado, que mais podia fazer seno aceitar o presente, ofertado com tanto
gosto? Lembrou-se de sua velha roupa perdida no vago de despachos. Quem a encontrasse no ficaria nada feliz com o achado.
- Octavia, vamos! Vai ficar tarde!
Desceu os ltimos degraus correndo e parou ofegante diante da carruagem, cuja porta Kane j abrira. Enquanto ele a ajudava a subir, admirou o luxo do veculo, uma
elegante vitria, muito diferente da pequena carruagem que os trouxera da estao. Era puxada por dois belos cavalos, dirigidos por um cocheiro muito empertigado
e esticado em sua libr. De quem seria essa luxuosa vitria? No de Kane, certamente. Octavia j percebera que ele no era pobre, mas, para ser dono de um veculo
desses, seria preciso ser, no mnimo, um nobre de sangue real. Talvez fosse de lorde Cromer?
Refreou a curiosidade e no fez perguntas. Preferiu deliciar-se com os encantos da paisagem tropical. Frondosas rvores margeavam o caminho e protegiam com sua sombra
as pequeninas flores que salpicavam o gramado verde-esmeralda.
A luz do sol fundia-se com o azul do cu, produzindo matizes cambiantes de lils e ouro.
Quando finalmente deixaram as casas para trs e chegaram ao deserto, Octavia viu pela primeira vez as trs silhuetas das pirmides. Diante de tamanha beleza e imponncia,
lgrimas

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brotaram-lhe aos olhos, sufocando-a de emoo. Kane ordenou que Parasse a vitria e ajudou-a a apear.
Sem capacidade de falar, Octavia deixou-se conduzir para uma duna, de onde podiam ver o vale do Nilo, coleando verdejante. Ele segurou-lhe a mo carinhosamente,
como se quisesse faz-la ver que compreendia bem o que ela sentia.
- As pirmides, Octavia, so um testamento vivo legado pelos antigos. Significam a crena da humanidade na imortalidade da alma.
- Ficaram mudos por algum tempo, e depois ele pediu:
- Diga-me o que sente quando v tamanha maravilha.
- Bem, a princpio fiquei surpresa porque, embora j as conhecesse atravs de livros e pinturas, elas me pareceram diferentes, esquisitamente mgicas.
- De que modo?
-  difcil explicar, mas sinto como se no estivesse usando os olhos para
v-las, mas o corao... tudo o que tenho dentro de mim, acho. Vendo-as assim de perto, tenho a impresso de que no foram construdas por mos e criadas por crebros
humanos, mas por sentimentos... talvez mesmo pela alma humana. Acho que estou sendo melodramtica, mas no  fcil pr em palavras o que senti.
- Continue, Octavia.
- Essas pirmides no so objetos para mim, entende? So emoes muito profundas, to antigas quanto o prprio homem.
Fez um gesto de desnimo.
- No h palavras, tudo o que estou dizendo no tem sentido.
- Tem, sim. Porque foi Exatamente assim que me senti quando aqui vim pela primeira vez. A simplicidade das linhas transmitiu-me a ideia de que havia muita emoo
por trs destas belas formas.
- O esprito da vida - disse Octavia, com suavidade.
Exatamente. Sabia que voc sentiria o mesmo que eu, Por isso quis traz-la.
Ela no respondeu, porque no havia mais necessidade de Palavras. Kane fez um sinal ao cocheiro e pouco depois estavam rolando novamente sobre o imenso areal. Octavia
ainda tinha a sua mo presa na dele, e sentia pequenas fagulhas elctricas percorrendo-lhe o corpo.

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O sol estava baixo, e o cu tornara-se translcido com a sua luz prpura. Para alm do horizonte, comeou a cintilar a primeira estrela. Extasiada, Octavia sentia-se
flutuando no espao danando como pequenina nuvem rosada, ao som de uma msica que s ela podia ouvir, cujo som emanava dos picos pontiagudos das magnficas e solitrias
pirmides.
J era quase noite agora; apenas se divisava uma estreita fmbria vermelha no horizonte. Octavia sentia-se voltar de uma viagem ao infinito, onde havia experimentado,
por breves momentos, a perfeio da beleza eterna.
S ento percebeu que apertava com fora a mo de Kane, tanto que seus dedos lhe doam. Virou o rosto para ele, a fim de pedir-lhe desculpas, e deu com os olhos
dele contemplando-a, muito srios. Nada disseram; bastava-lhes esse olhar para saberem que estavam ambos em perfeita comunho com o esplendor da natureza do vale
dos Reis!
A noite desceu, cobrindo o cu de veludo negro. com tristeza, Octavia pensou que teriam de voltar para casa. Contudo, a carruagem seguia em frente, e subitamente
ela adivinhou que Kane iria lev-la para conhecer a Esfinge.
Agora as estrelas formavam um arco de luz sobre o deserto. Octavia teve a sensao de que o universo todo havia se reunido para acalent-los. No havia mais ningum
no mundo, apenas Kane e ela.
De repente, como num passe de mgica, viu-se diante de uma enorme silhueta negra recortada no horizonte; a noite estava escura, porm, como se obedecesse a uma ordem
de Kane, a lua surgiu esplendorosamente cheia, luminosa, de trs de uma nuvem.
 medida que a claridade ficava mais forte, Octavia pde ver o corpo em forma de leo, smbolo da realeza, encimado pela enigmtica cabea de mulher. Kane explicou:
- Est voltada para o leste, a fim de vigiar o nascer do sol. com o sol nasce tambm a vida!
- O que quer dizer que ns, nunca morremos!  essa a ideia?
- Sim, essa  a filosofia egpcia da vida eterna!
Desceram da carruagem, e Kane pediu ao cocheiro que os
esperasse um pouco mais adiante. Caminharam devagar pela areia, inundada de luar. Octavia sentia-se uma formiguinha

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diante das milenares obras de arte. com justia, as pirmides so uma das sete maravilhas do mundo!
E com razo dizia-se que havia um enigma escondido na cabea da Esfinge, eternamente mirando o horizonte. Octavia sentia que a figura de pedra tinha uma mensagem
s para ela, e aproximou-se mais, recebendo fortes vibraes em sua alma. Ambas uniram-se num segredo estranho e desconhecido, guardado h milhares de anos. Em silncio,
Kane ficou a seu lado.
- ...  bonito demais, Kane.  como se a Esfinge estivesse falando comigo... Sei que no pode ser verdade, mas meu corao ouve suas palavras, embora no as compreenda.
- Tambm sinto isso, sempre que venho visit-la - respondeu ele, com voz quente e grave. Em seguida, envolveu-a pela cintura e, quando Octavia se voltou, surpresa,
os lbios dele juntaram-se aos dela.
Perturbada com o turbilho de sentimentos contraditrios que a assaltavam, Octavia deixou-se beijar, sem entender as sensaes ardentes que a boca de Kane lhe causava.
Sabia que experimentava uma espcie de xtase, fruto da beleza do crepsculo, dos mistrios das pirmides, da noite estrelada e, mais do que tudo, fruto da Esfinge
enigmtica, impvida e protetora, banhada de intenso luar.
A princpio o beijo foi leve, macio como fresco sopro de aragem, mas logo se tornou possessivo, exigente e sfrego. Octavia comeou a sentir outra sensao nova,
totalmente desconhecida, que a atraa e assustava ao mesmo tempo.
Insinuante, a sensao percorreu-lhe o sangue, viajou pelos seus seios e comeou a entontec-la docemente, deixando-a sedenta de beijos.
S ento soube que amava! Esse era o amor com que tanto sonhara, o amor que julgara existir s em sua imaginao.
Foi uma descoberta maravilhosa, to surpreendente quanto excitante. Octavia concentrou-se nela, enlevada com a emoo que a invadia, diferente de tudo o que podia
imaginar, muito mais bela do que jamais ousara acreditar. Os braos de Kane apertaram-na com mais fora e os beijos tornaram-se mais ousados, revelando paixo e
desejo, despertando o corpo de Octavia, transformando-a de repente em mulher.
Sem medo algum, entregou-se com volpia s carcias apaixonadas, correspondendo com o mesmo ardor e arrebatamento.
- Como pode ser to bonita, Octavia? - perguntou ele com voz rouca. - Voc 

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o tesouro que sempre procurei, O verdadeiro tesouro que finalmente consegui encontrar.
Ela ergueu os olhos brilhantes e midos, ofuscada pela luz prateada que jorrava sobre os cabelos negros de Kane. Mais uma vez a sensao estranha tomou conta de
seu ser, enquanto o imenso poder de seduo de Kane tirava-lhe totalmente a vontade, atraindo-a para um abismo de paixo e desejo.
Quando ele se afastou um pouco, a fim de olh-la melhor, Octavia apoiou o rosto no peito msculo, enquanto seu corao batia desordenadamente.
- Como voc me enfeitiou assim? - murmurou Kane com ternura, afagando-lhe os cabelos.
- Eu... acho que  porque eu te amo! No sabia que o amor era assim to belo e completo!
- Gostei de ouvir isso, Octavia. Mas no estou satisfeito ainda. Quero que me beije mais!
Perdidos num delrio de carcias, esqueceram-se da Esfinge, das pirmides e do luar que os banhava, como que dando-lhes a bno por se amarem tanto. Era como se
a lua tivesse enfeixado seus raios dentro dela, invadindo-a com sua luz fulgurante, e, num ltimo e longo beijo, Kane sentiu que Octavia lhe passava toda a sua vida,
atravs dos lbios. Ela agora lhe pertencia e entregava-lhe um amor imenso e imortal, como a Esfinge que os vigiava. Por fim, Kane largou-a e falou baixinho:
- Preciso lev-la para casa, minha querida.
- Eu, no quero ir! Talvez nunca mais sinta o que estou sentindo. Quero ficar, Kane!
Ele riu ternamente e abraou-a.
- Prometo que sentir sempre a mesma coisa, meu tesouro, talvez ainda mais. Vamos, est ficando tarde.
De mos dadas, caminharam sobre a areia macia, perdidos no olhar um do outro. Assim que a vitria comeou a rodar, Kane puxou-a para junto de si, cobrindo seu rosto
de beijos carinhosos.
- No pode ser verdade, Kane. estou sonhando de novo! O sonho mais bonito que j tive na vida.
- Que agora se tornou realidade. Eu devia saber que me apaixonaria por voc assim que vi sua cabecinha loura no quarto
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do hotel. O destino nos uniu de maneira muito especial, e havia uma razo para isso, uma linda razo. Ningum escapa das malhas do destino!
Essas palavras fizeram-na lembrar-se do trem, onde ele estivera a um passo da morte. Respondeu, aconchegando-se mais:
- Mas  preciso tomar cuidado, porque o destino pode s vezes ser bem cruel. Se alguma coisa lhe acontecer, eu... acho que morro tambm.
Kane apertou-a com fora.
- Ns nos beijamos diante da Esfinge, querida. Sabemos agora que no existe morte para ns dois!
E, como se quisesse confirmar as palavras, beijou-a de novo, murmurando palavras ternas e apaixonadas ao seu ouvido, enquanto a vitria os levava de volta para o
Cairo. Octavia perdeu a noo do tempo, e, sem saber como, viu-se descendo diante da porta da casa de Kane, onde Hassan os esperava com um largo sorriso.
- Master demorou bastante! Jantar est pronto, muito gostoso! Mas primeiro querem tomar banho, no?
- Sim, Hassan,  uma boa ideia - volveu Kane, depois de dispensar o cocheiro.
Quando Octavia entrou no quarto, encontrou um de seus vestidos cuidadosamente passado, pendurado junto  cama. Ainda sob o impacto da mgica tarde, decidiu arrumar-se
com todo o esmero, para Kane. Banhou-se rapidamente, perfumou-se e levou longo tempo penteando-se. Depois hesitou, olhando para o rico e fino vestido, cheio de minsculos
botes nas costas. Como faria para vestir-se?
Nesse instante, uma jovem entrou. A julgar pela semelhana de traos, devia ser filha de Hassan. No sabia falar ingls, mas conseguiu explicar com gestos que viera
ajud-la. A moa era gil, e num instante o vestido estava abotoado e ajustado. Pela expresso da outra, Octavia sabia que devia ter ficado muito bonita, e alegrou-se
com isso. Depois de agradecer, correu para estar novamente em companhia de Kane.
Ele esperava na sala de estar, onde ardiam algumas lmpadas a leo. Usava uma camisa de cetim branca, apertada na cintura por uma grande faixa vermelha. Aos olhos
de Octavia, ele lhe pareceu mais elegante que nunca, talvez com jeito de pirata ou de algum heri fugido das pginas de um livro.

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Ele abriu os braos, sorridente, aguardando-a.
- Parece uma princesa, Octavia. O vestido  lindo, mas no  por causa dele que digo isso.
Ela deu uma voltinha, fazendo a saia rodar, exibindo-se orgulhosa diante do olhar divertido de Kane. A ampla saia de tule deixava entrever pequenos fios prateados,
e na ponta de cada babado, havia uma fileira de lgrimas furta-cores que mudavam de tom a cada movimento. Na cintura, uma fita larga debruada produzia o mesmo efeito
 luz tremulante das lmpadas. Ansiosa, ela parou no meio da sala e perguntou:
- Gostou? Est satisfeito?
- Ainda no de todo - riu ele -, mas vamos deixar isso para mais tarde.
Octavia no entendeu, mas atribuiu a frase  presena de Hassan, que acabava de entrar para anunciar que o jantar estava servido. Sentia-se to feliz e area que
seria incapaz de contar mais tarde o que comera naquele memorvel jantar. Sabia que tudo tinha o sabor de ambrsia, nada mais.
No tirava os olhos de Kane, ouvindo-o com ateno e bebendo suas palavras. Por vezes o olhar dele a acariciava como se a estivesse beijando.
Terminado o jantar, ficaram ainda conversando por muito tempo na varanda, de mos dadas sob a luz da lua, que velava por eles, complacente. Finalmente, Kane disse:
- Est ficando tarde, minha querida.  melhor que suba agora para seu quarto.
Levantaram-se e ele a puxou suavemente, beijando-a. Octavia queria protestar e pedir para ficar mais, mas subiu obedientemente, s para mostrar a Kane que ele era
seu dono, senhor absoluto de sua vontade.
A filha de Hassan esperava-a e ajudou-a em silncio a despir-se, retirando-se em seguida, depois de fazer uma profunda reverncia. Octavia vestiu uma das camisolas
novas e difanas, cujo tecido, transparente como cristal, era macio e convidativo. Soltou os cabelos, escovou-os e pensou que era uma pena Kane no poder v-la assim.
J estava deitada quando percebeu que um dos lados do mosquiteiro no havia sido baixado. Levantou-se a fim de pux-lo; sabia que os insetos no a deixariam em paz
se no protegesse a cama.

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Nesse momento, a porta se abriu e Kane entrou. Instintivamente, ela cobriu-se com os braos, enquanto ele se aproximava com um sorriso apaixonado. Vestia um longo
robe de brocado verde sobre um pijama de seda bege.
Foi ento que um pensamento terrvel veio  sua cabea. Assustada gaguejou:
- Que quer aqui? Aconteceu alguma coisa?
- No, est tudo bem, meu amor. Chegou a hora de eu falar de minha satisfao, como prometi. E de mostrar o quanto voc significa para mim!
Octavia recuou um passo, sentindo um calafrio desagradvel na espinha, incapaz de falar. Mas quando Kane se sentou na cama, ganhou coragem e balbuciou:
- Eu gostaria, mas... creio que a hora no  apropriada. quero dizer, voc no devia ter entrado no meu quarto!
- A hora  mais do que apropriada, meu amor. Sei que tudo est acontecendo mais rpido do que pensvamos, mas sabemos o quanto nos queremos. No vejo razo para
retardar nosso desejo. Voc j  minha, Octavia!
Ela recusou-se a acreditar no que ouvia. Kane continuou:
- Voc no sabe mentir. O homem que a deixou em Alexandria no devia ser grande coisa, mas, mesmo assim, sou muito agradecido a ele, pois vou substitu-lo de hoje
em diante. Espero que goste mais de mim do que dele, meu tesouro!
- Eu, no entendo nada do que est falando! - exclamou ela, torcendo as mos, ainda esperanosa de ter compreendido mal.
-  natural, depois de tanta coisa que lhe aconteceu. Muito bem, explico-me melhor: quero que voc seja minha. Prometo-lhe que a amarei muito; vou cuidar de voc
de hoje em diante. Nunca mais ter medo de ficar sozinha, porque nunca a abandonarei. E agora, venha, meu amor!
Eram as palavras que Octavia mais esperava ouvir desde que descobrira que o amava. Contudo, havia qualquer coisa de errado nelas. Quando Kane a puxou para a cama,
buscando seus lbios, ela o empurrou e cobriu-se parcialmente com o travesseiro.
- Eu, ainda no estou compreendendo.
- Que mais posso dizer, querida? Seu amante abandonou-a,

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portanto, no gostava muito de voc. Seja como for, saiba que jamais a deixarei para trs - muito menos com a msera quantia de vinte e cinco libras!
No havia mais como mentir para si mesma. Era verdade ento! Kane queria... queria...
No conseguiu completar o pensamento, morta de vergonha e tristeza.
- Como pode pensar essas... barbaridades? Tony, meu amante? Ele  meu irmo, j lhe contei!  meu irmo! . meu. irmo.
Soluava e repetia as palavras, agarrando-se com fora ao travesseiro protetor que a separava de Kane.
- Espera que eu acredite nessa histria?
Desta vez a voz dele tornou-se dura e implacvel, atravessando-lhe o corao como um punhal aguado.
- No sou mentirosa! - gritou ela, em desespero. - Tony me deixou na Alexandria porque queria viajar com a futura noiva. No havia lugar para mim no iate dela, foi
s isso!
Em vo enxugava as lgrimas com as mos trmulas; elas continuavam a escorrer teimosamente. Muito baixinho, com vergonha do que dizia, completou com voz entrecortada:
- Eu... sou virgem, Kane.
Finalmente ele fitou-a, incrdulo.
- Est dizendo a verdade, Octavia?
- Lgico que estou! com que... direito... duvida de mim?
Humilhada, no sabia o que fazer para deter as lgrimas. Esperou um pouco para recuperar-se e poder falar direito.
- Eu estava com medo de voltar sozinha para a Inglaterra porque havia homens no vapor que nos trouxe, Homens que me olhavam de um modo esquisito e... feio. Tony
estava comigo e eles no me incomodaram, mas, se estivesse sozinha, as coisas podiam ser bem diferentes.
Kane hesitou ainda. Levantou-se e ps-se a passear pelo quarto, passando as mos no cabelo.
- Ento Tony  seu irmo - repetiu ele, mais calmo. - Seu irmo!
- Ele me disse que quando chegssemos aqui, me apresentaria a muita gente rica.
- Que gente?
Para ser honesta, acho que ele estava pensando em me

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arranjar um marido rico. Estvamos arruinados, e Tony repetia que essa era a... melhor sada!
Percebendo que Kane ficara tenso e srio, apressou-se a acrescentar:
- Mas eu jamais concordei com essa ideia, a menos que estivesse... realmente apaixonada.
Kane virou-lhe as costas.
- Por favor, tente compreender! Sei que deve me desprezar por ter concordado em vir com Tony, mas acredite em mim, nada mais havia para fazer! Eu... no podia ficar
em casa!
Ainda de costas, Kane cortou-a:
- Ento, voc  mais uma das inglesas que vm ao Egito  caa de maridos ricos!
Octavia no quis contestar - de que adiantaria? As palavras de Kane doam-lhe como chicotadas. Apertou as mos com fora e repetiu:
- No, Kane, no sou. J expliquei o melhor que pude; se no quer acreditar, nada posso fazer.
- Ainda no compreendo como  que seu irmo pde agir dessa forma insensvel. Voc ficou sozinha e sem dinheiro num dos lugares mais perigosos do mundo!
-  que ele julgou que eu lhe obedeceria e voltaria imediatamente para a Inglaterra.
- Ora vamos, Octavia! - disse ele impacientemente, virando-se para encar-la. - Posso dar mil razes para provar que isso seria impossvel. Sem falar no fato de
que um homem desconhecido invadiu seu quarto, o que por si s j poderia ser Perigoso. Por sorte, esse homem era eu!
- Fiquei com medo a princpio, mas depois achei que podia confiar em voc.
- Sou um homem, sabia? E voc, uma linda mulher.
- Acho que Tony julgou que eu... saberia me defender.
- Se quer minha opinio, acho que seu irmo estava pensando muito mais nele do que em voc.
Octavia achou intolervel o desprezo com que ele falava de Tony. Timidamente, defendeu-o, com voz sofrida e cansada:
- Tony  timo irmo e sempre me defendeu, mas est sem dinheiro e sem trabalho. Ama Virginia de verdade;  uma moa muito rica, mas ele no se importa com isso,
tenho certeza!

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Enquanto falava, sentia que s conseguia piorar a imagem do irmo, pois Kane mantinha um sorriso desdenhoso e descrente. Ao mesmo tempo, no queria
contar-lhe a verdadeira razo de terem fugido de Priory, nem desvendar o nome do pai. Sua vergonha por no ter assistido ao enterro crescia a cada instante; mais
do que nunca esse fato pareceu-lhe covarde. Quanto mais pensava, mais complicado achava explicar sua histria.
Kane aproximara-se da janela e contemplava a noite, quieto e pensativo. Ela sentia milhes de quilmetros a separ-los, tal como as estrelas que cintilavam no cu.
- Por favor, Kane, no fique zangado comigo. Sei que perdi voc para sempre e estou disposta a ir embora amanh mesmo, se... for esse o seu desejo.
Ele se voltou para fit-la com olhos graves e inquisidores.
- Para onde iria?  isso o que quer, voltar sozinha para a Inglaterra?
- No, claro que no! Eu, gostaria de ficar com voc, mas... sei que est zangado comigo. Escute, eu quero obedecer-lhe cegamente, mas sei que mame ficaria chocada
com o que voc me sugeriu.
Kane nada respondeu, estudando-a atentamente. Mas Octavia achou que devia prosseguir at ao fim seu pensamento, por mais vergonha que tivesse das prprias palavras.
- Eu no sei muito bem o que acontece quando um homem faz amor com uma mulher, porque mame nunca tocou nesse assunto. Depois que ela morreu, eu no tinha com quem
conversar. Agora acho que deve ser uma coisa maravilhosa, principalmente depois do que senti quando voc me beijou. Ainda assim, creio que seria errado... deitar-me
com voc. Talvez esteja enganada, mas ainda no mudei de ideia.
Pronto, conseguira dizer tudo o que queria. Paralisada de medo, aguardou a reao de Kane, que supunha violenta. Esquecera-se por completo da fina camisola que mal
cobria seu corpo; s conseguia concentrar-se no olhar dele, buscando uma centelha de compreenso.
Sem saber por qu, lembrou-se de uma mocinha de Priory que havia fugido com um dos criados. Houvera muito falatrio, e, mais tarde, soubera que a moa tivera um
beb e afogara-se no rio, levando o filho consigo. Octavia era menina quando

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isso acontecera, e nunca mais se lembrava do fato. Estranhou ter-se recordado de tudo justo agora, num momento to importante de sua vida.
Kane saiu da imobilidade em que se achava e caminhou lentamente para a cama, imerso em pensamentos. Sentou-se na borda, examinando o rosto de Octavia com tanta intensidade
que ela passou rapidamente a mo nos olhos, limpando as ltimas lgrimas. Sabia que devia estar com o rosto inchado e desfigurado; ainda por cima, seus lbios tremiam
incontrolavelmente.
Ele continuou quieto, e o silncio comeou a pesar-lhe insuportavelmente. Arriscou, num fio de voz:
- Eu sinto muito, a culpa foi minha... eu devia ter imaginado o que voc queria de mim, e por favor, desculpe-me.
- No h nada para desculpar, Octavia. Simplesmente, compreendi mal o que se passava com voc. Talvez, pela primeira vez na vida, tenha cometido um erro de julgamento,
e s eu sou o culpado disso.
- Ento, voc no quer que eu v embora?
- No, no quero. Ficar aqui at eu decidir o que posso fazer com voc.
- Ainda est muito zangado comigo?
- No com voc, mas com seu irmo e comigo mesmo.
Ela sentiu que um enorme peso lhe era tirado dos ombros.
No pde resistir  vontade de fazer uma pergunta que lhe queimava a garganta:
- Voc... no me ama mais?
- Amo, Octavia. Mas preciso ser franco e direto, como voc foi comigo. A vida que levo  por demais complicada no momento, alm de perigosa. Isso torna impossvel
a ideia de casamento para mim.
- Mas voc fingiu que era meu marido!
Era uma observao to infantil e ingnua que ele finalmente conseguiu sorrir.
- Foi para salvar minha vida.  muito diferente, no acha?
Levantou-se e disse em tom carinhoso, mas firme:
- Agora deite-se e durma. Amanh trataremos disso com mais calma. Preciso pensar no assunto e achar a melhor soluo para ns dois.

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Beijou-a de leve na testa e colocou-a na cama, ajeitando o lenol. Enquanto baixava o mosquiteiro, prosseguiu em tom impessoal:
- Pense no que sentiu quando viu as pirmides e me beijou perto da Esfinge...
- Ento s posso pensar em quanto o amo! - respondeu ela, num cicio.
Falara to baixinho que estava certa de no ter sido ouvida. Kane apagou as velas e saiu, fechando a porta de mansinho.

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CAPTULO VI

Octavia chorara at a exausto naquela noite. De manh, quando Hassan entrou com o desjejum, seus olhos estavam inchados, e a cabea, pesada. Contudo, para seu prprio
espanto, apesar da tristeza, comeu com apetite. O caf forte e quente, acabou por reanim-la um pouco. No tirava Kane da cabea; estaria ele pensando nela tambm?
Que teria planejado para ambos?
Mais tarde Hassan voltou para buscar a bandeja e comentou, com o sorriso alvo e brilhante de sempre:
- Master saiu, s volta de tarde.
- Ento ele no vem almoar?
- No, volta s de tarde.
Grande foi o desapontamento de Octavia. Necessitava da presena de Kane naquele dia mais do que nunca; durante a noite, lutara contra a tentao de correr para seu
quarto, de dizer-lhe que o amava, que queria ser dele, que no se importava com mais nada, s com ele.
No sabia como conseguira resistir; talvez o cansao a tivesse ajudado a vencer a tremenda batalha que travava consigo mesma. Depois daqueles beijos trocados ao
luar,  sombra da Esfinge, Kane arrebatara-lhe a prpria vida. E aquela sensao nova e maravilhosa que experimentara fora-se junto, tal como viera.
Ficou na cama por longo tempo, sentindo-se tristemente vazia, sem poder pensar em nada. Pouco a pouco, convenceu-se de que estava sendo ridcula. De que adiantava
ficar assim?
"As mulheres esto sempre chorando para conseguir o que querem", dissera seu pai certa vez. "Os homens gostam de companhias alegres, que saibam faz-los rir e esquecer
as preocupaes do trabalho!"
Falara com amargura e irritao, provavelmente referindo-se a um de seus inmeros "casos". S mais tarde, j quase moa, Octavia percebera que o pai era constantemente
assediado por

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mulheres. Recebia pilhas e pilhas de cartas femininas; s vezes atirava-as fora sem abri-las.
Lembrou-se de como ficara chocada com as histrias que Tony contava sobre ele. Escolhia uma amante, vivia com ela durante algum tempo e depois dispensava-a como
a uma folha de papel usado. Nunca levara nenhuma ao castelo, provavelmente por causa de Octavia, mas quando Tony ia a Londres no se dava ao trabalho de escond-las
do filho.
Tony costumava contar que elas choravam e se descabelavam quando eram "despedidas", mas lorde Birkenhall, uma vez decidido, tratava-as com fria indiferena.
Lembrando-se de tudo isso, Octavia disse para si mesma que teria de ir embora para sempre. Sabia que era um estorvo na vida de Kane, mesmo que ele afirmasse o contrrio.
Seria muito difcil fingir alegria a seu lado, sabendo que seu amor no era correspondido.
"Mas como  possvel ter-me beijado daquele modo e no me amar?", perguntava-se, agoniada. Era uma pergunta que todas as mulheres do mundo se faziam desde tempos
imemoriais - e para a qual no havia resposta.
Para Octavia, seria um sacrifcio doloroso separar-se de Kane; pior seria ficar e sofrer as torturas do inferno, amando-o perdidamente e ainda assim no podendo
fazer o que ele queria. Sabia que jamais poderia ser igual s amantes do pai, mesmo que o quisesse; sua educao fora baseada em princpios solidamente religiosos,
herana de sua me.
Priory havia sido, h mais tempo, um convento. Quando o primeiro lorde Birkenhall ocupara o castelo, os monges construram uma pequena capela na aldeia, antes de
partirem. Era a essa capelinha secular que Octavia ia todos os domingos, mesmo tendo de caminhar muitos quilmetros. Rezava fervorosamente para o pai voltar a Priory,
a fim de que os trs pudessem novamente formar um lar feliz e igual ao das outras famlias.
"Talvez um dia eu tenha filhos. E ento, como poderia ser feliz sabendo que tinha feito coisas das quais me envergonharia?"
Sim, no havia outra sada. Deixaria Kane e voltaria  Inglaterra. S de pensar na longa e triste jornada, seus olhos marejaram-se. Sequer sabia como comear; no
fazia ideia dos horrios de trens ou navios.

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"Que vou fazer, meu Deus?", indagava-se, com o corao cheio de tristeza. Somente Kane poderia ajud-la, e isso deixava-a humilhada.
Finalmente levantou-se e vestiu-se vagarosamente, esforando-se para no chorar mais.
Na hora do almoo, sentou-se solitria na imensa sala, mal conseguindo provar um dos pratos, embora a comida estivesse deliciosa.
Depois voltou para a varanda florida, onde passara mgicos momentos de felicidade com Kane. Onde estaria ele? Provavelmente deixara-a sozinha de propsito, pois
devia estar ainda muito zangado.
Tentou ler, em vo. As letras embaralhavam-se e no formavam sentido em sua cabea.
Hassan trouxe-lhe alguns jornais, depositando-os na mesa.
- Jornais ingleses, lady. So de poucos dias atrs, bem novos!
- Como conseguem receb-los em to pouco tempo? admirou-se Octavia.
- Lorde Cromer arranja. Lorde Cromer pode tudo! - respondeu orgulhosamente Hassan.
Sem muita vontade, Octavia passou Distraidamente a vista nas manchetes. Pareciam todas iguais; tratavam, naturalmente, do Jubileu de Diamante da Rainha, que seria
comemorado no ano seguinte. Outras falavam dos recentes problemas da ndia, mas Octavia no se interessou por nada disso. Contudo, resolveu procurar melhor. Talvez
achasse alguma nota sobre a morte do pai.
De repente, uma das manchetes saltou-lhe  vista:
"FANTSTICO ACHADO NUM VELHO CONVENTO DE KENT".
Prendeu a respirao, alerta. Kent era a cidade onde ficava Priory! Leu o artigo avidamente:
"Depois de ler nossa reportagem sobre o falecimento do Quarto lorde Birkenhall, antiqurios dirigiram-se a seu castelo, na esperana de ali encontrar alguma relquia
do passado.

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Outrora, o castelo fora um convento, cujo prior era conhecido amante das artes.
Tiveram sorte, pois entre os objetos da famlia encontrara um retrato a leo pintado por Holbein, de grande interesse para os colecionadores. Ningum sabia que a
pintura era de Holbein, e talvez o velho quadro passasse despercebido de todos, no fosse a pesada moldura. Riquissimamente trabalhada a cinzel, descobriu-se que
era de ouro macio!
A princpio julgou-se que o retratado era o velho general Birke, o mesmo que recebera o convento das mos do prprio rei Henrique VIII, como recompensa por t-lo
ajudado na Grande Extino de Mosteiros Catlicos. Sabe-se agora que o retrato  do ltimo prior que ali viveu. Holbein, efetivamente. estivera certa vez hospedado
no convento, e assim, a autenticidade do quadro ficou comprovada.
Acredita-se que o prior mandou confeccionar a preciosa moldura como forma de esconder seus tesouros antes de ser expulso de Priory House. O ouro foi coberto de fina
camada de esmalte escuro, a fim de disfarar o brilho.
Segundo as leis vigentes, esse tesouro pertence ao herdeiro do quarto lorde Birkenhall, Anthony Birke - agora o quinto lorde Birkenhall. Aps inmeras buscas, apurou-se
que o jovem viajou com sua irm para o exterior, sem deixar qualquer notcia. No momento, os advogados da famlia empreendem esforos para encontr-los, a fim de
participar-lhes a sensacional e milionria descoberta."
Octavia releu duas vezes o artigo, para se certificar de que havia compreendido bem. Estava rica! Seus olhos ficaram parados, fixos no infinito. Agora Tony poderia
voltar para casa. restaurar o velho castelo e viver em paz para o resto da vida Poderia at se casar com Virginia, mas no por causa do dinheiro, e sim por amor.
Ainda sem acreditar no presente inesperado que cara do cu, Octavia tombou de joelhos em meio s flores coloridas da varanda. - Obrigada, meu Deus, por ter-me escutado!
- murmurou Teria de achar um meio de encontrar Tony, custasse o que custasse, mas como? A resposta surgiu imediatamente: Kane!

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Ele daria um jeito de localizar o iate de Virginia. Depois, o resto seria fcil.
Toda a tristeza que a abatera desde a noite anterior diminuiu consideravelmente, embora no passasse de todo. Disps-se a esperar Kane, e, mais animada, pegou seu
romance.
A tarde desceu com seu manto cor-de-rosa e Octavia comeou a ficar nervosa. "Master vem de tarde", dissera Hassan. Perscrutou o horizonte, j tinto de vermelho.
Logo mais seria noite; e se alguma coisa tivesse acontecido com Kane? Incapaz de permanecer parada, atravessou a varanda e foi passear um pouco no jardim. Nesse
momento, Hassan veio procur-la.
- Master mandou aviso, lady!
- Que aviso? - perguntou, com medo.
- Ele pede desculpa, est atrasado. Muito, muito ocupado.
- Octavia suspirou de alvio. Queria fazer mais perguntas, mas
sabia que seria intil. Hassan tinha o hbito de fazer longas pausas entre uma frase e outra.
- Master diz que tem festa grande hoje. Lady deve ficar pronta s sete horas, ele diz. Lady deve usar vestido bonito, Master manda.
Se por um lado Octavia se alegrou, por outro sentiu-se desanimada. No haveria tempo para conversar com Kane sobre Tony, como planejara. Pretendia contar-lhe toda
a sua vida, mas isso exigiria tempo. "Bem, pacincia. Fica para amanh", pensou. "Por ora, tenho de me arrumar para a tal festa."
Sua intuio lhe disse que a festa fazia parte de seu trabalho; sendo assim, o convite no era indcio de que Kane queria sua companhia, e sim de que precisava dela
- o que era muito diferente. Certamente, teria de passar novamente por mulher de Kane. Mesmo assim, queria fazer jus ao salrio, e decidiu subir imediatamente para
comear a preparar-se.
Diante do armrio, hesitou, atrada por um vestido de legtima renda chantilly branca. Parecia mais um vestido de noivado, o que era no mnimo inoportuno, depois
do que acontecera na vspera. Kane jamais seria seu noivo.
Contudo, no havia outro to rico como aquele, e as ordens haviam sido bem claras.
Demorou-se o mais que pde no banho, tratando de relaxar. Depois passou um bom tempo arranjando o penteado, copiando-o fielmente de uma revista francesa. A filha
de Hassan ajudou-a

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a apertar bem o espartilho, de modo a parecer que a sua cintura se quebraria a um simples sopro de vento.
Quando acabou de se vestir, j eram sete horas. E Kane no havia chegado! Talvez estivesse arrependido de t-la convidado Talvez levasse outra moa, menos ingnua
e mais vivida Talvez.
O rudo da carruagem parando em frente  porta cortou seus temores. com o corao disparado, louca de vontade de voar para os braos de Kane, ficou perto da porta
para ouvir os passos queridos. Ouviu-o subir e chamar Hassan, enquanto  porta de seu quarto batia com estrpido, denunciando pressa e impacincia.
Resolveu caprichar um pouco mais no penteado, uma vez que teria tempo para isso. Finalmente satisfeita, parou diante do grande espelho. No queria que Kane encontrasse
uma s falha, por mnima que fosse.
O vestido era simplesmente sensacional. A delicada renda juntava-se em pequenos tufos nos ombros, debruados de cetim branco. O decote, bastante ousado e feminino,
era todo ornado de diamante, minsculas pedrinhas que brilhavam como verdadeiros diamantes. As mesmas pedrinhas cascateavam vestido abaixo, formando delicados desenhos
em torno das rosas de cetim que barravam toda a saia, entremeada de tufos iguais aos do ombro.
Um cinto de cetim bordado em diamante realava-lhe a fina cintura, arrematado por um grande lao cujas pontas desciam at  barra e rebrilhavam intensamente ao menor
movimento que fizesse.
O efeito final era deslumbrante, e transformava Octavia numa estrela cintilante.
Completando a toalete, envolveu-se num longo xale rendado que lhe cobriu a cabea e os ombros. Mas pensou melhor e preferiu descer com o xale nas mos. Queria que
Kane a visse decotada e cintilante; sabia que estava bonita, e seu maior desejo era que ele a admirasse.
Desceu devagar, ligeiramente envergonhada de sua vaidade, mas sabendo que esse era um pecadilho de pouca importncia Afinal, queria apenas impressionar o homem que
amava.
Depois que Hassan acendeu as lmpadas de azeite, colocou-se de p sob uma delas, a fim de que a luz incidisse sobre o vestido

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diamante, irisando-o. O pobre Hassan ficou estatelado diante dela, de olhos esbugalhados.
- Lady no  mulher. Lady  fada! Master vai ficar impressionado!
Todavia, quando Kane entrou, quem ficou impressionada foi Octavia. Ele possua a rara virtude de saber ser elegante e simples ao mesmo tempo. Sua elegncia vinha
de dentro para fora; mesmo quando se fantasiara de muulmano, seu porte continuara o mesmo, digno e altivo. Sua longa casaca de veludo negro era simples e bem-talhada;
no peito luzia uma legio de medalhas.
Esquecida da pose cuidadosamente ensaiada, Octavia abafou uma exclamao ao
v-lo, penosamente consciente do amor que crescia dentro dela em ondas avassaladoras. Lutando desesperadamente contra o impulso de correr para seus braos, sorriu
timidamente, balbuciando um "boa-noite" confuso.
Mas ele parecia preocupado, e disse depois de retribuir o cumprimento:
- Seu trabalho hoje ser muito importante. No houve tempo para avis-la antes, mas vamos jantar com lorde Cromer.
 absolutamente essencial que voc seja apresentada como minha mulher e aja com toda a naturalidade.
Seu olhar percorreu a figura encantadora, enquanto acrescentava:
- Alis, uma belssima mulher, de quem tenho muito orgulho. Somos recm-casados e estamos ainda em lua-de-mel, est compreendendo?
Lembrando-se do que Kane dissera sobre ser impossvel pensar em casamento, Octavia fixou os olhos obstinadamente numa grande cruz que pendia do peito de Kane.
- Mas, ateno, no seremos apresentados como o casal Kane Gordon. Usaremos outro nome, lorde e lady Stratheagle. Para todos os efeitos, principalmente para o convidado
de honra, acabamos de chegar ao Egito. Guardou seu nome?
- Guardei: e quem  o convidado de honra?
- Um homem chamado Abul Pasha. Lorde Cromer vai oferecer o jantar em sua homenagem.
Instintivamente Octavia pegou alguma coisa no ar.
- Abul Pasha. - repetiu. -  o homem de quem voc

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suspeita, no ? O tal que pretende roubar o' tesouro que voc achou?
- Exatamente. Voc  mesmo uma pessoa arguta. Sim,  dele que suspeito, mas lembre-se de que no temos nenhuma prova!
- E ele no sabe quem  voc?
- Abul Pasha, se for quem penso, sabe que precisa destruir Kane Gordon.  por isso que teremos de nos apresentar com outro nome.
- Mas. mas pode ser muito perigoso, Kane!
- Nem tanto. Lembre-se de que estaremos sob o teto de lorde Cromer. Por outro lado, ele tambm ser muito bem protegido; cuidei de todos os detalhes durante o dia.
- Acha que lorde Cromer agiu certo, convidando esse homem to perigoso?
- Ele no age sem pensar, Octavia. Temos esperana de que Abul Pasha acabe se traindo ou dando-nos uma pista. Por isso, quero que fique alerta o tempo todo, para
depois fazer um relatrio de tudo o que viu e ouviu.
- - Estou aqui para ajud-lo, mas tenho medo Por voc.
Kane sorriu, e Octavia achou que a sala se iluminara de
repente.
- Vamos, estamos atrasados. Tenha muito cuidado com cada palavra que disser. Dizem que as paredes tm ouvidos mas aqui no Egito at o ar tem ouvidos.
Ajudada por Kane, ela se envolveu no magnfico xale, cobrindo a cabea e atirando as pontas para trs. Por um momento fugaz, julgou que ele ia abra-la; mas nada
aconteceu.
- A carruagem est  nossa espera. Sorte que no  longe daqui.
J rodavam h alguns minutos quando Kane pegou a mo enluvada de Octavia, apertando-a carinhosamente.
- Fiquei aborrecido por deix-la sozinha o dia todo, mas estive muito ocupado. Desculpe, sim?
- Eu, tive medo que voc estivesse zangado comigo.
- No, zangado no, apenas preocupado. Hoje no posso pensar em ns dois, mas somente na segurana de lorde Cromer.
- Tem medo de que ele seja assassinado, em sua prpria casa? - perguntou, horrorizada.
- No, isso no. Nem mesmo sabemos se Abul Pasha 

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quem procuramos. Entretanto, h indcios de que estamos no caminho certo. O pior  que no encontramos nenhum vestgio de Manton.
Kane falava to baixo que Octavia mal escutava o que ele dizia. Sabia que ele tomava todas as precaues para no ser ouvido, embora estivessem numa carruagem fechada,
bem separados dos cocheiros.
- Ento sou lady Stratheagle! - disse, em tom alegre.
-  um nome que cai em voc como uma luva.
Ela imaginou que qualquer nome, desde que fosse para ser sua esposa, soaria a seus ouvidos como msica dos anjos. Mas ele no tinha inteno nenhuma de
torn-la sua mulher de verdade, e sim s para manter aparncias. Olhou-o furtivamente e notou que sua aparncia despreocupada escondia forte tenso.
Sim, havia algo de ameaador no ar fresco da noite.
Se Octavia ficou admirada com a casa de lorde Cromer, mais surpresa ficou quando o conheceu. Kane no explicara que o homem mais poderoso do Egito morava num discreto
e simples edifcio que outrora fora o Consulado Britnico.
Era uma construo slida, com altos pilares e magnficas varandas, mobiliada com discrio e sobriedade.
Esperava que lorde Cromer fosse alto e imponente, talvez at mesmo um pouquinho arrogante, como um tpico ingls. No entanto, achava-se diante de um risonho velhote
atarracado, cujos cabelos brancos e curtos destoavam do bigode negro. Por trs de culos de aro de ouro, os olhinhos vivos no paravam quietos.
Sensvel como era, no entanto, Octavia reconheceu irresistvel carisma, aliado a uma personalidade enrgica, nesse homem pequenino. Enquanto conversavam, os olhos
vivos no perdiam um nico movimento das pessoas, e Octavia entendeu a razo de Kane admir-lo e respeit-lo como ao verdadeiro rei do Egito.
 Lady Cromer recebeu-os com calorosa afeio na grande sala enfeitada de belos arranjos florais. Mais tarde Octavia soube que lady Cromer adorava flores e mantinha
belas estufas, das quais cuidava com carinho e devoo.
Havia muita gente, e,  medida que era apresentada, Octavia

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notou- que todos eram oficiais de alta patente do exrcito ingls, e mais velhos que Kane, exceto dois ajudantes de campo. Todos tratavam Kane com naturalidade,
chamando-o de lorde Stratheagle.
Uma das senhoras comeou a conversar banalidades com Octavia, tecendo comentrios sobre roupas, festas e bordados.
Dez minutos depois, como que para demonstrar sua importncia, chegou Abul Pasha, numa imponente carruagem. Primeiro desceram dois criados de longos casacos brancos
debruados de dourado; na cabea ostentavam turbantes verdes, como verdes tambm eram as faixas que tinham em volta da cintura. Os criados de lorde Cromer usavam
uniformes iguais, porm de faixa e turbante vermelhos. Octavia sabia que essa roupa era prerrogativas das embaixadas inglesas; por que ento Abul Pasha copiara esse
costume ingls? Lembrou-se de que, para os orientais, o verde era quase sagrado. O turbante verde era uma indicao de que seu portador j visitara Meca. Intrigada,
virou-se para comentar o fato com Kane.
Mas ele conversava com um velho general que ostentava no peito um grande nmero de condecoraes. Octavia ouviu algum gritar em voz alta:
- Sua Excelncia Abul Pasha!
Quando o homem moreno e sorridente entrou, todos fizeram silncio. Vestia uma bela tnica bordada com fios de prata.
Lorde e lady Cromer adiantaram-se, recebendo-o com cordialidade. O dono da casa comeou as apresentaes, detendo-se diante de cada convidado, a quem Abul Pasha
dirigia breves palavras. Antes mesmo de chegar sua vez, Octavia teve a vvida impresso de que Abul Pasha era um homem mau. Aquele sorriso fingidamente humilde transmitia-lhe
vibraes malignas. De imediato, teve certeza de que as suspeitas de Kane estavam corretas.
Lorde Cromer aproximou-se.
- Agora quero que Sua Excelncia conhea um casal muito amigo que acaba de chegar ao Egito para sua lua-de-mel. Lorde e lady Stratheagle.
Abul Pasha estendeu a mo e Octavia conteve-se para no estremecer. Parecia-lhe ter tocado uma serpente. Abul Pasha inclinou-se diante de Kane.
- Espero, milorde, que goste de nosso humilde pas.

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- Ns tambm - respondeu Kane jovialmente. - Embora tenhamos um pouco de medo do calor que faz no Cairo. Como sabe, ns, ingleses, no estamos acostumados a este
clima.
- No far calor nas prximas duas semanas. Estaro seguros at l - respondeu Abul Pasha, com um brilho estranho nos olhos muito negros.
Quando ele e lorde Cromer se afastaram, Octavia teve mais do que certeza de que fora ele quem mandara aqueles dois assassinos atrs de Kane. Mas sabia que ningum
poderia provar nada, e, cheia de raiva, pensou que ele prosseguiria impunemente com seus diablicos planos. E talvez no falhasse, como falhara Arabi Pasha.
Mais tarde, depois das tediosas apresentaes, o jantar foi anunciado. Todos se encaminharam para a enorme mesa, onde criados de branco e vermelho esperavam, respeitosamente
postados atrs de cada uma das cadeiras.
Para espanto de Octavia, atrs da cadeira de Abul Pasha no havia um, mas dois criados, ambos de faixa e turbantes verdes. Os Cromer no deram mostras de ter notado
o fato, mas Octavia achou que aquilo era um insulto aos donos da casa e tambm a todos os ingleses ali presentes. Que ridcula mostra de ostentao!
Destinaram-lhe o lugar  esquerda de lorde Cromer, enquanto Abul Pasha sentou-se  direita dele. Kane ficou do outro lado do egpcio, o que deprimiu Octavia. As
poucas mulheres presentes espalhavam-se entre os homens como flores; certamente seus lugares haviam sido escolhidos estrategicamente, a fim de amenizar o ambiente
austero e masculino.
Estava contente com o diamante de seu vestido e com a rosa branca que ornava seu penteado; de fato, detectara mais de um olhar invejoso das elegantes convidadas.
Lorde Cromer logo iniciou uma conversao inteligente e viva com ela e em pouco tempo os dois riam amigavelmente, tagarelando sobre as pirmides, o progresso da
represa de Assu e outros assuntos interessantes.
A certa altura, Octavia ouviu Kane contar qualquer histria para Abul Pasha e notou que este ria, mas no com os olhos. Ambos desempenhavam muito bem seus papis;
eram inimigos figadais, mas quem os visse diria que eram companheiros fraternais que no se viam h tempos.

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Lorde Cromer, gentil e atencioso, no lhe fez perguntas que pudessem
embara-la, sinal de que sabia muito bem a pequena farsa que ela e Kane encenavam. Contudo, a conversa que se desenrolava entre Kane e Abul Pasha comeava a incomod-la.
Gostaria de ir preveni-lo para que tomasse muito cuidado com aquele chacal do deserto.
Chacal, serpente, escorpio. eram esses os adjetivos que ela encontrava para Abul Pasha. Estremeceu, arrepiada. Imediatamente o general que estava sentado a seu
lado mostrou-se preocupado:
- Est com frio, lady Stratheagle? Talvez os punkahs estejam fazendo muito vento. Se for isso, posso dar um jeito e...
- No, general, obrigada! - respondeu Octavia, com seu mais cativante sorriso. - Como poderia sentir frio num pas to quente e acolhedor como este?
- Ah, vejo que j comea a gostar daqui. Isso  muito bom!
- Sim,  verdade. Sinto que moraria no Egito com muito prazer, se fosse preciso.
A conversa prosseguiu nesse tom, o que lhe permitia prestar ateno em Kane, que continuava s voltas com Abul Pasha, cujos olhos perversos a atraam como im, forando-a
a cuidar-se para no estremecer novamente.
O jantar estava chegando ao fim. Lady Cromer levantou-se e convidou as senhoras para acompanh-la, enquanto os homens permaneceram  mesa, como era costume no pas.
- Lady Stratheagle, gostaria de subir para retocar o penteado? - perguntou a anfitri com um sorriso encantador. - vou aproveitar para mostrar algumas orqudeas
que acabo de receber da frica.
- Gostaria muito, milady.
- Ento vamos. Ainda esto no meu quarto; gosto de tratar delas pessoalmente, at se aclimatarem bem.
Octavia ficou pasma com a beleza extica das orqudeas.
Na verdade, nunca havia visto uma, mas tudo o que lady Cromer queria era ouvir elogios - e isso foi fcil, devido ao genuno espanto de Octavia ao ver as belssimas
flores.
As mulheres tagarelavam e riam diante de grandes espelhos de cristal. Octavia juntou-se a elas com prazer, achando que, afinal de contas, no era to difcil conviver
com pessoas da alta sociedade. Quando elas desceram, Octavia deixou-se ficar

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para ajeitar a rosa que tinha nos cabelos. Ao procurar a bolsa, lembrou-se de t-la deixado no quarto de lady Cromer.
Voltou depressa pelo corredor e j estava diante do quarto quando a porta se abriu e de l saiu um criado. Ao v-la, parou, indeciso. Curvou-se profundamente, to
profundamente que ela chegou a estranhar. Ento percebeu que ele usava turbante verde. Que fazia um criado de Abul Pasha no quarto dos Cromer?
Meio curvado ainda, o homem retirou-se depressa, o que aumentou sua desconfiana. Acompanhou-o com o olhar e teve tempo de ver que ele carregava um pequeno objeto
na mo. To logo desapareceu no fundo do corredor, Octavia, petrificada de terror, lembrou-se de ter visto por breves instantes uma cicatriz no rosto escuro. Por
isso  que ele se curvara tanto! Ao mesmo tempo adivinhou que objeto escondia na mo.
Quase sufocada, tentou ordenar seus pensamentos, encostando-se  parede para tomar flego. A enormidade de sua descoberta deixara-a sem ao por alguns instantes.
Aprumou-se, engoliu em seco e entrou no quarto de lady Cromer; achou sua pequena bolsa e desceu a escada com naturalidade. As mulheres encontravam-se reunidas numa
saleta, e Octavia foi explicar a lady Cromer a razo de sua demora. A boa senhora deu uma risada argentina quando soube da bolsa.
- A bolsa  to bonita que at tenho pena de no t-la deixado para mim! - brincou.
- E combina perfeitamente com o vestido, lady Stratheagle - falou outra senhora. - Alis, ele causou-nos inveja, to bonito e bem-feito . Comprou-o em Paris?
- No, aqui mesmo. Na verdade, foi meu marido quem o comprou.
A palavra saiu naturalmente, mas provocou-lhe uma pontada no peito. Kane, seu marido! Como gostaria de no estar mentindo!
Conseguiu mostrar-se descontrada e to tagarela como as outras, no traindo a aflio que lhe corroa a alma.
Pouco depois lorde Cromer entrou, acompanhado dos outros homens.
Sorrindo para um, parando para conversar com outro, Octavia foi-se insinuando devagarinho para perto de Kane, que

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conversava com um ajudante de campo do outro lado da sala, Ao alcan-lo, armou um sorriso coquete.
- Desculpe, querido, mas imagine que vim sem leno! que distrao imperdovel a minha! Pode emprestar-me o seu?
Kane entendeu que Octavia queria falar-lhe. Enquanto procurava no bolso, interps-se entre ela e o oficial, com naturalidade e entregou-lhe o leno.
- Obrigada, querido - disse ela, sorrindo. Levou o leno ao rosto e sussurrou por trs:
- Nosso homem do trem acaba de pr um escorpio no quarto dele.
Depois de limpar a testa com o leno, virou-se para o jovem oficial, que, evidentemente, estava encantado com a beleza de Octavia, e fez um arzinho malicioso.
- As mulheres esto sempre esquecendo tudo, no ?
E, sem esperar resposta, virou-se para Kane. Sabia que agora ele precisava agir depressa.
- Bem, querido, vou ficar com seu leno. Espero que no precise dele! Agora, se me do licena, lady Cromer est  minha espera.
Afastou-se devagarinho, parando de vez em quando para trocar cumprimentos. com o canto dos olhos percebeu que Kane e o ajudante de campo j haviam desaparecido da
sala. S ento uma ideia aterradora atravessou-lhe o crebro. E se Kane fosse picado pelo escorpio? Ele dissera que esses bichinhos moviam-se com a rapidez de um
raio e sua picada era quase sempre fatal.
Consolou-se ante a lembrana de que Kane sabia muito bem o perigo que corria. Ele seria cuidadoso, com certeza. Surpreendida, imaginou que, se isso tivesse se passado
h poucos dias, ela no saberia o que era a pequena caixa que o assassino levava na mo. Lembrou-se de que, uma vez, sua me lhe dissera:
"Nada  perdido ou intil neste mundo. Aprendemos algo que julgamos sem importncia, para mais tarde perceber que essa coisa foi uma pequena pea do grande quebra-cabea
da vida, uma pea muitas vezes decisiva".
E fora Exatamente isso que sucedera! Quando encontrara o homem de cicatriz, adivinhara instantaneamente o que ele fizera, porque reconhecera a caixinha usada para
guardar escorpies.

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Muito embora a razo lhe afirmasse que Kane seria cuidadoso, seu corpo inteiro estava tenso como uma corda de violo. Por trs do leque, seus lbios murmuravam preces
desencontradas. Pouco depois lady Cromer chamou-a para conversar com Abul Pasha.
- Sua Excelncia diz que gostou imensamente de conversar com seu marido, e agora quer conhecer sua encantadora mulher. Sentem-se e fiquem  vontade; eu vou conversar
com lady Plywood.
Octavia sentou-se com a sensao de estar entrando num covil de serpentes.
- Por que escolheram o Egito para lua-de-mel? - perguntou Pasha em timo ingls.
- Sempre tive vontade de conhecer este pas. Acima de tudo, queria subir o Nilo de barco. Alis, li que Clepatra gostava desse passeio, se bem que naquele tempo
devia ser muito demorado! - gracejou ela, abanando-se vivamente.
- Que viagem seria demorada a seu lado?
Embora fosse um galanteio comum, Octavia no gostou de seu olhar lbrico e atrevido. Passou a conversar banalidades, mas com o canto dos olhos percebeu que muitos
guardas haviam-se postado de sentinela nas sadas.
- Sempre ouvi falar na beleza das mulheres inglesas - continuou Pasha -, e agora que a conheci, sei que meus informantes falavam a verdade.  uma linda mulher, milady.
Agora ele cortejava-a abertamente, mas Octavia no alterou seu tom cordial.
- Obrigada, estou envaidecida. Mas lembre-se de que as mulheres egpcias so famosas por sua beleza.
- Nenhuma chega a seus ps, milady.
Nesse momento Kane entrou, acompanhado de dois oficiais, que carregavam uma pistola na mo.
Pesado silncio caiu sobre a sala. Kane avanou para Abul Pasha, e, com voz clara e pausada, falou:
- Abul Pasha, em nome de Sua Majestade, a Rainha Vitria, Imperatriz da ndia, acuso-o de ter conspirado e tramado a morte de lorde Cromer, cnsul-geral da Gr-Bretanha!
Um murmrio abafado percorreu a sala, mas Abul Pasha no moveu um s msculo do rosto escuro. Kane continuou, em tom grave:

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- Seu criado acaba de confessar que, sob suas ordens, colocou um escorpio sob o travesseiro de lorde Cromer, com a ajuda de dois companheiros. Os trs esto presos
agora. Devo pedir-lhe que me acompanhe imediatamente. Ser mantido sob custdia at seu julgamento, e gozar de todas as regalias devidas por lei.
Quando terminou, cada convidado parecia ter-se transformado numa esttua de pedra. Lentamente, Abul Pasha levantou-se, ladeado pelos dois oficiais armados.
Nesse instante, rpido como um raio e antes que Kane pudesse impedi-lo, Pasha puxou um pequenino punhal e enterrou-o em seu prprio corao. Durante segundos interminveis
ficou ereto e firme, como se nada tivesse ocorrido. Apenas o cabo do punhal destoava de sua elegante tnica.
Antes que ele tombasse, os oficiais ampararam-no e levaram seu corpo para fora, enquanto Kane seguia atrs. Somente quando a porta se fechou  que os convidados
comearam a falar desordenadamente. Algumas mulheres gritaram, iniciando-se uma balbrdia na sala.
Mas lorde Cromer logo imps silncio. Levantou a mo num gesto de comando e esperou que todos se acalmassem. Em seguida caminhou para Octavia e tomou-lhe a branca
mo, que tremia imperceptivelmente.
- A senhora e seu marido portaram-se magnificamente. Quero que saiba que serei eternamente grato a ambos.
Bastante chocada, lady Cromer perguntou:
- Mas, querido, quem descobriu que haviam posto um escorpio em nosso quarto? S de pensar nisso fico toda trmula, apesar de o perigo j ter passado.
- Isso, minha cara, ser explicado por esta encantadora senhora. Eu mesmo no sei o que se passou.
Em meio ao silncio de expectativa e curiosidade, Octavia falou, com simplicidade:
- Quando fui procurar minha bolsa em seu quarto, milady, encontrei um criado de turbante verde saindo de l, e fiquei desconfiada.
- Era um dos servos de Abul Pasha! Mas como soube que ele havia escondido um escorpio debaixo do travesseiro?
- O homem procurava esconder uma caixinha, que logo

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"conheci. Era uma gaiolinha de escorpio, igual s que os antigos egpcios costumavam usar.
- Meu Deus! - murmurou lady Cromer.
- Quanto ao lugar em que foi colocado o escorpio, isso deve ter sido descoberto por meu marido.
Embaraadssima com o silncio de admirao de todos, baixou a cabea, sem saber o que fazer. Para seu alvio, Kane voltou  sala nesse momento.
Atravessou a sala e, sob o olhar de todos, envolveu-a carinhosamente pela cintura, fitando-a com olhos amorosos.
- No disse que voc seria meu anjo da guarda, querida? Sabia que no falharia!
- Abul Pasha est morto? - perguntou lorde Cromer.
- J estava antes de cair no cho, milorde. E agora, com sua permisso, quero levar minha mulher para casa. Ela j passou por muita tenso hoje.
- Isso  bem verdade! - acudiu lady Cromer. - Lady Stratheagle, devo-lhe a vida de meu marido, o que vale dizer que lhe devo minha prpria vida. Informarei pessoalmente
a Sua Majestade de seu magnfico trabalho em defesa da Coroa.
- Obrigada, milady - respondeu Octavia, num fio de voz. E Kane conduziu-a suavemente para fora, antes que fizessem mais perguntas.

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CAPTULO VII

Somente quando Kane abriu a portinhola da carruagem a fim de faz-la subir  que Octavia sentiu o cho fugir sob os ps. Tentou agarrar-se em Kane, mas as mos no
lhe obedeceram.
Vagamente consciente, percebeu que dois braos fortes e vigorosos a levantavam e ouviu a voz querida ordenar, em tom rpido:
- Para casa, imediatamente!
Kane acomodou-a delicadamente no banco macio e f-la encostar a cabea em seu ombro. Depois aproximou um pequeno frasco aberto de seu nariz.
- Inspire profundamente, Octavia.
Embora o cheiro fosse penetrante e desagradvel, ela obedeceu. A recuperao foi instantnea, e ela pde endireitar-se no assento, levemente envergonhada.
- Desculpe, Kane, eu... no quis ser melodramtica.
- Voc teve o cuidado de desmaiar longe da vista de todos. No se preocupe, ningum viu, exceto o cocheiro. At nisso soube portar-se bem, Octavia.
Tomou-lhe a mo, apertando-a firmemente entre as suas. Embora estivesse melhor, ela tinha a impresso de que a voz de Kane vinha de muito longe. Lutou contra a sensao
de novo desmaio iminente, sabendo que seria uma demonstrao de fraqueza. Mas ele novamente pareceu adivinhar:
- Se desmaiar outra vez, no tem importncia. Mas creio que no precisa, j que tudo se acabou. Voc foi simplesmente maravilhosa! Como pde perceber com tanta rapidez
a trama toda?
O corao de Octavia aqueceu-se com os elogios. Forou-se a falar claramente:
- Eu havia me esquecido completamente de uma coisa que, agora sei, era muito importante. Um daqueles dois homens que invadiram o quarto, em Alexandria, tinha uma
cicatriz...

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- Cicatriz. Ento seria fcil fazer uma busca discreta!
- Sim, ainda mais porque a marca era grande, em forma de lua crescente, logo abaixo do olho esquerdo.
- De fato, foi uma pena no ter-me contado esse detalhe antes. E como  que eu mesmo no reparei nisso?
Octavia detectou ligeiro despeito na voz de Kane, uma vez que havia sido mais observadora que ele! Sorriu francamente ante aquela demonstrao de orgulho masculino.
Mas Kane no estava aborrecido; ao contrrio, f-la recostar a cabea em seu ombro novamente, falando com doura:
- No  preciso falar mais, minha querida. S quero dizer que, praticamente sozinha, voc resolveu um problema que o exrcito inteiro no conseguiu resolver. Nem
mesmo lorde Cromer!
Comeou a beijar-lhe os cabelos dourados e macios. Enlevada, Octavia deixou-se embalar pelas carcias, lembrando-se do feixe de luar que inundara sua alma naquela
noite em que foram conhecer a Esfinge. Era uma sensao to maravilhosa e perfeita que no lhe dava a menor vontade de falar. S queria sentir as emanaes do corpo
vigoroso e quente do homem que adorava.
A distncia entre a casa dos Cromer e a de Kane era curta demais para Octavia, feliz e confortada juntinho dele. O dia todo ela passara mergulhada em tristeza, certa
de que havia perdido Kane. Agora ele estava a seu lado, carinhoso e meigo. Por quanto tempo, porm?
Quando chegaram, logo imaginou-se ligada a Kane para sempre, vivendo naquela casa onde se sentira to bem desde o primeiro dia. Mas quando ele abriu a portinhola
para descer, disse a si mesma que estava sonhando coisas impossveis. Devia ser realista e comear a pensar seriamente no futuro que teria de enfrentar - sem Kane.
Hassan acorreu pressuroso, enquanto Kane amparava Octavia com todo o cuidado, como se fosse um bibel de biscuit.
- A noite est muito abafada para entrarmos j. Por enquanto vamos ficar um pouquinho na varanda, que alis  bem mais atraente e fresca do que aqueles sales sufocantes,
cheios de gente aborrecida.
Deitou-a numa espreguiadeira e cobriu-lhe os ps com o xale rendado.
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- Pensei que no fosse aguentar aquela multido. Estava sufocando de calor, doido para voltar para casa, mas farejava uma tragdia no ar. Voc, com tato e sutileza,
acabou resolvendo todo o maldito quebra-cabea - e agora estamos aqui, sos e salvos.
Octavia enterneceu-se com seu tom carinhoso.
- Hassan, traga dois usques puros, por favor.
- J, Master - respondeu o fiel criado, contente de poder ajudar.
Kane sentou-se perto de Octavia e inclinou-se para ela, afagando-lhe a mo. A lua cheia espelhava de prata o jardim, como que querendo recordar-lhes a noite anterior
e os beijos trocados ao lado da Esfinge.
As lanternas acesas  volta da varanda cintilavam sobre os cabelos dourados de Octavia e produziam fascas em seu vestido, dando a impresso de que todas as estrelas
haviam descido do cu para enfeit-la de diamantes. Kane admirou-a longamente e murmurou:
- Sempre ouvi dizer que quando uma mulher  linda,  pouco inteligente- e
vice-versa. - Deu uma risada alegre, que soou como msica para ela. - Pois todos esto errados, pelo menos no que diz respeito a voc.
Ela sorriu, enleada.
- Foi um golpe de sorte. Se no tivesse esquecido minha bolsa, nada teria visto.
- Sim, mas ver  uma coisa, deduzir  outra. Como deduziu os planos de Pasha?
Escolhendo com cuidado as palavras, porque no queria parecer convencida, Octavia contou como havia sido convidada por lady Cromer para conhecer suas orqudeas.
Explicou que se lembrara de ter deixado a bolsa em seu quarto, e como voltara para l.
- Foi quando vi um homem saindo do quarto de lady Cromer. Ele me pareceu estranhamente agitado ao me encontrar; ao mesmo tempo, notei que seu turbante era verde.
Portanto, devia ser criado de Abul Pasha. Achei esquisito ele ter acesso aos aposentos de lorde Cromer.
- E com muita razo! - interveio Kane.
- Da ele se curvou para mim, como  costume aqui. Mas abaixou-se demais, dando a impresso de querer esconder o

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rosto. Nesse momento tambm notei que ele tinha alguma coisa na mo, um objeto que logo me pareceu familiar. - Fez uma pausa, tentando lembrar-se com exatido. -
O homem saiu correndo, quase fugindo. Acho que s nesse momento  que me lembrei de ter visto rapidamente a cicatriz de lua crescente em seu rosto.
- Interessante como o subconsciente trabalha! Voc nem se lembrava dessa cicatriz antes!
- Pois , nem pensei nela naquele dia em Alexandria, nem mesmo depois. S depois do ataque no trem  que a fisionomia do homem se desenhou em minha memria.
- Quanto susto voc passou, minha querida! Se eu a amasse como agora, no deixaria que me acompanhasse nessa aventura maluca. Por outro lado, foi bom, porque pude
conhec-la bem e sei que, sem voc, talvez no escapasse com vida.
Como era bom ouvir aquilo! O amor de Kane ainda existia, to vivo quanto no dia anterior! Octavia ansiava por ser beijada e acariciada por aquelas mos gentis que
agora repousavam sobre as suas.
Hassan chegou com as bebidas e Octavia fez uma careta com o cheiro do usque.
- Prefiro um copo de suco, Kane.
- Mais tarde mando servir-lhe um. Mas ter de beber este usque; imagine que  remdio. Pode at tapar o nariz, se quiser!
Octavia riu, alegremente.
- No, eu vou beber, s para mostrar que sou obediente. Mas no gosto de usque!
- Por mim, estou precisando muito de uma boa e forte bebida. Tambm tive maus momentos, minha querida. Depois que me passou seu recado, subi para o quarto de lorde
Cromer, rezando para que voc tivesse razo, pois isso seria uma prova irrefutvel de que Abul Pasha era realmente o homem que buscvamos h tanto tempo. Por outro
lado, podia ser apenas imaginao sua.
- Sabia que voc poderia pensar assim, mas no me preocupei com isso, porque tinha certeza do que vi. Alis, quando pedi seu leno, voc captou com rapidez que eu
precisava passar-lhe uma mensagem.
-  uma reao comum, num homem experiente como eu.

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Fui treinado para isso, mas voc... Voc nunca esteve em situao parecida e, no entanto, desempenhou to bem seu papel que at agora ainda estou espantado. Mal
posso acreditar que o pesadelo terminou!
- E eu no preciso mais ter medo, por voc, Kane.
Ele inclinou-se mais, com os olhos cheios de ternura. Trmula de expectativa, Octavia esperou pelo beijo por que tanto ansiava.
Ouviu-se o som de um galope muito prximo e ambos voltaram a cabea para a entrada. Montado num belo animal, um jovem oficial aproximou-se. Parou defronte  varanda
e descobriu-se respeitosamente, enquanto Kane descia os degraus para receb-lo.
Sem apear, o oficial anunciou com voz clara:
- Venho em nome do major para avis-lo que acabamos de encontrar seu assistente, o Dr. Manton.
- Ah! - exclamou Kane, sem esconder sua satisfao. - timo. Onde o encontraram? Provavelmente na casa de Abul Pasha, no ?
- Sim. Estava trancado no sto e preso com correntes. Tivemos de arrombar a porta.
- E como est ele?
- Fraqussimo! Deve ter ficado longo tempo sem comer, e, naturalmente, foi torturado.
- Muito?
- Abul Pasha sabia que no podia exagerar, seno correria
o risco de mat-lo. O Sr. Manton j est sendo medicado, e com certeza amanh estar muito melhor. O major pediu-me que viesse o mais depressa possvel, pois sabia
que o senhor estava preocupado.
- Transmita-lhe meus sinceros agradecimentos. Agora volte ao hospital e avise Manton de que irei visit-lo amanh cedo. Por enquanto, creio que  melhor deix-lo
descansar.
- Muito bem, sir. Ele estava realmente fatigado e mal podia falar.
O oficial bateu continncia e afastou-se a galope. Kane voltou esfregando as mos, parecendo dez anos mais moo.
- Bem, esta  realmente uma noite memorvel, minha Octavia! Agora acho que voc j pode ir, dormir. Hoje, pela primeira vez em muitos meses, tambm poderei descansar
tranquilo.

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Tirou o copo vazio das mos de Octavia e ajudou-a a levantar-se. Como ela esperava, segurou-a gentilmente pela cintura enquanto subiam as escadas lentamente.
- Eu, no queria ir para a cama agora. H tanta coisa para conversar ainda!
- Estou pensando em voc, querida. Seu dia foi pesado, e agora deve descansar. Mas se continuar a olhar-me desse modo, sou capaz de perder a cabea!
Falou em tom de suave repreenso, fitando-a com ternura. Octavia achou que os olhos dele j diziam tudo o que queria ouvir e dirigiu-se para o quarto, depois de
sorrir docemente.
Hassan deixara uma vela acesa ao lado da cama, e as cortinas puxadas, de modo que o luar jorrava no quarto. Pela milsima vez, Octavia lembrou-se da Esfinge, banhada
de luar, e parou diante da janela, admirando o cu estrelado, enquanto murmurava uma prece de agradecimento.
Mas seu sexto sentido avisou-a de que Kane viera atrs dela e estava ali, bem pertinho. Lentamente, virou-se.
com o corao disparado, ficou imvel e esperou-o. Ele aproximou-se e envolveu-a num doce abrao, como se estivesse com cime das estrelas.
Muito devagarinho, inclinou a cabea at seus lbios ficarem muito pertinho dos dela. Suspensa no ar como bolha de sabo, Octavia chamou-o baixinho.
- Kane...
Finalmente, a boca de Kane colou-se  dela. Beijou-a apaixonadamente,
apertando-a com fora, fazendo-a sentir a intensidade de seu desejo. Embora as carcias fossem ternas e exigentes, Octavia sentiu que havia diferena entre esses
beijos e os da vspera. Agora parecia que havia algo de muito especial por trs dos beijos, como se ela fosse uma jia preciosa.
Delirante de felicidade, Octavia lembrou-se do dia amargo que passara, agora to longnquo e distante. Kane levava-a para o paraso agora, um paraso onde novamente
estavam juntos e sozinhos. Como antes, Octavia sentiu-se transportada para um abismo de luar e paz, em companhia do dono de sua prpria vida.
Presa de xtase, murmurou o nome querido e abandonou seu corpo entre os braos de Kane. Atravs da fina renda do vestido, ele pde sentir o corao de Octavia batendo
descompassadamente

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e viu o quanto era amado. com infinito carinho, levantou-lhe o queixo e fitou-a.
- Eu amo voc, Octavia! Quero que me diga o mesmo. agora!
- Eu tambm te amo, Kane. Voc sabe que eu te amo!
Nesse momento, receou que ele lhe pedisse novamente para tornar-se sua amante naquela noite. Sabia que no teria coragem para recusar e estremeceu, entre excitada
e amedrontada. No devia t-lo deixado entrar no quarto, mas agora nada mais importava. Kane despertara-lhe uma sensao de desejo avassalador, o que era impossvel
resistir. Sim, seria dele, caso assim quisesse seu dono e senhor!
Gentilmente, Kane f-la levantar o rosto e falou com suavidade:
- Agora que no h mais perigo nenhum em minha vida, j posso fazer uma pergunta simples e direta - quando quer se casar comigo?
Os olhos azuis abriram-se muito, cheios de espanto.
- Voc, quer se casar comigo?
- Quero, minha vida! E no admito recusas! - sorriu ele.
Octavia deixou escapar um soluo que era quase um grito de alegria.
- Mas voc me disse que no podia se casar!
- Pensou que era porque eu no a queria? Minha bobinha, no percebeu que a razo era outra? Octavia, nunca desejei ningum com tanta intensidade! E nada neste mundo
tirar voc de mim!
Vendo que ela hesitava ainda, sem compreender, prosseguiu:
-  a mulher mais inteligente que j conheci, mas agora no est conseguindo raciocinar. Meu amor, ontem minha vida no valia mais do que uma piastra! Como poderia
pensar em casamento, se voc podia tornar-se uma linda viuvinha trs minutos depois de receber a aliana?
Octavia abafou uma exclamao assustada.
- Repito, se eu a amasse como agora, teria posto voc no primeiro navio para a Inglaterra. L voc poderia me esperar em segurana. Jamais a envolveria nessa trama
perigosa, que poderia ter sido fatal para um de ns.
Octavia acariciou-lhe a nuca e Kane fechou os olhos, deliciado com o toque suave e calmante.

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- Tive medo todo o tempo, Kane... Se alguma coisa lhe acontecesse, eu no viveria mais. Quando me beijou ontem, senti que passava toda a minha vida para voc.
- E a minha passou para voc, Octavia. Foi uma experincia maravilhosa, linda, que quero repetir agora.
E novamente a boca quente de Kane buscou a dela e Octavia entregou-se ao prazer de sentir sua alma unir-se  dele. Soube ento que, tanto quanto ela prpria, tambm
Kane tivera medo de perd-la. Amavam-se e desejavam-se igualmente, e esse pensamento foi um blsamo para seu corao.
Quando a respirao de ambos tornou-se mais apressada e a paixo ergueu-se, avassaladora, quase irresistvel, ela afastou-se um pouco, trmula e envergonhada. Escondeu
o rosto no ombro de Kane, assustada com a fora de seu instinto feminino.
Ele insistiu baixinho, com a voz estranhamente incerta:
- Repito a pergunta, meu amor. Quando quer ser minha mulher?
- J! Agora. amanh! - balbuciou ela, incoerentemente.
- Era isso o que eu queria ouvir! Ah, meu amor, como voc sabe se dar!
- Mas, voc nada sabe sobre mim! Nunca lhe contei nada de minha vida!
- Meu amor, quero saber de tudo sobre voc, mas por outra razo. Quero
conhec-la muito bem, para ter certeza de que sou dono de seu corpo e de seus pensamentos, eis a razo. Mas, independentemente da vida que levou at agora, a partir
de hoje voc  minha noiva adorada.
- Sua noiva! - repetiu, como se fosse a palavra mais linda que j ouvira.
- Ontem a Esfinge revelou-se para mim. J sei o que  o to falado enigma da Esfinge.
- E... o que ?
- To simples quanto a prpria vida. O segredo da Esfinge  que o verdadeiro amor  eterno, eterno como a vida. Por isso, minha Octavia, no importa o que acontea,
ns dois viveremos para sempre, em qualquer lugar do universo, mesmo depois da morte!
- Como  bonito o que me disse! Ento deve ter sido isso que senti ontem, s que no soube coloc-lo em palavras to bem quanto voc.

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Corou levemente e continuou:
- Sabe, s vezes penso que voc  inteligente demais para mim. Sou muito provinciana, pouco conheo da vida e tenho medo que voc se enjoe de minha ignorncia.
Kane riu alto, jogando a cabea para trs.
- Isso ser impossvel, por mais esforo que faa. Desde que conheci voc, experimentei um mundo de emoes diferentes - e garanto-lhe que tdio e aborrecimento
no esto includos nelas.
Abraou-a novamente, encantado com a graa quase adolescente de Octavia.
- Agora vamos viver num mundo de paz. Ainda me lembro de seu olhar quando entrei no seu quarto, em Alexandria. Havia insegurana e tristeza nele, minha pequena.
E medo, mas um medo diferente do que voc sentiu, por exemplo, no trem.
-  verdade. Eu estava com medo de ficar sozinha.
- Ainda no compreendo como seu irmo pde larg-la, sabendo que voc  to inocente!
Kane deu especial entonao  ltima palavra, fazendo-a lembrar-se do que ele lhe propusera na vspera. Instintivamente afastou-se dele, magoada.
Sim, Octavia, falei de propsito para voc se lembrar de ontem. Mas  preciso que me compreenda. Perdi totalmente a cabea com seus beijos! Sempre tive orgulho de
minha capacidade de conhecer as pessoas  primeira vista, de enxergar at ao fundo da alma de todas.
- Ento, como se enganou comigo? Justamente comigo?
- Para comeo de conversa, posso pr a culpa nas circunstncias em que a conheci. H de concordar comigo, no  comum encontrar-se uma moa pura e inocente sozinha
num hotel. e ainda por cima numa cidade como Alexandria. Mas no foi essa a verdadeira razo. Oua, Octavia, antes de lev-la  Esfinge, eu j sabia que estava apaixonado
por voc.
- Kane!
-  verdade, querida. Meu corao dizia que voc era pura e inexperiente, mas minha cabea recusava-se a acreditar. Estava to louco de desejo que me enganei a mim
mesmo e me convenci de que voc era uma pequena mundana. No, no fique zangada, querida. Quero que saiba como sou e como penso.
E, beijando-a docemente nos olhos, perguntou:

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- Voc me perdoa, no ?
- Como posso no perdoar? Eu te amo, Kane, e tudo o que quero  ser sua mulher.
- Voc me deseja, Octavia?
- Sim. muito! - respondeu, corando violentamente. Ele riu, divertido com a timidez dela. Encheu-a de beijos, deixando-a quase sufocada, enquanto murmurava:
- Jamais tenha vergonha de me desejar, Octavia. Porque eu sou o seu homem e voc  a minha mulher! Vamos nos casar amanh, em segredo, longe de tudo e de todos!
E, com os olhos brilhantes pela paixo novamente acesa, acrescentou:
- No posso esperar a hora de possuir voc, meu amor!
- Kane, se voc quiser, eu...
No pde terminar, mas ele, com sua alma-gmea, compreendeu instantaneamente.
- Agradeo a confiana que depositou em mim, desse modo espontneo, meu tesouro.
- E por que quer que seja em segredo nosso casamento?
- Hoje  noite, todos, inclusive lorde Cromer, pensavam que ramos realmente casados.
- Mas ento, eles no sabiam que seu nome era falso?
- Na verdade, Octavia, o nome no  falso. E ele ser seu tambm!
- Voc  lorde Stratheagle?
Ele riu novamente do genuno espanto de Octavia.
- J contei que precisei ir  Esccia porque meu pai havia morrido, lembra-se? E tambm que havia sido chamado s pressas para c, muito antes do que esperava.
- Sim, porque o Sr. Manton havia desaparecido.
- E tambm porque trabalhei muito como agente secreto enquanto servia no exrcito ingls. Lorde Cromer queria que eu investigasse especialmente algumas pessoas,
particularmente Abul Pasha. Para mim isso era fcil, porque aqui todos me conheciam como arquelogo, no como lorde Stratheagle. Esse  um nome conhecido; todos
saberiam imediatamente que eu era agente.
- Mas, afinal, voc  ou no  arquelogo?
- Sou.  o que mais gosto de fazer na vida, e quero que voc aprenda todos os segredos dessa profisso.
Os olhos de Octavia brilharam de felicidade.

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- Ento... posso acompanhar voc nos trabalhos de escavao?
-  evidente que sim. Vamos, juntos, encontrar muita coisa bonita por a. E mais: saiba que nenhum tesouro que encontrarmos ser comparvel a voc, por precioso
e rico que seja.
-  bom demais para ser verdade! - exclamou Octavia, louca de alegria. - Pensei que voc me quisesse apenas para a vida social e j estava conformada com isso, porque
aceito qualquer coisa para viver a seu lado. Mas confesso que no aprecio muito uma vida s de festas e bailes. E agora voc me d mais esse presente. Que maravilha,
Kane!
- Pois eu tambm receava que voc preferisse a vida social!
Riram-se os dois, bbados de felicidade.
- Ento voc  lorde Stratheagle...  bonito, mas prefiro me casar com Kane Gordon, arquelogo!
-  com ele mesmo que voc vai se casar. De qualquer modo, por razes de segurana, vou continuar no Egito como Kane Gordon.
- E eu serei a Sr. Gordon! Quantas vezes sonhei com isso, pensando que era um sonho impossvel!
- Quando formos  Inglaterra, voc ser lady Stratheagle. - e, se no me engano, voc achou que era um belo nome.
-  lindo! - sorriu ela, pendurando-se no pescoo de Kane. - Lindo! Lindo!
De repente, lembrou-se do irmo e seu rosto se ensombreceu. - Estou a ser egosta, falando s de ns. H uma coisa que eu gostaria que fizesse para mim, Kane.
- Pea, querida.
- Pode tentar encontrar Tony?
- Para contar sobre ns?
- Tambm, mas principalmente para contar sobre o que aconteceu em casa.
Kane mostrou-se ansioso.
- Que aconteceu? Alguma coisa a preocupa, meu amor?
- No, no! Ao contrrio, foi uma coisa muito boa. Mas confesso que tenho medo de contar por que Tony e eu fugimos para c. Voc no vai gostar. Estou confusa, Kane!
- Nada que voc tenha feito pode me chocar. Ainda assim, quero que abra seu coraozinho. Estou aqui para ajud-la.

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- Quanto mais o tempo passa, mais acho que agi mal - comeou Octavia, hesitante. - A verdade  que Tony e eu achamos que... no devamos assistir ao funeral de papai.
Tony disse que o melhor a fazer seria fugir, porque papai devia muito dinheiro.
- Antes de mais nada - atalhou Kane -, quem  seu pai?
- O quarto lorde Birkenhall.
- Aquele que morreu h um ms? - espantou-se Kane.
- Esse mesmo. Conheceu-o?
- Lgico que o conheci, ora essa! Lorde Birkenhall era charmoso, inteligente e brilhante.
- Sim, essa era. sempre foi a fama dele.
- Quando comecei a frequentar a sociedade, ele se tornou uma espcie de dolo para mim. Eu era um rapazola, e vivia tentando imit-lo. Acho que at invejava seu
pai! Mas... sempre pensei que fosse muito rico!
-  o que todos pensavam, mas na verdade ele gastava at o que j no tinha. As dvidas ficaram astronmicas, Kane! Por isso  que fugimos quando morreu. Tony dizia
que os credores cairiam sobre ns como abutres.
Ao ver o ar atnito de Kane, respirou fundo, nervosa.
- Creio que agimos mal... mas papai tinha largado totalmente o Castelo de Priory, mal se importando com as runas em que ele se transformou aos poucos. Passava a
vida em Londres, endividando-se cada vez mais.
O olhar de Octavia, sofrido e distante, dizia muito mais do que suas palavras. Kane falou com suavidade:
- Acho que voc sofreu muito com tudo isso.
Octavia deu um soluo e escondeu o rosto nas mos.
- Eu,  difcil explicar. "Kane, eu amava meu pai, ele era maravilhoso. Mas era horrvel ver nosso castelo naquele estado, as paredes trincadas, o telhado cheio
de goteiras, e... j no podamos mais ter empregados. s vezes nem tnhamos o que comer. Por favor, tente compreender nossa atitude. Sei que estvamos errados,
mas Tony no tinha como saldar aquela montanha de dvidas. Pelo menos, era o que ns dois pensvamos, mas agora tudo mudou!
- Mudou como?
Octavia apanhou o artigo recortado do jornal e entregou-o a ele.

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- Leia isto, assim compreender melhor.
Kane aproximou-se do candelabro para enxergar melhor, e leu o artigo atentamente. Octavia, de corao opresso, procurava nele sinais de crtica ou mesmo desdm pelo
fato de no ter ela ficado para enfrentar a luta dos credores. Mas Kane atirou o jornal no cho e sentou-se.
- Venha c, sente-se no meu colo. Assim est melhor! Ento seu irmo achou um tesouro, e eu achei o meu. Pouco me importa um quadro de Holbein com sua moldura de
ouro. Para mim voc  muito mais preciosa!
Comeou a beij-la, mas Octavia afastou um pouco o rosto, fitando-o timidamente.
- Voc manda procurar Tony? Acha que vai encontr-lo logo?
- Nada mais fcil, meu amor. Amanh mesmo ter notcias de seu irmo. Mas escute bem, quem vai a Priory tratar dos negcios  ele, ouviu? Voc fica comigo; no vou
deixar que v junto! Quero voc aqui, meu amor.
- No ficou decepcionado com... o que fiz?
- Ao contrrio, acho que foi muito sensato. Se estavam sem um tosto, como pensavam, no havia por que ficar e escutar um monte de desaforos, ainda por cima numa
hora to triste como aquela.
Acariciou-lhe o rosto e continuou:
- E voc nunca mais ter horas tristes. Palavra de um pobre e solitrio arquelogo, louco de amor!
Ela sorriu com a carinhosa brincadeira.
- Ento voc me compreendeu! Compreendeu por que fugi!
- Claro que compreendi, minha princesa. Mas antes de pensar em seu irmo, quero que pense em mim. Ter de tratar muito bem de seu marido, ouviu?
- Ora vejam s! Eu pensava que voc  que ia cuidar de mim! - provocou ela, maliciosa.
- Pode ter certeza disso, querida. Amanh vamos direto ao pastor da comunidade inglesa, sem ningum mais saber.  um bom amigo, e voc gostar muito dele. E depois
do casamento, vamos esquecer tudo isto e partir para nossa lua-de-mel.
- Lua-de-mel?
- J pensei em tudo, meu amor. Um amigo meu colocou seu iate  minha disposio.  claro que nem de longe podia imaginar que um dia aceitaria essa oferta, mas agora
penso que

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seria uma tima ideia fazermos um passeio pelo Nilo, at Luxor. Que tal?
Os olhos de Octavia pareciam duas estrelas.
- Mas, como adivinhou? Sempre tive vontade de fazer esse passeio, desde que cheguei aqui. E agora vamos sozinhos, s ns dois!
- Adivinhei porque nossas almas so uma s, lembra-se? Apenas, seu enxoval no ficar pronto a tempo,  lgico. Deixaremos isso para nossa volta.
- Mas eu j tenho tanta coisa!
- Ter mais, muito mais! Quero dar o mundo para voc, minha Octavia. Mas, por enquanto, ter de se contentar somente com minha companhia. Serei sua roupa, seu lenol,
seu cobertor. Faremos amor de manh, de tarde, de noite. porque nunca ficarei saciado! Os faras chamavam o Nilo de "Rio da Vida"; para mim, ele ser o "Rio do Amor"!
Minha amada.
E recomeou a beij-la, com lbios vidos, como se Octavia j lhe pertencesse. Excitado e cheio de desejo, sentiu que ela correspondia com a mesma emoo, e repetiu,
com voz rouca:
- Somos um s, Octavia, e nada neste mundo poder mais nos dividir!
Os beijos dele tornaram-se mais ardentes, e ela escondeu o rosto novamente em seu ombro.
- Estou assustada, Kane!
- Mas por qu, querida? No h mais perigo nenhum!
Diante do silncio dela, Kane perguntou carinhosamente:
- Est com medo de mim?
- No, no de voc. mas do que voc me faz sentir.
- E como  que se sente?
- Como naquela noite, na Esfinge.
- Como foi?
- O luar parecia brilhar dentro de mim e correr dentro de meu corpo todo... Foi lindo, mas...
Interrompeu-se, envergonhada.
- Que mais sentiu? Conte, querida!
- Parecia que voc me levava para cima, para junto das estrelas, e, foi tudo to bonito, eu no sei descrever!
- Se foi bonito, por que tem medo agora?
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- Porque o luar voltou, mas de forma diferente. Parece que ele agora tem chispas de fogo!
- Tem medo delas?
- Elas me deixam muito excitada, e eu no sei... quero-o cada vez mais. e mais! Ser que isso  errado?
Kane riu levemente, muito de mansinho.
- No, minha vida, minha pequena inocente, ao contrrio. Isso est absolutamente certo!
- Tem certeza?
- Absoluta! Quando nos casarmos, ensinarei a voc que isso se chama amor. Esse  o verdadeiro amor, que todos procuram, mas poucos tm a felicidade de encontrar.
- Ento, eu sei o que  o amor. Eu amo tanto voc, Kane! Tanto!
- Menos do que eu te amo, minha Octavia querida!
- No sabia que o amor era feito de luar e fogo ao mesmo tempo!
-  assim... e muito mais.
- Agora compreendo o que voc quis dizer sobre a Esfinge, sobre seu segredo. Voc me fez descobrir e entender tudo!
- Sim, Octavia. O enigma  a eternidade do amor; ter de ser procurada at ser encontrada.
- E eu a encontrei!
- Ns a encontramos, meu amor. Voc aprender a me amar com luar e fogo at queimar de paixo, como eu estou queimando agora.
- Ento ensine-me, Kane!
Os lbios dele colaram-se aos dela outra vez. Octavia, arrebatada, sentiu o feixe de luar penetrar em seu corpo, percorrer suas veias e transformar-se em labaredas,
que se fundiram na fogueira que ardia no corpo de Kane.
E quando, finalmente, Kane levou-a para junto das estrelas, Octavia teve certeza de que seu casamento seria uma viagem eterna, rumo ao infinito.
O luar desapareceu por completo, cedendo lugar somente para o fogo - o fogo do amor sem barreiras, que arde eternamente no corao dos que sabem amar!

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QUEM  BARBARA CARTLAND?

As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de 350 milhes de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita importncia aos aspectos
mais superficiais do sexo, o pblico se deixou conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais. E ficou fascinado pela maneira como constri
suas tramas, em cenrios que vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso
das reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e teatrloga. Mas Barbara
Cartland se interessa tanto pelos valores do passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por
sua luta em defesa de melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e  presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.

Fim
